“O próprio Deus já presenciou e participou do sofrimento. Nesse sentido, Deus é mais pathos que logos”. Entrevista especial com Alonso Gonçalves

"No Dia de Finados, temos a oportunidade de refletir sobre essa relação com Deus a partir da experiência da morte, tendo como horizonte a esperança que transcende a vida material e nos remete para algo mais, para além da morte, a partir da ressurreição de Jesus", afirma o doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo

Foto: Portal Luteranos

Por: Patricia Fachin e João Vitor Santos | 01 Novembro 2020

Em momentos de dor e sofrimento como o que a humanidade está vivenciando por causa dos efeitos da crise pandêmica do coronavírus, especialmente diante de milhares de mortes e da impossibilidade de muitas pessoas se despedirem de seus familiares, nos perguntamos onde está Deus. Esse questionamento, diz Alonso Gonçalves, "é perfeitamente compreensível. Mas o que não podemos esquecer é que o próprio Deus já presenciou e participou do sofrimento. Nesse sentido, Deus é mais pathos que logos".

 

Segundo ele, quando lidamos com a morte diariamente, "é preciso dar respostas, ainda que elas sejam insuficientes, para a morte", mas acima de tudo "é preciso crer em Deus apesar das contingências e da imprevisibilidade da vida. Mas também crer em Deus como ato de amor". Apesar de as pessoas se decepcionarem com Deus "quando são frustradas por seus desejos e vontades não serem atendidos", é preciso compreender que "Deus não é uma máquina que funciona de acordo com alguns comandos. Antes, é um relacionamento pessoal e isso implica em parceria, comunhão e relação finitude-infinitude", diz.

 

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, Alonso Gonçalves também reflete sobre a indiferença política, social e espiritual diante dos efeitos da pandemia de covid-19 e critica aqueles que em seus perfis nas redes sociais "se apresentam como 'fiéis a Jesus Cristo, miserável pecador', mas quando têm oportunidade estão mandando pessoas para o inferno, com xingamentos e palavras que não são compatíveis com gente que se diz 'conhecer' Jesus". Ele também recorda o espírito profético de teólogos protestantes membros da igreja Confessante, como Karl Barth, Paul Tillich, Jürgen Moltmann e Dietrich Bonhoeffer, que apesar das suas diferenças teológicas compartilharam a "denúncia profética". "Enquanto a igreja alemã apoiava o III Reich, a igreja Confessante, ainda que minoritária, resistia à barbárie. Penso que esse é o caminho para este tempo no contexto evangélico e sua relação com um projeto político identificado com a morte tanto de 1964 em diante quanto da irresponsabilidade na pandemia", conclui.

 

Alonso Gonçalves (Foto: Arquivo pessoal)

Alonso Gonçalves é doutor e mestre em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo - UMESP, autor da tese "Por uma teologia protestante das religiões: uma proposta teológica latino-americana em diálogo com a visão trinitária de Jürgen Moltmann", e graduado em Filosofia pelo Instituto de Ciências Sociais e Humanas do Centro de Ensino Superior do Brasil - ICSH/CESB e em Teologia pela Faculdade Teológica Batista de Campinas - FTBC/FAETESP.

É Pastor na Igreja Batista Central em Pariquera-Açu, SP, e desenvolve assessoria bíblica e teológica em comunidades religiosas e encontros ecumênicos.

Também atua como docente em Seminários e Faculdades de Teologia e integra os Grupos de Pesquisa "Espiritualidades Contemporâneas, Pluralidade Religiosa e Diálogo" - ANPTECRE/SOTER, "Religião e vida cotidiana: interpretações historiográficas e teológico-literárias" - UMESP e "Paul Tillich de Teologia e Cultura" - UMESP.

 

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line - Como, à luz da experiência de Cristo, podemos compreender as dores e o sofrimento gerados pela crise pandêmica e vivenciados por milhares de famílias no mundo todo?

Alonso Gonçalves - Este é um momento muito delicado para a sociedade brasileira que passa por essa tragédia. Primeiramente, solidariedade aos enlutados e machucados com a dor da perda. Antes de números, são vidas.

