Roma míope sobre Lutero

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20 Abril 2017

Quando, em 1517, teve que gerir o "caso Lutero", o florentino João de Médici, filho de Lourenço, o Magnífico, tinha quarenta e dois anos, quatro dos quem já vividos como Papa sob o nome de Leão X. Ele tinha sido iniciado na carreira religiosa aos sete anos de idade, nomeado cardeal - depois de uma intrincada negociação entre seu pai e Inocêncio VIII – aos treze e, assim que se tornou Papa (em 1513), confiou a arquidiocese de Florença ao seu primo Júlio de Médici. Júlio era filho de Juliano, irmão de Lourenço, o Magnífico, morto com uma facada no auge da Conspiração dos Pazzi (1478). Pouco depois de ter-lhe "doado" a arquidiocese, João nomeou Júlio cardeal e, logo em seguida, o quis a seu lado como vice-chanceler, ou seja, nas vestes de conselheiro político.

O artigo é de Paolo Mieli, publicado por Corriere della Sera, 18-04-2017. A tradução e de Luisa Rabolini.

Um dos consideráveis méritos de Lutero o herético. A Reforma Protestante vista por Roma - o livro de Volker Reinhardt que a editora Marsilio está prestes a publicar exatamente 500 anos após a afixação das 95 teses na porta da igreja do castelo de Wittenberg (embora Gianfranco Ravasi, com base em estudos recentes, duvide que isso tenha acontecido nos termos que conhecemos) - um dos méritos do livro, como dizíamos, consiste em ter retratado com extrema precisão a figura de Leão X, o Papa que se confrontou com o evento que, para a Igreja, representou uma crise extremamente grave. O autor, mesmo destacando os erros, desmonta uma a uma as lendas que desde o século XVI envolveram a figura do Pontífice florentino. A começar por aquela que lhe atribui as palavras: "Desde que Deus nos deu o papado, vamos desfrutá-lo". Isso, faz questão de precisar Reinhardt, "sem a pretensão de reabilitar o papado renascentista, mas com o intuito de considerar em sua totalidade um processo histórico complexo".

Por uma estranha coincidência, o ano em que Martin Lutero veio a público, em 1517, foi o mesmo de uma perigosa conspiração tramada contra Leão X por um grupo de cardeais liderados por Alfonso Petrucci, de Siena, que mais tarde foi estrangulado no Castelo de Santo Ângelo. O cardeal Raffaele Sansoni Riario, sobrinho do Papa Sisto IV della Rovere, que, caso o complô tivesse tido sucesso teria substituído o papa Médici, teve de renunciar - como punição - à propriedade de seu grande palácio perto do Campo dei Fiori. Mas a verdadeira retaliação para a tentativa de golpe fracassado foi, de acordo com Reinhardt, a nomeação pelo Papa Leão X de trinta e um novos cardeais, "seis é mais do que aqueles que tinham participado de sua eleição quatro anos antes". Assim, "com a repentina duplicação do número de cardeais, a relação de força entre o Papa e o Colégio dos Cardeais decididamente deslocou-se em favor do segundo". Isso, naquele momento, revigorou a posição de João de Médici. Desde então, a missão assumida por Leão X (a respeito do qual o parecer de Reinhardt, sem absolutamente minimizar as degenerações do papado renascentista, é no conjunto positivo) foi de tentar conciliar a situação entre França e Espanha, mesmo à custa de negligenciar as terras alemãs. Terras a partir das quais o Papa também tentou obter o máximo benefício para a Igreja (bem como para a sua família).

Foi no âmbito da manutenção desse difícil equilíbrio que João de Médici percebeu os primeiros sinais da crise que eclodiu em 1517, em Wittenberg. O humanista Girolamo Aleandro - chamado por seus inimigos de “Aleandro, o marrano" por seu excelente conhecimento do hebraico - que, em nome do Papa, por muito tempo atuou na terra de Lutero, tinha colocado imediatamente em alerta Leão X sobre o fato que a Alemanha estava preparando uma “tempestade de inusitada violência”. Os alemães, advertia Aleandro, tinham a convicção de que estavam sendo "depredados pela Cúria". Mas para Leão X a Alemanha estava e permanecia na periferia, "mesmo que isso ficasse dissimulado, de acordo com seu papel oficial de pai de todos os cristãos".

