A cisão do criado. Criação, liberdade e queda no pensamento de Paul Tillich

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20 Janeiro 2012

O livro "A Cisão do Criado. Criação, liberdade e queda no pensamento de Paul Tillich", de Pedro F. Castelao (Universidade de Comillas, Madri, 2011, 510 pp.), é comentado por Xabier Pikaza, teólogo espanhol.

O comentário foi publicado no seu blog, 16-01-2012. A tradução é de Benno Dischinger.

Eis o texto.

Obra. Há algum tempo estou preparando uma recensão de fundo sobre esta obra essencial da investigação teológica espanhola das últimas décadas, que trata do problema de Deus, da criação e do mal no pensamento do teólogo luterano Paul Tillich (1886-1965). Para isso, a recensão centra-se nestas três idéias ou, melhor dito, nos três símbolos centrais do cristianismo que são:

(a) a criação, como obra positiva de Deus;
(b) a liberdade, como risco radical do homem;
(c) a queda no sentido teológico, antropológico e histórico.

A obra me parece essencial porque nos situa no começo da teologia cristã, onde o movimento de Jesus dialoga com a gnose numa linha que desembocou no pensamento fascinante de Orígenes, com suas imensas luzes e com suas possíveis sombras.

Autor: Pedro F. Castelao estudou no Instituto Teológico de Compostela e na Universidade Pontifica Comillas, onde se doutorou em 2009. No ano de 2002 começou sua docência na Faculdade de Teologia da Universidade Pontifícia Comillas, onde ministra aulas de Antropologia Teológica na Graduação e diversos cursos de Pós-graduação. É diretor da revista Encruzilhada, Revista Galega de Pensamento Cristão e Membro do Conselho de Redação da revista Iglesia Viva. É casado, pai e  homem de intensa fé na vida e missão da Igreja.

Entre suas obras:


El trasfondo de lo finito. La revelación en la teología de Paul Tillich, Desclée de Brouwer, Bilbao, 2000.
“La vida en el pensamiento de Paul Tillich”, in: M. García-Baró / R. Pinilla (eds.), Pensar la vida, Upco, Madrid, 2003, 221-234.
“Dios y la Nada. Exposición y crítica del pensamiento de Karl Barth”, in: P. Rodríguez Panizo / F. Millán / S. Castro (eds.), Umbra-Imago-Veritas. Homenagem a M. Gesteira, A. Vargas-Machuca, E. Gil, Upco, Madrid, 2004, 93-112.
“El mal y la finitud”, in: F. Millán / E. Estévez (eds.), Soli Deo Gloria. Homenagem a M. Vidal, D. Aleixandre, J. R. García-Murga, Upco, Madrid, 2006, 159-173.
“La significación fundamental de la Idea de creación en la situación religiosa actual”, in: J. J. García Norro (ed.), Ser querido y querer. Estudios en homenaje a M. Cabada Castro, San Esteban, Salamanca, 2007, 193-211.

O post que segue

Está tomado da entrada “P. Tillich” que amistosamente preparou P. Castelao para meu Diccionario de Pensadores Cristianos (VD, Estella 2010, 883 ss).

Obrigado, Pedro, por tua colaboração. Sigo pensando contigo sobre a base de Orígenes e Tillich. Quando tiver um pouco de tempo e algumas idéias claras far-te-ei uma recensão de verdade. Mas, já não podia mais esperar para apresentar tua obra em meu blog.

TILLICH, PAUL (1886-1965)

Teólogo protestante de origem alemã. Estudou nas universidades de Berlim, Tübingen, Halle e Breslau e foi ministro da igreja luterana desde 1912.

Ensinou teologia na Alemanha (em Frankfurt no Meno), até que foi vetado pelas autoridades nazistas no ano de 1933.

A partir de então se estabeleceu nos Estados Unidos, onde ensinou no Union Theological Seminary de Nova York, depois em Harvard e finalmente em Chicago. Foi, com K. Barth (e com D. Bonhöfer), o teólogo dogmático protestante de maior influxo no século vinte.