Respondendo à pergunta, diria que em momentos de dor e sofrimento diante da morte, as pessoas se questionam onde está Deus quando as tragédias acontecem. Esse questionamento é perfeitamente compreensível. Mas o que não podemos esquecer é que o próprio Deus já presenciou e participou do sofrimento. Nesse sentido, Deus é mais páthos que logos. Duas experiências marcantes de Deus e o sofrimento que destaco. A primeira com o povo no exílio babilônico. Quando da invasão do exército de Nabucodonosor (2Rs 24-25), destruiu a cidade de Jerusalém e o Templo, centro de referência para a presença de Deus no meio do povo. As pessoas perderam suas terras, tiveram sua religião questionada, perderam integrantes da família e o sentimento de nação foi duramente abalado. Foram habitar em terra estranha (Sl 137). Deus se compadece com a dor do povo, sofre com suas dores. Diante da tragédia do exílio, profetas como o Segundo Isaías irão transportar as histórias de Deus com o povo de Israel para o futuro (Is 40) e delas tirar esperança de dias melhores.

 

 

Uma segunda experiência de Deus com o sofrimento se deu no Calvário, outra tragédia que Deus participa e sofre junto com o seu filho. No Gólgota, aparece a impotência divina. Deus não planeja, muito menos permite, mas suporta a morte como algo inevitável por amor. Ele sofre com Jesus na cruz e por essa razão ele sabe muito bem o que é passar por tragédias. Diante da tragédia da morte, Deus ressuscitou um crucificado. Portanto, à luz da experiência de Cristo, a ressurreição é uma esperança no horizonte, porque ela (a esperança) não morreu com o crucificado, antes ela ressuscitou com o ressuscitado.

 

IHU On-Line - Como a experiência da pandemia pode ressignificar a morte, especialmente neste Dia de Finados?

Alonso Gonçalves - Como pastor de uma comunidade de fé, passo por momentos em que trato diretamente com a morte de pessoas muito queridas na convivência comunitária. Nesse tempo pandêmico, não fui poupado quanto à perda de gente querida, por conta das complicações da covid-19. O auxílio pastoral em momento de luto é fundamental.

Quando estamos lidando com a morte quase que diariamente, é preciso dar respostas, ainda que elas sejam insuficientes, para a morte. Pontuo que é preciso crer em Deus apesar das contingências e da imprevisibilidade da vida. Mas também crer em Deus como ato de amor. As pessoas se decepcionam com Deus quando são frustradas por seus desejos e vontades não serem atendidos. Levantam questionamentos como este: “Se Deus não pode me proteger e a todos a minha volta, para que ele serve?”. Mas Deus não é uma máquina que funciona de acordo com alguns comandos. Antes, é um relacionamento pessoal e isso implica em parceria, comunhão e relação finitude-infinitude.

 

 

No Dia de Finados, temos a oportunidade de refletir sobre essa relação com Deus a partir da experiência da morte, tendo como horizonte a esperança que transcende a vida material e nos remete para algo mais, para além da morte, a partir da ressurreição de Jesus.

 

IHU On-Line - Que inspirações lhe dão as reflexões do teólogo Jürgen Moltmann sobre Deus e a dor do mundo e acerca da ética da esperança, para refletir e agir diante da crise atual?

Alonso Gonçalves - Jürgen Moltmann é um teólogo com quem tenho relações afetivas. Ele me ajudou muito quando ainda cursava o bacharelado em Teologia na cidade de Campinas/SP. Lendo Moltmann e depois tendo a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente, pude entender melhor o sofrimento e sua relação com Deus. A começar pela própria trajetória dele, Moltmann. Aos 17 anos foi alistado, isso em 1943, como auxiliar da Luftwaffe, a Força Aérea Alemã. A sua cidade natal, Hamburgo, foi bombardeada em julho de 1943, na conhecida “Operação Sodoma e Gomorra” promovida pela Royal Air Force britânica. Moltmann e seus companheiros foram destacados para uma bateria antiaérea no centro da cidade. Apenas ele sobreviveu e o colega ao seu lado foi esfacelado por uma bomba. Nessa noite ele mesmo recorda como chorou e acabou por gritar pela primeira vez por Deus: “Meu Deus, onde estás?”. Essa sua experiência me ajudou muito a entender o sofrimento humano e de como ele pode ser a nossa redenção também.

 

 

Mas a história de Moltmann não termina aqui. Ele foi capturado e levado prisioneiro para o Reino Unido e por três anos procurou respostas existenciais para as experiências vividas no contexto de guerra. Levou consigo os poemas de Goethe, o Fausto, e as obras de Friedrich Nietzsche, para suportar aquele difícil período de sua vida. Mas essa literatura não foi o suficiente. Este tempo como prisioneiro em diversos campos de concentração o fez refletir na vida e perceber a esperança por meio de uma cerejeira que florescia e a Bíblia que ganhou de um capelão militar. Essa experiência irá dar outra direção à sua vida e temas como o sofrimento e a injustiça serão contemplados em suas obras posteriormente. Gosto muito quando ele reconhece que a esperança o manteve de pé: “Devo provavelmente a essa esperança não só minha sobrevivência mental e moral, mas também física, pois foi ela que me salvou do desespero e da resignação”.

