120 anos da morte de Nietzsche, o profeta da morte de Deus

Ilustração de Friedrich Nietzsche, por Hans Olde, 1899-1900. Fonte: Wikicommons

25 Agosto 2020

“A atitude mais frequente de um setor da teologia contra Nietzsche foi o corpo a corpo, a condenação total de sua filosofia, a rejeição de suas críticas ao cristianismo, qualificando-as como panfletárias e inconsistentes e acusando o filósofo do mesmo ressentimento que ele atribui ao cristianismo. Segundo os teólogos empenhados em salvaguardar a ortodoxia, a morte de Deus anunciada por Nietzsche afunda a humanidade na barbárie e na escuridão, e leva diretamente à morte do ser humano. Eu creio que é preciso renunciar ao corpo a corpo com Nietzsche e optar pelo diálogo sincero e exigente”, escreve o teólogo espanhol Juan Jose Tamayo, em artigo publicado por Religión Digital, 24-08-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

Eis o artigo.

 

Em 25 de agosto de 1900 falecia, depois de onze anos de adoecimento mental, na cidade alemã de Weimar, no estado da Turíngia, lugar onde grandes gênios residiam, como Goethe, Schiller, Herder, Liszt, Bach, Klee, etc., Friedrich Nietzsche, a figura mais significativa da filosofia contemporânea e, sem dúvidas, a mais influente nas tendências do pensamento do século XX. O filósofo francês Paul Ricoeur o inclui como um dos três “filósofos da suspeita”, junto com Karl Marx e Sigmund Freud.

Esta efeméride, vivida em meio às peculiares férias víricas, permitiu-me redescobrir algumas das principais dimensões de sua rica personalidade filosófica e intelectual: o filólogo heterodoxo convertido em detetive da linguagem, o profundo conhecedor e recriador da cultura grega, o desmascarador do niilismo ínsito na cultura moderna, o crítico da modernidade, o profeta da morte de Deus, o pensador politicamente incorreto, o iconoclasta que pôs em dúvida o que até então era dado por sagrado, bom, reto e verdadeiro, o que busca a transvaloração de todos os valores. Fernando Savater o definiu, creio que certeiramente, como “a figura que fragua a crise anti-hegeliana, isso é, antissistêmica, antirracional, antiestatal e antimonoteísta”.


Nietzsche em 1899. Foto: Goethe- und Schiller-Archiv Weimar

 

A condenação do cristianismo

Há um tema central em sua vida e obra que não pode ser esquecido neste 120º aniversário de sua morte: o cristianismo. Nietzsche foi um dos filósofos modernos que mais refletiu sobre ele, e talvez de uma forma mais iconoclasta, como evidenciado em sua obra emblemática “O Anticristo. Maldição sobre o Cristianismo”, onde podemos ler o seguinte julgamento sumário: “Condeno o Cristianismo, levanto contra a Igreja Cristã a mais terrível de todas as acusações que qualquer acusador já teve na boca. Ela é para mim a maior de todas as corrupções imagináveis ... Eu chamo o Cristianismo de a única grande maldição, a única grande corrupção íntima, o único grande instinto de vingança, para o qual nenhum meio é tão venenoso, furtivo, subterrâneo, pequeno – eu o chamo de a única mancha imortal desonrosa da humanidade...”.

Esse julgamento foi registrado na imaginação coletiva de crentes e não crentes. Os primeiros a usaram para anatematizar o filósofo da morte de Deus; os segundos, para reafirmar suas atitudes críticas em relação à religião cristã. A ortodoxia cristã se encarregou de divulgá-lo – às vezes tirando-o do contexto – para ser acusado de razão ao apresentar Nietzsche como o símbolo de um mundo sem Deus e um dos mais ferrenhos inimigos do cristianismo de todos os tempos.

Sem negar a natureza radical de sua posição sobre o cristianismo, acredito que é mais matizado e complexo do que uma leitura rasa de Nietzsche pode nos levar a acreditar. Vou tentar contextualizar.