Leão X, apesar de não ter pessoalmente lido as teses luteranas, imediatamente intuiu as dimensões da avalanche que estava assomando em Wittenberg. Em uma carta para Gabriel della Volta - recém-eleito geral dos eremitas agostinianos para substituir Egidio da Viterbo, elevado ao posto de cardeal - o Papa Médici escreveu: "Eu quero que você lide pessoalmente com o problema Martinho Lutero, um padre de sua ordem. Como você certamente sabe, ele está introduzindo na Alemanha inovações sem precedentes e ensina aos nossos povos novas crenças. Você deve contrariar estas intrigas com a autoridade que lhe confere o seu cargo... Se você realizar tudo rapidamente, em minha opinião essa chama vai se extinguir de forma rápida. Tudo o que ainda é pequeno e truncado ao nascer, não resiste a contramedidas fortes. Mas se você esperar, caso o mal adquira força, eu temo que nós já não possamos apagar o fogo por nenhum meio" (3 de fevereiro de 1518).

Lutero, de qualquer forma, não se curvou. Isto levou, em junho de 1520, à Bula de excomunhão. Existe um detalhe sobre essa Bula que chama a atenção de Reinhardt; trata-se da acusação de colaboração secreta com os turcos. Qual o sentido de tal imputação? Lutero teria dito que a luta contra os turcos seria contra a vontade de Deus, que, pelos muçulmanos, pretendia punir a injustiça dos cristãos. Na verdade, percebe o historiador, Lutero tinha efetivamente feito uma referência aos turcos como um "acento" com que Deus estava punindo os cristãos, esquecidos de seus compromissos. Ele havia declarado também que, antes de elogiar a "guerra turca", as potências da Europa deveriam se arrepender de seus pecados e que somente após este ato de arrependimento, a luta contra os inimigos do cristianismo poderia ter sucesso. Mas a verdade era que Lutero não tinha dúvida de que a guerra contra o Império Otomano nas condições existentes era desejada por Deus, e, portanto, poderia ser considerada uma missão cristã. Sua rotulação sumária como simpatizante dos infiéis significava "distorcer o significado de suas palavras" e que "qualquer um que tivesse lido seus escritos poderia verificar isso".

Realmente, pergunta-se Reinhardt "a Cúria era tão obtusa a ponto de não entender o autêntico significado de suas afirmações?" E, realmente, "era tão tendenciosa com relação à imagem do inimigo para atribuir ao herege também essa traição do Cristianismo"? A resposta a estas perguntas é que "existem muitos indícios que a percepção romana da parte oposta já era na época tão turvada que lhe se atribuiu por reflexo as mais baixas motivações". Foi então que, de qualquer forma, o equilíbrio de poder entre o grande Pontífice e o grande herege começou a inverter-se. E Lutero aproveitou a oportunidade: em 10 de dezembro 1520, junto com seus alunos, ele queimou a bula de excomunhão diante das muralhas de Wittenberg.

Em 27 de janeiro de 1521 teve início a Dieta de Worms que, apesar da Bula de excomunhão ter despertado uma tempestade de indignação na Alemanha, terminou com um edito imperial de condenação de Lutero (16 de maio). No entanto, Lutero reconheceu naquela Dieta seu sucesso pessoal. Aleandro tinha lutado até o fim para evitar que ao monge fosse concedido o direito de resposta.

Depois foi o próprio Aleandro que pronunciou, em 13 de fevereiro, na presença dos príncipes eleitores, uma alegação de três horas contra o herege. Em 16 de abril, no entanto, foi concedida a palavra a Lutero. Este, ao contrário de Aleandro, diz Reinhardt "tinha uma ideia bem clara de quem eram as pessoas que o ouviriam: eu sou alemão, franco e direto, a arte do fingimento não é para mim – assim ecoava a sua mensagem de abertura que pretendia angariar-lhe a simpatia, ao menos, dos príncipes alemães", sintetiza Reinhardt.