 

Alonso com Jürgen Moltmann (Foto: Arquivo pessoal)

 

Deus que promove justiça e estabelece o direito

Quanto à ética, Moltmann me ajuda a entender um Deus que promove justiça e estabelece o direito. É um Deus que liberta escravos; faz justiça aos órfãos e viúvas e se faz presente junto aos abandonados e perdidos. O Deus bíblico se dá na prática da justiça e, onde há injustiça, a sua ação é libertadora. Moltmann não concebe uma justiça vingativa, em que os “maus” sofrem e os “bons” são bem-aventurados. A justiça, pela perspectiva bíblica, se dá no direito, ou seja, a justiça de Deus é, ao mesmo tempo, aquela que cria o direito, mas também traz justiça à vida injustiçada. Desta forma, é uma justiça criativa. Deus faz justiça a quem sofre violência e põe em ordem quem comete o mal. Em uma sociedade como a nossa, marcada pela violência e a injustiça, refletir sobre isso é salutar.

 

 

Chamo atenção também para um livro que ele escreveu com este título, Ética da esperança (Editora Vozes, 2012). Nesse texto Moltmann trata do tema da justiça e da paz. Para ele, não há paz sem justiça. Uma das suas críticas se dá para aqueles segmentos do Cristianismo que não promovem a paz, mas, pelo contrário, fomentam o ódio e a intolerância. Infelizmente é o que estamos vendo no Brasil hoje. O ódio nas redes sociais tem sido visceral. O fundamentalismo tem dominado boa parte das discussões e tem favorecido ainda mais o ambiente de polarização política por que o país passa de forma mais intensa a partir de 2018.

Portanto, é preciso haver um clamor por justiça, principalmente por aqueles que são vítimas da violência, como mulheres, gays e negros da periferia. A ética cristã tem na sua base a busca por justiça. Jesus foi alguém que olhou para os doentes, não para quem se sentia muito saudável. Sua amizade abraçou os marginalizados, pecadores e coletores de impostos; ele estava com os perdidos, não com quem se achava muito bom.

 

IHU On-Line - Mais de 150 mil pessoas morreram em decorrência do coronavírus somente no Brasil. Como analisa a forma como essas mortes foram vivenciadas pela população, pela imprensa e pelo próprio governo? Há uma certa indiferença em relação às mortes ou estamos nos acostumando e aceitando passivamente as tragédias e os desastres naturais (atual e futuros)? O que explica esse fenômeno e como isso impacta o nosso entendimento sobre a morte e a vida?

Alonso Gonçalves - No dia 24 de março, o país vê o presidente dizer que a covid-19 era uma gripezinha e um resfriadinho e caso fosse infectado, devido ao seu histórico de atleta, nada sentiria. Depois desse fatídico pronunciamento, o Supremo Tribunal Federal - STF foi acionado e no dia 15 de abril emitiu uma resolução que não tirou a autoridade do governo federal e não eximiu o presidente de suas responsabilidades. O que aconteceu foi o contrário, o STF reforçou que a competência para enfrentar a pandemia era dos Poderes Executivos, ou seja, estados, municípios e União e que os estados e municípios tinham, igualmente, poder para decretar ações de combate ao vírus. Como federação, todos deveriam atuar em consonância. A resolução do STF se deu no momento em que o presidente, convicto de que não era nada demais o novo coronavírus, sinalizava editar um decreto para ampliar as atividades comerciais e assim forçar a reabertura econômica em meio às medidas preventivas impostas pelas autoridades de saúde.

 

 

Depois disso vimos uma série de fake news sobre o assunto e o presidente e seus asseclas passaram a reproduzir essas notícias falsas nas redes sociais, uma comunicação dúbia, inconsistente e comentários desnecessários. Daí que a narrativa de que o STF transferiu poderes para estados e municípios combaterem a pandemia é falsa! É terceirizar a parcela de responsabilidade em mais uma tentativa de camuflar o mau comportamento nas ruas, as frases malditas em relação às vítimas, a saída de dois ministros da Saúde, e o que aí está é um militar sem o devido preparo técnico para exercer a função. Além disso, o presidente reiteradamente insistiu na hidroxicloroquina, que nunca teve comprovação eficaz contra a doença, e não investiu o suficiente na testagem, que até agora continua muito baixa. Todos esses fatores, e outros que não foram aqui mencionados, contribuíram para que chegássemos nesse número alarmante de vidas perdidas para a doença. É de se lamentar muito.

