“O verdadeiro erro foi nomear Pell.” Entrevista com Marie Collins

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03 Julho 2017

“Eu não conheço as motivações da acusação e não julgo uma pessoa como culpada antes de ser processada. No entanto, o que é certo é que o cardeal Pell é culpado de não ter tratado de modo justo os casos de pedofilia cometidos por padres quando era arcebispo na Austrália. A sua nomeação ao Vaticano foi um tapa, acima de tudo, contra as vítimas australianas, depois contra aqueles que trabalham na Igreja contra a pedofilia. Pell não devia se esconder do outro lado do Rio Tibre sem responder às vítimas. A sua licença, embora positiva, chega tarde demais, na minha opinião.”

A reportagem é de Paolo Rodari, publicada por La Repubblica, 30-06-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A suspensão de Pell não representa uma revanche contra a Cúria Romana, segundo Marie Collins, a vítima irlandesa da pedofilia por parte do clero, que, em março passado, renunciou ao seu cargo vaticano por causa das resistências internas ao seu trabalho de limpeza, mas, “embora tardio, continua sendo o sinal de que algo está mudando”.

Eis a entrevista.

A licença de Pell devia ter chegado antes?

Para mim, sim. Pell devia ser tratado de acordo com os procedimentos que preveem que, quando se é acusado, deixam-se as atribuições até prova em contrário. Em todo o caso, agora que existe uma acusação explícita contra ele, para além das outras acusações de não tratado de modo justo os casos dos padres quando ele era o responsável pelas dioceses australianas, a licença é uma boa notícia.

O que não funciona no Vaticano?

Foi decidido que os bispos negligentes na luta contra os abusos sejam removidos. Mas eu acho que essa disposição nunca foi aplicada. Por quê? Eram apenas belas promessas? Ou o quê?

Meses atrás, era impensável que um alto prelado da Cúria Romana saísse de cena para responder a acusações de pedofilia?

Acho que sim. É a primeira vez que um cardeal da Cúria Romana é acusado. No passado, outras figuras de relevo na Igreja também sofreram acusações, mas aqui se trata de uma personalidade com um cargo de primeiríssimo plano em Roma.

O que você acha do inquérito e das acusações australianas?

Não sei nada a respeito e não me pronuncio. Mas insisto em dizer que voltar para a Austrália e tirar tempo em relação ao trabalho ordinário é decisivo. Isso significa que, talvez, entendeu-se que nunca se deve fugir das acusações, mas sim respondê-las. O objetivo deve ser sempre o de se chegar à verdade, buscá-la e apontar para ela. A acusação vai permitir tudo isso, e isso só pode ser positivo tanto para Pell quanto para a Igreja.

O caso tem alguma relação com as acusações feitas por você em relação às resistências internas?

Não tem nada a ver com Roma, mas é simplesmente inerente a um purpurado que reside em Roma. Mas os fatos a serem verificados ocorreram em outros lugares e há muitos anos.

Para Francisco, o que tudo isso representa? Também para ele não é fácil fazer limpeza?

Para Francisco, não é fácil, é evidente. Mas se a impunidade não é concedida a ninguém, nem mesmo a um cardeal importante como Pell, Francisco não tem nada a temer. Esse é o único caminho a se percorrer, também diante da dor de tantas vítimas. O importante é não fugir, não acobertar. Nesse sentido, o anúncio dessa quinta-feira, sobre a licença, é uma virada.

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