Sua teologia está marcada pela busca do sentido do cristianismo, em diálogo com a vida concreta dos homens e mulheres de seu tempo. Assim, podemos apresentá-lo como um teólogo da correlação ou analogia entre Deus e o homem e entre cultura e religião. Ele sabe que a primeira fonte ou o “lugar” (> M. Cano) da teologia cristã é a revelação de Deus, tal como se expressa na Bíblia (como o pôs em relevo a tradição luterana). Mas, essa revelação resulta inseparável da acolhida humana, pois ela se expressa de forma antropológica, tal como se dá em cada indivíduo, mas também no conjunto da história da Igreja com suas diversas confissões (não só as protestantes, senão também a católica e a ortodoxa). Isso significa que a teologia não pode separar-se do desenrolar e da vida da Igreja.

Pois bem, dando um passo a mais, Tillich está convencido de que a revelação de Deus também se encontra vinculada com a história das religiões e de modo ainda mais concreto com o desdobramento da cultura humana. A religião tem, sem dúvida, sua própria identidade. Mas ela resulta inseparável da “profundidade do ser humano”, isto é, da busca de sentido. Segundo isso, a religião não constitui um elemento isolado do conjunto da vida, senão o próprio centro e foco da vida humana. A partir desse fundo, seu pensamento tem sido radicalmente ecumênico, sem negar a singularidade cristã que não se expressa em algum tipo de superioridade sobre outras religiões, senão numa experiência particular de profundidade no campo religioso.

Nessa linha, P. Tillich colocou em relevo o primado da experiência na linha da fé luterana, porém ampliando seu espaço. A experiência não é simplesmente um assentimento interior, senão uma forma de vida na qual se incluem diversos traços e elementos teóricos e práticos, de sentimento e de instituição. Dessa maneira, vinculam-se os diversos elementos dentro de uma circularidade viva, na qual todos os traços do pensamento e da práxis cristã se implicam.

1. Destino e liberdade.

O destino, segundo Tillich, está configurado por seu nascimento no seio de uma tradicional família protestante de finais do século dezenove (20-8-1886). Seu pai era um severo, porém meditativo, pastor luterano; sua mãe uma dona de casa de caráter muito vital, das margens do Reno. Paul era o filho mais velho e teve duas irmãs. Sua mãe morreu quando ele tinha dezessete anos. Apesar dessa morte repentina, pode-se dizer que Tillich cresceu sob a forte influência reflexiva de seu pai, bem como da vitalidade prática de sua mãe. A pequena cidade industrial da província de Brandenburgo, na qual Tillich nasceu, tenho o nome eslavo de Starzeddel. Hoje se chama Starosiedle e pertence à Polônia. Tillich começou a estudar no Instituto (Gymnasium) de Königsberg e terminou o equivalente à revalidação (Abitur) ou seletividade em Berlim.

Suas prematuras e profundas inclinações intelectuais levaram-no a estudar teologia e filosofia nas universidades de Berlim, Tubinga, Halle e Breslau. O exercício de sua liberdade o foi configurando como filósofo e como teólogo. Obteve o doutorado em filosofia com uma tese sobre a filosofia da religião em Schelling. Seu trabalho de licenciatura em teologia também versou sobre o mesmo autor, porém desta vez o tema era a mística e a consciência de culpa. Ambos foram apresentados em Breslau. Seu trabalho de habilitação teológica redigiu-o, não obstante, sobre o conceito de “sobrenatural” (“Übernatürliches”) na teologia anterior a Schleiermacher e defendeu-o em Berlim. Foi Privatdozent em Berlim, professor de teologia em Marburgo – onde teve como colegas R. Otto, R. Bultmann e M. Heidegger; foi também professor de Ciência da Religião em Dresden e de teologia sistemática em Leipzig.