 

Desmascaramento da cultura ocidental

A crítica nietzschiana ao cristianismo se enquadra no desmascaramento que faz da tradição ocidental configurada por três fatores: a lógica socrática, o platonismo e o próprio cristianismo, que define como “platonismo para o povo”. Todos os três convergem, em sua opinião, na negação do instinto de vida. A esse respeito, concordo com Eugen Fink, um dos maiores especialistas de Nieztsche, que, para Nietzsche, o cristianismo é “apenas a manifestação mais poderosa na história universal de uma perda de instintos sofrida pelo homem europeu”. Perda que consiste em desvalorizar o mundo verdadeiro, a terra, e em inventar um transmundo ideal, o celestial.

 

Cristianismo alheio à realidade e inimigo da razão

O cristianismo é alheio à realidade, afirma Nietzsche. Suas causas são puramente imaginárias: a alma, o espírito. Seus efeitos também: graça, pecado, punição, redenção, perdão dos pecados. Opera com uma psicologia imaginária: arrependimento, remorso de consciência. A teologia pela qual é governado mostra o mesmo defeito, pois fala do juízo final, da vida eterna, do reino dos céus. Os seres a que se refere também são imaginários: Deus, espíritos, almas. O cristianismo é, em suma, “uma forma de inimizade mortal, até então insuperável, com a realidade”, lemos no Anticristo.

O Cristianismo é contrário à razão e à dúvida. É mais uma de suas críticas, que deve ser inserida no quadro da crítica geral à moral da resignação. O cristão mergulha na fé e renuncia à razão. Nada na fé “como no elemento mais claro e inequívoco” e afoga a razão nas ondas da credulidade. A dúvida, o simples olhar para um terreno sólido, já é um pecado. Até mesmo o próprio fundamento da fé e a reflexão sobre sua origem são considerados pecaminosos. Dogmas são, portanto, imunizados de todas as críticas.


Sátira da Criação. Fonte: Reprodução Religión Digital

A religião do ressentimento

O cristianismo é, em resumo, a religião do ressentimento e da compaixão. Nietzsche considera a compaixão um afeto doentio, um instinto depressivo, fraco e contagioso, que gera melancolia, obstrui as leis naturais da evolução e espalha o sofrimento pelo mundo. Precisamente o excesso de compaixão constitui uma das causas da morte de Deus, como o mostra o diálogo de Zaratustra com o último papa, já aposentado. “Você sabe como (Deus) morreu?” “É verdade... que foi a compaixão que o estrangulou?”, pergunta Zaratustra. Ao que o papa aposentado, depois de narrar a evolução de Deus, responde: “Um dia se sufocou com sua excessiva compaixão”.

 

Jesus, o “bom mensageiro” e Paulo, o “desangelista”

A crítica mais severa recai sobre Paulo de Tarso, a quem ele chama de “desangelista” – em contraposição ao “bom mensageiro” que Jesus era. Nietzsche considera Paulo o verdadeiro fundador, o inventor do Cristianismo, acima do sacerdote, que ele diz ser “a espécie mais viscosa do homem”, cuja missão é ensinar a contra-natureza, e sobre a teologia, “o máximo de propagação da falsidade”.

Da crítica salva Jesus de Nazaré – embora apenas em parte, como veremos em breve –, a quem define como um “espírito livre”, que não obedece a leis ou dogmas; um rebelde que se levanta contra a Igreja Judaica, os padres, os teólogos e a hierarquia dessa sociedade; um “santo anarquista”, que incita os excluídos a se rebelarem contra a classe dominante; um “criminoso político”: por isso foi crucificado; um “grande simbolista”, que só toma as realidades interiores como verdades, concebe o natural e o histórico como ocasião de parábola e o reino de Deus como estado do coração; um “bom mensageiro”, que morreu como viveu e de acordo com o que ensinou. Mas, imediatamente depois, ele o chama de “idiota”, no sentido de uma pessoa iludida, ingênua, sem noção de realidade, que permaneceu na puberdade e não desenvolveu instintos masculinos.