Em 1521, Leão X morreu com a idade de quarenta e seis anos. O conclave ficou paralisado e hesitou diante da perspectiva de nomear outro Médici como papa. Em janeiro de 1522 foi identificado um sucessor: com sessenta e três anos, Adriaan Florensz, nascido em Utrecht (que seria o último papa não italiano antes de João Paulo II), na época bispo de Tortosa na Espanha.
Ele assumiu o nome de Adriano VI e por sua índole poderia ter oferecido uma abertura à Reforma: convidou para Roma Erasmo de Roterdã que, no entanto, preferiu ficar em Basileia. Forçado a prosseguir na política dos grandes equilíbrios iniciada por seu antecessor, refém de uma Cúria mais do que hostil em relação a ele, Adriano VI morreu depois de um ano e meio do seu pontificado, em 1523.

E foi a vez do outro Médici. Depois de oito anos como "vice Papa" de Leão X, Júlio de Médici ascendeu por sua vez ao trono papal em 19 de novembro de , e assumiu o nome de Clemente VII. Francesco Guicciardinio foi o primeiro a questionar a política “irrazoável” daquele Papa, que, apesar de ser um intelectual de consistente formação, daquele dia até a sua morte (1534) deu à Igreja uma década de total incerteza. Tanto é assim, que o grande historiador alemão da Reforma, Leopold von Ranke, o teria chamado, no século XIX, o "mais nefasto de todos os Papas". Depois de ter chegado, com muito esforço, a uma decisão após longa reflexão sobre as vantagens e desvantagens de um assunto, escreve Reinhardt (na esteira da análise de Guicciardini), Clemente VII caia refém da "força persuasiva das razões opostas"; suficiente para revogar a decisão tomada um pouco antes e emitir uma ordem contrária.

Leão X e Júlio de Médici haviam sido “uma equipe forte porque neutralizavam reciprocamente suas fraquezas”. Com Clemente VII, no entanto, o caos passou a reinar no Vaticano, ainda mais pelo fato de que os lobbies do partido francês e do espanhol alternavam-se na Cúria. Foi justamente Francesco Guicciardini que detectou que muitas vezes eram enviados correios com importantes comunicados para a França ou Espanha aos quais, em curto espaço de tempo, seguiam-se mensageiros que revogavam as disposições anteriores. Eventualmente anulando acordos recém concluídos. Desta forma, de acordo com Reinhardt, "eram desconsiderados tratados válidos e fomentados rancores". Além disso, o novo papa Médici "não tinha faro para os perigos que se aproximavam, enxergava perigos onde não existiam, e subestimava-os onde, ao contrário, mostravam-se ameaçadores". Mas, observa o historiador "embora esses diagnósticos sejam, sem dúvida, corretos, não são suficientes para explicar os fenômenos de dissolução, até o limiar da autodestruição, do centro de poder do Vaticano entre 1524 e 1534".

Quanto a Lutero, aliás, foi muito sério o equívoco em que Clemente VII caiu em 1525, quando ele considerou que o herege teria sido a inspiração da guerra camponesa que devastou grande parte do sul da Alemanha. E que, portanto, após a derrota dos rebeldes, pagaria as consequências daquele episódio arriscado. Não foi percebido pela Cúria que na repressão sangrenta da guerra camponesa haviam se “unido em concordância os príncipes imperiais católicos e os luteranos". Ficou então evidente "a incapacidade romana para distinguir entre reformistas radicais, como Thomas Müntzer", e a Reforma fiel à autoridade. Clemente VII morreria em 1534 (após sua oposição ao divórcio de Henrique VIII de Catarina de Aragão e de ter causado o cisma anglicano). Lutero teve oportunidade de lidar com outro papa, Paulo III (Alessandro Farnese), e morreu em 1546.

Hoje "não se trata de estabelecer quem estava certo e quem estava errado - como fizeram no século XVI – nem de indicar quem apresentava os melhores argumentos ou a mais alta moralidade". No livro de Reinhardt não existem nem "bons" e nem "maus", e nem se expressam as preferências por um partido ou outro. Principalmente não se pretende determinar quem foi o primeiro a "denunciar, difamar ou demonizar", mas sim reexaminar os eventos que levaram à ruptura que sacudiu a história da Igreja. A mais grave de todo o milênio.

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