Erasmo: nem com Roma, nem com Lutero. Artigo de Massimo Firpo

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06 Dezembro 2016

“O diálogo Ciceronianus, apresenta um Erasmo tão corajoso a ponto de combater as suas batalhas culturais e religiosas em ambas as frentes em defesa de um cristianismo sério, operoso, moralmente responsável, avesso à pompa mundanizada da hierarquia eclesiástica, assim como às inúteis disputas teológicas, úteis apenas para criar divisões e conflitos.”

A análise é do historiador italiano Massimo Firpo, professor da Universidade de Turim e da Scuola Normale Superiore di Pisa, em artigo publicado no jornal Il Sole 24 Ore, 04-12-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O diálogo Ciceronianus, de Erasmo, foi publicado na Basileia, em março de 1528. No ano seguinte, apareceram outras duas edições dele, e uma quarta em 1530. Um sucesso imediato, como geralmente acontecia com todos os escritos do grande humanista holandês, mestre das bonae litterae em todos os cantos da Europa.

Há muito tempo, aliás, ao menos desde a publicação dos Adagia (1500), era um sucesso a coleção de provérbios antigos várias vezes enriquecida e reimpressa, assim como muitos dos seus escritos, aos quais se seguiram, depois, o Enchridion militis christiani (1503), o Elogio da loucura (1511), o texto crítico do Novo Testamento em grego e o Institutio principis christiani (1516), o Colloquia (1517), a Querela pacis (1521), os comentários bíblicos, as monumentais edições dos Padres da Igreja, as antologias de cartas, para citar apenas as obras mais célebres.

Mas tudo mudou nos últimos dez anos, depois que, em 1517, Martinho Lutero tinha afixado na porta do castelo de Wittenberg as suas 95 teses. A unidade da respublica christiana, ou seja, o próprio espaço físico, histórico, cultural e religioso do magistério erasmiano, de fato, vinha se desagregando em um crescendo de polêmicas, de controvérsias, de ódios inextinguíveis, de condenações, de perseguições.

O próprio Erasmo tinha acabado no olho do furacão, acusado por uns de ter sido a galinha que tinha posto os ovos eclodidos depois por Lutero, e por outros de tinha vilmente renunciado ao seu compromisso com a reforma da Igreja e de ter ficado, no fim das contas, do lado daqueles monges corruptos, daqueles frades ignorantes, daquele papado simoníaco que, no passado, ele não tinha perdido nenhuma oportunidade de envergonhar publicamente.

Na realidade, depois da entrada em cena daquele monge saxônico cada vez mais veemente e trovejante, muito distante do seu modo de ser e de pensar, Erasmo tinha se calado, tinha deixado ser, tinha fingido não ver, consciente de que ajudar a apagar os seus ardores significaria também o fim de toda esperança de reforma da Igreja.

Por isso, ele não tinha tomado posição quando Lutero publicou os seus grandes tratados de 1520, também quando tinha denunciado no pontífice de Roma a besta do Apocalipse, nem quando tinha jogado às chamas a bula de condenação de Leão X e o Corpus iuris canonici em 1521, nem quando – naquele mesmo ano – tinha se recusado a se curvar e a se retratar das suas doutrinas perante Carlos V.

Ele tivesse esperado até 1524, sem intervir sobre as questões que mais enfureciam os ânimos de ambos os lados, sobre as indulgências, sobre o papel dos padres, sobre o purgatório, sobre os sacramentos. Para desafiar Lutero, ele tinha escolhido a questão totalmente humanista do livre arbítrio e, com ela, da dignidade do homem: uma questão crucial que investia sobre o próprio modo de ser cristão, contrapondo a uma fé totalmente teológica, fundada na Palavra de Deus e nos Seus insondáveis  mistérios, uma fé totalmente moral, fundada, ao invés, na capacidade do Evangelho de inspirar caridade, justiça, concórdia.

Foi o próprio Lutero, que também detestava com todas as suas forças aquele refinado literato, incapaz de entender e de aceitar o escândalo da fé, que reconheceu a sua grandeza, reconhecendo-lhe o fato de ter sido o único capaz de morder-lhe na garganta.

Tudo isso, naturalmente, permanece entre as linhas do Ciceronianus, mas, ao mesmo tempo, constitui um marco imprescindível dele. Isto é, contribui para dar a entender como Erasmo, grande admirador de Cícero, decidiu, depois, se distanciar dele. Não porque tivesse mudado de ideia, muito pelo contrário, ou, melhor, precisamente para ser fiel ao modelo autêntico de Cícero, à sua capacidade de colocar a eloquência a serviço dos objetivos que buscava e, portanto, para se adaptar às circunstâncias, visar ao útil e ao eficaz, nada bloqueada em um álgido purismo que traía profundamente o seu espírito.

