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27 Outubro 2017

Em 1917, 400 anos depois das 95 teses de Lutero, várias igrejas que surgiram a partir da Reforma estavam diante de um problema: sentir-se unidas por uma celebração que era motivo de coesão identitária ou enfrentar o fato de que seus países estavam no meio de uma guerra mundial? Aceitar o legado do monge agostiniano, que serviu de articulação entre o final da Idade Média e a modernidade, ou adaptar-se à política dramática de guerra que colocava como primeira exigência a de combater o inimigo? Pela primeira vez, talvez, as igrejas luteranas dos EUA sentiram-se plenamente americanas, apesar da filiação direta das "igrejas irmãs" da Alemanha. E o que dizer dos protestantes que, na Europa, viram seus próprios territórios ocupados pela Alemanha nazista? É possível compartilhar a mesma fé em Deus com aqueles contra quem está se lutando?

O artigo é de Alberto Corsani, publicada por il Manifesto, 26-10-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

Lidar, hoje, com cinco séculos de Reforma protestante também inclui esse reconhecimento: por mais que a mensagem de fé em Jesus Cristo seja universal e dirigida a toda a humanidade, a família protestante no mundo, em relação à igreja católica romana vê-se fracionada, embora qualquer pessoa, em qualquer latitude pode se sentir partícipe de uma comunidade cristã; claro, reunir-se no âmbito de uma igreja significa ainda ter que lidar com a dimensão terrena da existência, dimensão distante de ser perfeita; mas, por outro lado, nenhuma igreja, na visão protestante, pode esperar ser a única. E, de fato, aquelas nascidas da Reforma também têm uma identidade nacional, a partir dos Valdenses, disseminados como movimento já três séculos antes de Lutero.

A consciência de suas limitações caracteriza a essência protestante: um conhecimento de si que encontra a sua vazão natural no enraizamento social. Se isso para os Valdenses acabou se traduzindo na defesa extenuante de seu próprio terreno montanhoso, para todos os demais tal atitude significou e ainda significa inserir-se na sociedade e investir na comunidade civil a resposta pessoal do chamado (vocação) recebido de Deus, realizando obras memoráveis, mas também atrocidades como o regime sul-africano do apartheid, que foi uma blasfêmia para a doutrina calvinista. Contudo, contra as infecções podem ser aplicados anticorpos: isso é o que aconteceu quando a Aliança Mundial das Igrejas Reformadas (hoje, Comunhão Mundial das Igrejas Reformadas - ramo calvinista da Reforma) suspendeu na década de 1980 duas igrejas sul-africanas de origem holandesa pelo apoio dado ao regime racista; uma acabou sendo perdida no caminho e a outra foi readmitida depois de condenar os próprios posicionamentos.

Cada um de nós - pela definição de Lutero – é simul iustus et peccator, ao mesmo tempo tornado justo por Deus mas, ainda assim, humano e propenso ao pecado.

Em torno dessa dialética entre universalidade e enraizamento, desenvolveram-se também as iniciativas do 500º aniversário, que começaram em 31 de outubro de 2016 na catedral luterana de Lund, na Suécia, com a participação do papa Bergoglio para indicar uma desejada nova fase nas relações entre catolicismo e igrejas nascidas da Reforma. A sua presença junto à "família luterana mundial”, mesmo causando problemas a alguns opositores no âmbito católico, que veem a Igreja de Roma "protestantizar-se", sinalizou que existem condições para iniciar uma leitura compartilhada, tanto quanto possível, do passado.

Um novo olhar para uma nova compreensão - como testemunhado pela bela conferência organizada em novembro passado pela Conferência Episcopal e pelas igrejas evangélicas, justamente em Trento, que foi a sede do Concílio - por parte de igrejas que têm um problema em comum: paróquias católicas e igrejas do protestantismo histórico estão se esvaziando, sob a influência cruzada da secularização e do progresso científico.

A tendência natural protestante para a consciência crítica (por séculos listada sob a rubrica de "individualismo protestante") acaba por expor as igrejas da Reforma a uma autocrítica ferrenha, não avistada por enquanto no horizonte de outros grupos neo-protestantes (evangélicos) que veem aumentar os fiéis e a participação nos serviços litúrgicos, tanto na Ásia e na África como em países como o nosso, que acolhem (quando o fazem) imigrantes evangélicos vindos do terceiro mundo.

Há também outros âmbitos em que as igrejas nascidas da Reforma se manifestam e dialogam com a Igreja católica (e em parte também com o mundo ortodoxo). Já estabelecidos há décadas, os estudos teológicos em parceria com as Universidades católicas e as traduções e estudos filológicos sobre a Bíblia, demonstram as sinergias nos setores de acolhimento e assistência, como testemunhado pelos "corredores humanitários" para requerentes de asilo, iniciados em março de 2016 pela Federação das igrejas protestantes da Itália com a Comunidade de S. Egidio e a ‘Tavola’ Valdense, através de um protocolo assinado com os ministérios do Interior e das Relações Exteriores, modelo retomado durante o último verão pelos protestantes franceses.

As notas negativas situam-se mais no nível eclesiológico que teológico: a estrutura hierárquica da Igreja Católica, apesar da obra de décadas de alguns setores de vanguarda (por exemplo, no campo dos casamentos inter-religiosos), torna-lhe difícil considerar as outras igrejas no mesmo plano. Além disso, no plano ético é que ocorrem as maiores discussões.

O caráter mais normativo que dialogante da Igreja de Roma é rejeitado por ser 'impositivo' por parte da cultura secular: reprodução assistida, fim da vida, eutanásia e suicídio assistido e ética sexual, diante de posições bastante rígidas no lado católico, sinalizam uma tendência das igrejas protestantes que se foca muito mais sobre a autonomia e consciência do indivíduo, em linha com a prática do livre acesso ao fundamento da vida cristã, ou seja, as Escrituras bíblicas, sede da revelação de Deus para a humanidade. Acontece, porém, que o mundo não-católico, na Itália, tende a interpretar essa acentuação na liberdade do indivíduo, empurrando-a um pouco "além".

O protestante crente é, de fato, sim livre, mas "livre para servir", ou seja, para servir, amando-o, o próprio próximo (Epístola aos Gálatas, 5, 1-3): e isso acontece com o cuidado dos próprios semelhantes, dentro da sociedade e não nas margens da mesma; além disso, é na sociedade e na política que se investe a existência do/a crente protestante, envolvido com a própria consciência e consciente de não representar uma igreja inteira.

Na raiz dessa atitude, no entanto, está a crença de que essa liberdade não é o resultado das nossas conquistas, mas nos foi dada. Mais que livre, o/a protestante sabe que foi "tornado/a livre", e por isso é grato a Deus. Ter sido tornado/a livre significa saber que dessa autonomia um dia vamos ter que responder a quem a doou para nós gratuitamente. Cada resultado é provisório, da mesma forma que esse ano de celebrações, que deve ser entendido como um novo, adicional ponto de partida.

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