“Como bom jesuíta, Francisco sabe que a autocrítica é o remédio contra as críticas”

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03 Julho 2017

Igreja Católica e pedofilia: crimes cometidos por padres e religiosos individuais e isolados ou problema mais amplo que põe em xeque a instituição eclesiástica na sua estrutura? Falamos a respeito com Augusto Cavadi, consultor filosófico e teólogo leigo, autor, há alguns anos, do livro Non lasciate che i bambini vadano a loro. Chiesa cattolica e abusi su minori [Não deixem que as crianças vão até eles. Igreja Católica e abusos de menores] (com prefácio de Vito Mancuso, editora Falzea).

A reportagem é de Luca Kocci, publicada por Il Manifesto, 30-06-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

O cardeal Pell, acusado de graves crimes sexuais por um tribunal australiano, é um prelado da mais alta cúpula da hierarquia eclesiástica católica e foi colocado nessa posição pelo Papa Francisco. Essas acusações podem lançar uma sombra também sobre o pontífice e sobre a ação reformadora?

Eu acho que um papa, ao dar cargos aos colaboradores, não pode se basear em rumores sobre os antecedentes distantes. Deve avaliar com base em dados objetivos ou, pelo menos, confiáveis. Teria sido grave, ao contrário, se ele tivesse oposto algum obstáculo ao fato de que, agora, o cardeal se apresentasse no tribunal e fosse processado como um cidadão comum. Isso significaria que prevaleceria, mais uma vez, o princípio conspiratório da roupa suja que se lava, quando se lava, em casa. Mas, aparentemente, Pell responderá às acusações, dirigindo-se diretamente ao tribunal na Austrália. E esse me parece ser um passo à frente.

Mudou alguma coisa na Igreja Católica sobre a questão da pedofilia, na passagem do Papa Wojtyla ao Papa Ratzinger até, hoje, ao Papa Francisco?

Eu distinguiria as mudanças de percepção do fenômeno da sua efetividade. É claro que, com João Paulo II e com Bento XVI, que, como cardeal prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, administrava a questão ainda antes de se tornar papa, prevalecia a preocupação de salvar a imagem da Igreja-instituição no que diz respeito aos direitos dos abusados. E disso derivava uma certa resistência das autoridades eclesiásticas a deferir os padres denunciados à autoridade judiciária civil.

E com Francisco?

O Papa Francisco, como bom jesuíta, entendeu que a autocrítica é o melhor método para conter as críticas e que uma maior transparência até mesmo sobre os defeitos eclesiásticos é o único modo de evitar o desastre irreversível. No entanto, episódios muito recentes, como a renúncia da Pontifícia Comissão para a Proteção dos Menores de dois componentes leigos renomados, como Marie Collins e Peter Saunders (abusados, por sua vez, por padres católicos), que denunciaram resistências e atrasos processuais, atestam que, como em outros setores da vida católica, as conversões proclamadas de cima custam a se encarnar em níveis inferiores. Aqui, como em outros âmbitos, não é suficiente que um papa mude se, nos anos do seu governo, ele não consegue mudar o papado e toda a máquina eclesiástica que, infelizmente para aqueles que compartilham a fraternidade anunciada por Jesus, depende, verticalmente, do papado.

Por que a pedofilia clerical é uma praga tão difícil de erradicar? Trata-se de erros cometidos por poucas “maçãs podres” ou existe, ao contrário, um problema estrutural que diz respeito à instituição eclesiástica?

Apesar de ter sido violentamente atacado por muitos padres por causa do meu livro sobre a questão da pedofilia, quero reiterar, por honestidade intelectual, aquilo que eu escrevi nas primeiras páginas: a pedofilia não está estatisticamente mais disseminada entre padres célibes do que entre os pastores protestantes casados, professores, treinadores de futebol ou vendedores ambulantes. Portanto, existem causas remotas, gerais e genéricas, que não devem ser subestimadas. Além disso, há causas comuns específicas ligadas principalmente ao mundo católico.

O quê?

Destaco duas: o clima de morbidade que, na formação dos padres, envolve e deforma toda a esfera sexual e o papel de pai-patrão que o padre desempenha na comunidade paroquial. O primeiro fator influencia as atitudes perversas dos adultos. O segundo condiciona o silêncio reverente dos abusados. Se, a esses dois elementos, acrescentarmos a quase certeza da imunidade dos culpados no passado, também recentemente, temos uma grade interpretativa bastante esclarecedora.

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