Após a morte de M. Scheler em 1928, Tillich foi professor de filosofia e de sociologia na universidade de Frankfurt. Teve ali muito contato com M. Horckheimer e com Th. Adorno. De fato, este último fez seu trabalho de habilitação sob sua direção. Mas, não termina aí a relação, senão que, pelo conselho destes dois destacados membros do que depois se chamou Escola de Frankfurt, Tillich decidiu não apresentar resistência ativa à sua destituição como professor universitário no ano de 1939, devido a suas abertas discrepâncias com o incipiente novo regime nazista e a sua comprometida militância no chamado socialismo religioso e, assim, aceitou a generosa oferta de R. Niebuhr, transladando-se, desta forma, ao Union Thelogical Seminary de Nova York.

Nos Estados Unidos trabalhou em Nova York e Harvard, porém terminou seus dias na Universidade de Chicago, onde faleceu aos 22 de outubro de 1965, devido a um ataque cardíaco.

Seu destino configurou-o como alemão; os azares da vida e da história, junto com sua liberdade – como todas, sempre finita e condicionada – fizeram-no quase norte-americano. Entre dois temperamentos: seu pai e sua mãe; entre dois saberes: filosofia e teologia; entre dois mundos: Europa e América. Uma vida, pois, vivida sempre na fronteira (On the boundary) – como ele mesmo intitulou o escrito autobiográfico que lhe serviu de apresentação no mundo anglossaxônico.

2. Dinâmica e forma.


A força do pensamento de Tillich encontra-se na orientação medular segundo a qual elaborou toda a sua teologia. Poder-se-ia formulá-lo assim: segundo Tillich, a teologia, como exposição metódica dos conteúdos da fé cristã, deve ser fiel, por um lado, à mensagem que tenta formular e, pelo outro, à situação histórica na qual se encontra. A riqueza dos símbolos do cristianismo – pensemos no Credo, também chamado Símbolo dos apóstolos – só será recebida como tal se a forma de apresentá-los ao homem de hoje se adequar ao horizonte de significação no qual este se encontra situado. De outra maneira, será inútil.

Segue daí que o labor do teólogo consiste m estabelecer uma mediação entre o conteúdo da mensagem cristã e a forma na qual o contexto histórico coetâneo ao ser humano em questão possa acolher dita mensagem. Mensagem e situação; conteúdo e forma. A teologia ou é significativa, ou não o é.

As diferentes formas nas quais se configurou o cristianismo têm sempre a tendência a esclerosar-se, pois a inevitável passagem do tempo causa erosão até dos conceitos mais precisos. A reação contrária – porém lógica – de conservação nem sempre diferencia adequadamente entre o imutável e o contingente. Quando o contingente reclama para si a pretensão de imutabilidade converte-se numa realidade que suplanta o absoluto e, deste modo lamentável, se torna demoníaco, isto é, contrário tanto à sua natureza finita e limitada, como ao ser verdadeiramente absoluto para o qual deveria apontar. Este perigo torna necessário que toda nova geração tenha que repensar o recebido, como conditio sine qua non de sua recepção.

Assim, pois, o trabalho de expor metodicamente os conteúdos da fé cristã é um trabalho que nunca se pode considerar realizado, sempre está pendente de reformas, às vezes superficiais, às vezes profundas, porém nunca estará definitivamente concluído. A esta índole teológica de Tillich responde seu intento de escrever uma Systematic Theology. Já em 1925 havia elaborado, em Marburgo, algo mais do que um simples esboço, porém até o ano de 1963 não sai à luz o terceiro e último tomo desta magna obra. Nela se encontra condensado o denso da teologia de Tillich que, como é óbvio, aqui não podemos senão insinuar.

Com esta índole acima assinalada, Tillich sempre trabalhou teologicamente diversos âmbitos nos quais tratou de mostrar a dimensão religiosa – que ele considerava pouco menos que perdida – do mundo moderno. Esta dimensão é a dimensão de profundidade de todo o real. Através da arquitetura, da pintura, da escultura, da literatura, da ciência, da filosofia, da psicologia e, em definitivo, através de qualquer tipo de arte na qual se plasme o espírito humano, sempre se pode perceber, explícita ou implicitamente, o fundamento último no qual esse espírito se mantém e ao qual aponta.