Entendo que a crueldade dessa doença está na impossibilidade que as famílias têm de não poderem, nem ao menos, se despedir dos seus mortos. O momento do luto não está sendo vivenciado de maneira adequada e isso tem gerado a sensação de que a pessoa que faleceu foi para algum lugar e pode, a qualquer momento, voltar para casa. Eu experimentei isso acompanhando famílias que perderam pessoas para a doença.

Por outro lado, há uma ideia de que o “pior” já passou e que as coisas estão voltando ao normal. Penso que não é o momento de afrouxar com a doença. A Europa está novamente tendo que lidar com uma segunda onda da doença, ainda que a quantidade de óbitos não tem acompanhado a quantidade de infectados. Aqui no Brasil, estão politizando a vacina (politizaram, desde o início da pandemia, tudo relacionado à covid-19). Caso a vacina chegue e uma parcela da população seja imunizada, poderemos enfrentar uma segunda onda da doença com um pouco mais de otimismo. É o que eu espero.

 

IHU On-Line - Recentemente o senhor declarou que estamos acompanhando “o fracasso de uma geração de evangélicos que foi durante anos alimentada pela ‘cultura gospel’, que lotou os estádios em nome de ‘Jesus’, mas não se comprometeu com os valores pregados pelo Nazareno”. Com quais valores eles não se comprometeram e como isso se manifesta? Pode nos dar alguns exemplos?

Alonso Gonçalves - Os dados mostram que a quantidade de evangélicos no país pode ultrapassar os católicos daqui a alguns anos. Com o crescimento, também cresce a demanda por entender esse segmento da sociedade brasileira que é plural, dinâmico e, até mesmo, confuso doutrinária e liturgicamente para os desavisados quanto ao seu fracionamento.

Outro ponto é a ética no “universo evangélico”. Ela se concentra em aspectos individuais, dependendo de qual grupo está se referindo. Nesse sentido, há diferentes perspectivas de moralidade em alguns setores do “universo evangélico”, que pode ser a negação de práticas estéticas o ponto central, como também a família nuclear e o tema da homossexualidade. Essas são as principais bandeiras morais que caracterizam um grupo significativo de evangélicos no país e que, não por acaso, ajudaram a eleger o atual presidente, tendo a pauta moral como fundamental.

Ocorre que há uma dicotomia aí. Por um lado, há um comportamento moral e excludente e, por outro, não há uma clara relação entre o discurso e a caminhada de Jesus. Um exemplo que dou é que a relação com o contexto social é desprovida de uma ética solidária e comprometida. Um caso que me chamou atenção foi com as mortes de presos no Norte do país alguns meses atrás. Houve evangélicos que demonstraram completa insensibilidade para com o ocorrido. Houve até mesmo pastores dizendo que foi um julgamento escatológico a morte dos presos.

Isso demonstra, com tristeza, que o evangelho de Jesus está equidistante de uma leitura de compaixão e justiça, pois muitos entendem que o chavão “bandido bom, é bandido morto” está correto. É claro que os problemas sociais do país são enormes, mas aqui estamos focando em atitudes, principalmente daquelas pessoas que se dizem seguidoras de Jesus. Na grande maioria, são pessoas que nos seus perfis de redes sociais se apresentam como “fiéis a Jesus Cristo, miserável pecador”, mas quando têm oportunidade estão mandando pessoas para o inferno, com xingamentos e palavras que não são compatíveis com gente que se diz “conhecer” Jesus.

Além desses fatos pontuais, há também uma dificuldade no plano macro da sociedade brasileira. Os evangélicos estão envolvidos em questões menores; temas que, na maioria das vezes, estão desconexos da realidade brasileira. Um exemplo: o poder econômico que marginaliza todos os dias centenas de pessoas, principalmente em tempos de crise como essa pela qual estamos passando por conta do coronavírus, e não há um debate sério, cristão, solidário e apaixonado pela situação de milhares de pessoas por parte da grande maioria dos evangélicos. Esperar algo assim da bancada evangélica é ilusório. Antes, os políticos que se colocam no campo evangélico estão envolvidos com o corporativismo denominacional e fazem o jogo fisiológico tão frequente na política brasileira, estabelecendo barganhas com o governo federal.