 

Do choque “corpo a corpo” ao diálogo com Nietzsche

A atitude mais frequente de um setor da teologia contra Nietzsche foi o corpo a corpo, a condenação total de sua filosofia, a rejeição de suas críticas ao cristianismo, qualificando-as como panfletárias e inconsistentes e acusando o filósofo do mesmo ressentimento que ele atribui ao cristianismo. Segundo os teólogos empenhados em salvaguardar a ortodoxia, a morte de Deus anunciada por Nietzsche afunda a humanidade na barbárie e na escuridão, e leva diretamente à morte do ser humano.


Nietzsche em 1899. Foto: Goethe- und Schiller-Archiv Weimar

Eu creio que é preciso renunciar ao corpo a corpo com Nietzsche e optar pelo diálogo sincero e exigente. Nesse diálogo deve se conceder uma parte não pequena de razão ao filósofo, sobretudo em sua crítica a alguns modelos do cristianismo ainda vigentes hoje: o cristianismo idealista, que estabelece a separação entre a transcendência inteligível e a imanência sensível e apela apressadamente aos valores; o cristianismo caracterizado pelo desprezo do corpo, a negação do eu, o fomento dos instintos de morte e a repressão do instinto de vida; o cristianismo fideísta sem fundamento na razão, o cristianismo estritamente racionalista, que renuncia à narração, à parábola e ao símbolo.

No entanto, tenho que discordar de Nietzsche em aspectos fundamentais da sua teoria do cristianismo. Não posso compartilhar de sua crítica à compaixão. Esta é, para mim, uma dimensão fundamental do ser humano e a opção ética do Deus do êxodo e dos profetas de Israel/Palestina e de Jesus de Nazaré. Em ambos os casos se trata de uma práxis tendente a aliviar o sofrimento humano e a se solidarizar com as pessoas que vivem em situações sub-humanas. E isso não tem nada de fraqueza ou ressentimento, de negação da vida ou de renúncia ao prazer, mas sim todo o contrário: é força da libertação dos oprimidos, caminhos de solidariedade com as vítimas e defesa da vida dos que sofrem e morrem antes do tempo.

No caso de Paulo, é verdade que ele não segue a radicalidade da mensagem e da vida de Jesus de Nazaré e inicia o processo de espiritualização do cristianismo. Mas ele não o inventa. O que ele faz é libertá-lo da estreita estrutura judaica, abri-lo para o contexto cultural helenístico, dando-lhe uma orientação universalista e enfatizando a liberdade e a libertação que Jesus carrega:

Para sermos livres, Cristo nos libertou. Portanto, permaneçam firmes e não se deixem sujeitar novamente ao jugo da escravidão... Já não há distinção entre judeu e gentio, entre escravo e livre, entre homem e mulher, porque todos vocês são um em Cristo” (Carta de Paulo de Tarso aos Gálatas 5, 1.3.28).

Por fim, tenho sérias dificuldades em aceitar o termo “idiota”, no sentido de ingênuo, aplicado a Jesus. O profeta galileu não é uma utopia ingênua. Ele tem uma consciência clara da realidade e um senso crítico da história. E isso o leva a entrar em conflito com os poderes religiosos, políticos e econômicos, com a sociedade patriarcal e com o próprio Deus, e a propor uma alternativa humanística de religião e sociedade.

Espero que esta breve abordagem dialética de Nietzsche contribua a escapar dos estereótipos, preconceitos e deformações com as quais, não poucos, pensadores cristãos abordaram o filósofo alemão para condená-lo de forma densa, reconhecer o sucesso de não poucas de suas críticas ao Cristianismo e distanciarem suas avaliações iconoclastas da ética libertadora de Jesus de Nazaré.

Para mergulhar na atitude de Nietzsche em relação ao cristianismo e à figura de Jesus de Nazaré, remeto ao meu livro Imagens de Jesus (Trotta, Madrid). Nele, analiso a imagem muito sugestiva e pouco conhecida de Jesus por Nietzsche.

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