Não era Cícero, em suma, o objetivo polêmico desse livro, mas os ciceronianos e, em particular, os literatos romanos que tinham erigido aquele estilo a modelo exclusivo não só das exercitações retóricas com que celebravam a Roma papal como herdeira da Roma imperial e a exaltavam como Jerusalém eterna onde se realizara uma espécie de síntese suprema entre civilização clássica e cristianismo, da qual eles eram os representantes e os sacerdotes. Uma cultura estéril e vazia, tão satisfeita consigo mesma a ponto de ignorar a turva decadência in capite et in membris que infectava a Igreja a partir da Cúria papal, insensível a toda proposta de renovação e surda às reivindicações religiosas que encontravam em Erasmo e Lutero dois representantes, embora diferentes.

Uma cultura totalmente literária, reduzida a imitação servil e, portanto, incapaz de renovação, imbuída de neopaganismo, que presumia ter alcançado o auge ao reproduzir na língua de Cícero a própria doutrina cristã, os seus mistérios, as suas liturgias, dando origem àquela que foi definida como uma “teológica retórica”, entrelaçada com citações clássicas, como no Liber sententiarum de Paolo Cortesi (1504), por exemplo, em que os santos se tornavam heroes, Tomás de Aquino, o Apollo christianorum; os sacerdotes, flamines; o inferno, Orcus; e assim por diante.

Primeiro volume de uma coleção Corona Patrum Erasmian (da qual outros são iminentes), promovida pelo Centro Europeu de Estudos Humanísticos “Erasmo da Rotterdam”, essa excelente tradução com texto latino na frente e um douto comentário como complemente se abre com uma introdução que contextualiza finamente o escrito erasmiano tanto nos desenvolvimentos do seu pensamento e do seu modo de entender valor e significado da cultura, quanto na específica tradição humanista a que se referia (Ermolao Barbaro, Lorenzo Valla, Angelo Poliziano, Giovan Francesco Pico) e, portanto, das polêmicas que investiam sobre o presente.

Se, justamente naqueles anos, o grande sucesso da imprensa, a afirmação dos Estados absolutos, a fratura religiosa em curso contribuíam para a implacável afirmação das línguas vulgares, Erasmo permanecia fiel àquele latim que era e continuava sendo o instrumento linguístico de uma comunicação europeia; mas longe de embalsamá-lo em um vazio perfeccionismo formal, ele o repropunha como uma língua viva e vital, às vezes também apressada, precisamente por ser funcional acima de tudo aos conteúdos que transmitia, aos princípios que defendia, aos objetivos que se propunha, à ação concreta que estimulava nos termos propriamente políticos de uma apaixonada militância cultural e religiosa.

Daí as contínuas intervenções de Erasmo sobre as novas edições dos seus escritos, para melhorá-los e corrigi-los quando necessário e, especialmente, para repropor uma contínua atualização em função das exigências do presente.

Para entender o Ciceronianus, além disso, é preciso ter em mente que ele foi escrito na sequência do terrível saque de Roma de 1527, quando os lanceiros imperiais tinham arrasado a cidade papal em um indescritível crescendo de violências, pilhagens, opressões, atrocidades de todos os tipos. Marcou o fim da grande temporada renascentista dos pontificados dos Borgia, Della Rovere e Médici, dos Quartos de Rafael e da Capela Sistina de Michelangelo.

Toda a Europa ficou abalada com isso, e por toda a parte se quis ver naquela tragédia uma justa punição de Deus pela corrupção da Cúria papal. Mas, entre os literatos, também se difundiu a consternação com os danos incalculáveis que esses soldados puderam causar ao inigualável patrimônio cultural de que Roma era herdeira.

O próprio braço direito de Lutero em Wittenberg, Felipe Melâncton, disse estar muito preocupado com as bibliotecas romanas, guardiãs de um saber e de uma civilização aos quais a própria Alemanha era devedora. Ao contrário, o manso Erasmo de Rotterdam, em vez de deplorar o que tinha acontecido, quis publicar aquele Ciceronianus que condena sem apelo os literatos romanos, “mais rico de literatura do que de piedade”.

Não se trata propriamente de um Erasmo moderado, em suma, um Erasmo convicto apologista do catolicismo romano, um Erasmo oportunista e dissimulador, “enguia”, “vir duplex”, como Lutero o definiu e como muito ainda o apresentam; mas um Erasmo tão corajoso a ponto de combater as suas batalhas culturais e religiosas em ambas as frentes em defesa de um cristianismo sério, operoso, moralmente responsável, avesso à pompa mundanizada da hierarquia eclesiástica, assim como às inúteis disputas teológicas, úteis apenas para criar divisões e conflitos.

“Summa nostrae religionis est pax et unanimitas”, escrevia ele em 1523. Entende-se muito bem, portanto, por que os luteranos o detestavam cordialmente e os católicos se apressaram a inserir no Índice dos livros proibidos a sua Opera omnia.

  • Desiderio Erasmo da Rotterdam. Il Ciceroniano, editado por Francesco Bausi e Davide Canfora, com a colaboração de Elisa Tinelli. Turim: Loescher, 394 páginas.

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