 

 

A Bíblia é bem clara quanto à predileção de Deus para com os fracos, pobres e marginalizados da sociedade, mas parece que parte da igreja evangélica no Brasil ainda não se deu conta disso ou se deu, não faz questão de dizer isso. Ainda bem que há exceções que fazem uma significativa diferença. Estão envolvidos com um evangelho holístico e teologicamente engajado. São igrejas, pastores e líderes de comunidade que procuram pautar a igreja como lugar-presença do Ressuscitado e, assim, denunciar os valores do anti-Reino, do discurso egoísta, do charlatanismo religioso vigente, da desumanização. Procuram presenciar a misericórdia de Deus e o amor de Jesus para com os que sofrem; proporcionar meios de convivência e comunhão na comunidade de fé e, principalmente, atualizar a mensagem do Reino de Deus e, assim como Jesus Cristo, descer da cruz os crucificados de hoje.

 

IHU On-Line - De que espírito profético precisamos para os nossos dias?

Alonso Gonçalves - Penso aqui na contribuição de Jon Sobrino. Ele dedicou-se a pensar o seguimento de Jesus e sua relação com os discípulos. Aí reside o espírito profético para esse tempo. Essa relação começa quando Jesus chama seus discípulos para segui-lo. A intenção é que eles reproduzam os seus passos, participando, especificamente, do seu projeto, o Reino de Deus. O seguimento é a disponibilidade para reproduzir, em outros contextos históricos, o movimento fundamental das ações de Jesus, por isso o espírito profético de Jesus precisa estar em ação. Seguir Jesus é se comprometer com a reprodução histórica da sua prática. Isso se dá quando se tornam possíveis as ações de Jesus a partir das exigências do contexto em que se vive. Nesse sentido, Jesus é um solitário por aqui em busca de companhia na continuação do seu ministério profético. Ele espera companhia para continuar a proclamação profética do evangelho do Reino de Deus.

 

IHU On-Line - Recentemente, o senhor deu a seguinte declaração: “Como já percebido, tudo, absolutamente tudo, por aqui é politizado. Não importam as famílias de quase 109 mil vítimas da covid-19, o tema é político antes de ser pesaroso e enlutado; não importa a dor e a tragédia de uma criança que teve a sua inocência roubada e violada quando ainda tinha seis anos de idade, é preciso fustigar, esfregar a religiosidade farisaica na frente de um hospital. O que conta mesmo é a disputa narrativa em torno de fatos que são chocantes por si mesmos. A partir dessa disputa narrativa permeada pelo antagonismo político, o oportunismo é evidente diante da tragédia”. Como caminhar na direção de uma Igreja Confessante, aos moldes de Bonhoeffer e Karl Barth nos dias de hoje? Quais são os desafios?

Alonso Gonçalves - Dietrich Bonhoeffer alertava os cristãos alemães que não se deveria procurar um Führer (líder), porque, na verdade, tratava-se de um Verführer (sedutor). Bonhoeffer e Karl Barth ajudaram na criação da “Igreja Confessante”. Esta igreja, da qual depois Jürgen Moltmann viria a fazer parte, resistiu oficialmente a Hitler e sua apropriação da eclesiologia alemã. São chamados de confessantes porque, diferentemente da igreja que se aliou ao nazismo, não rejeitaram as confissões de fé dos pais da Igreja e nem dos reformadores, além de confessarem Jesus Cristo como único e suficiente Senhor, não o Führer.

 

 

Karl Barth alertava os protestantes alemães do perigo de governos totalitários e sofreu represálias por isso. Para ele toda invocação de um Führer era em vão. Barth foi incisivo ao defender que a igreja na Alemanha estava vendida a Satanás e que o “lobista” era Hitler. Lá, o Reich foi até mesmo entendido por alguns como a implantação do “Reino de Deus” na terra. Com as devidas proporções e lugar histórico, penso que de alguma forma o que esses teólogos enfrentaram na Alemanha da década de 1940 se repete quando um grupo de evangélicos adotou para si um ídolo e que ainda o chamam de “Messias”.

 

Karl Barth, Paul Tillich, Jürgen Moltmann e Dietrich Bonhoeffer, apesar das diferenças teológicas, há algo em comum entre eles: a denúncia profética contra o Nazismo. Enquanto a igreja alemã apoiava o III Reich, a igreja Confessante, ainda que minoritária, resistia à barbárie. Penso que esse é o caminho para este tempo no contexto evangélico e sua relação com um projeto político identificado com a morte tanto de 1964 em diante quanto da irresponsabilidade na pandemia.

 

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