Compreende-se, pois, que o interesse de Tillich em todas essas manifestações da cultura ocidental não se tivesse centrado nelas enquanto tais, senão antes em função de sua condição simbólica. Isto significa que, o que faz estas realidades serem objeto da reflexão teológica não é senão sua capacidade de transluzir as questões fundamentais da existência humana que sempre fazem referência a um além não objetivável, concebido por Tillich como o fundamento de todo ser. Este é o núcleo essencial que Tillich chamou teologia da cultura.

Sua permanente atenção à situação anímica, intelectual e espiritual, mas também política, econômica e social do mundo ocidental do século vinte dotaram-no de uma sensibilidade especialmente fina para captar o perfil antropológico do homem moderno. Assinalou com agudeza suas carências e suas grandes conquistas. Esta preocupação tomou corpo, a modo de estrutura interna sempre dinâmica, na construção de sua Systematic Ttheology. Refiro-me ao seu conhecido método de correlação. Poder-se-ia dizer, muito simplesmente – deixando de lado todo tipo de matizações tanto positivas como negativas – que dito método pretende expor, explicar ou ofertar os conteúdos da fé cristã através de uma interdependência mútua entre as questões existenciais que atravessam o ser humano e as respostas teológicas que oferece a tradição cristã.

Trata-se, em uma palavra, de responder com sentido e de modo inteligível às perguntas nevrálgicas do ser humano. Isto não se pode fazer em abstrato e sempre da mesma forma segundo fórmulas pretensamente eternas. É preciso escutar e, inclusive, ajudar a formular com clareza a questão para, num segundo momento, tentar respondê-la atendendo a seu nível de profundidade e com formulações que, logicamente, devem ir sempre se adequando ao devir dos tempos. Longe de ser isto uma traição à mensagem evangélica, mostra-se como o único modo de permanecer fiel à sua intenção profunda.

A tensão dialética entre o que Tillich chamou destino e liberdade em qualquer decurso vital apresenta-se, no desenrolar de seu pensamento, como a polaridade entre a dinâmica e a forma. Por um lado, temos a dinâmica do tempo que não pára nem tropeça, do decorrer da historia que nunca permanece idêntico consigo mesmo, das mudanças políticas e sociais que inauguram novas épocas, em definitivo, de tudo aquilo que sempre se encontra em movimento e luta por uma contínua renovação. Mas, ao mesmo tempo e por outro lado, toda nova conquista procura alcançar a própria permanência, a estabilidade de um espaço seguro, a tranqüilidade da posição assentada, ou, o que é o mesmo, procura manter-se fora de toda perturbação revolucionária. Esta é a tendência ao formalismo que Tillich mantém em dialética tensão com o elemento dinâmico que acabamos de assinalar. Dinâmica e forma – exigência de permanente mudança e necessidade de uma forma estável mínima – são, pois, componentes indispensáveis do trabalho teológico.

3. Individuação e participação.


Se a dialética entre a dinâmica e a forma nos serviu para assinalar os traços mais significativos da índole teológica de Tillich, esperamos que a polaridade entre a individuação e a participação nos ajude a dizer algo sobre o conteúdo de seu pensamento. Embora na reflexão especulativa de Tillich esta polaridade tenha um marcado acento ontológico aplicável a todo o real, de modo mais simples se poderia anotar que dita polaridade atende à tensão que há entre o indivíduo e a sociedade, o eu e o nós. Sim, como acabamos de ver, se pode dividir toda a vida de Tillich em dois grandes períodos – alemão e norte-americano – e também se pode dizer, grosso modo, que o primeiro esteve marcado pelo predomínio do eu e o segundo pela predominância do nós. Tillich reconhece o marcado individualismo que caracterizava a formação e a docência nas universidades alemãs, em contraposição com a dinâmica de trabalho em equipe das norte-americanas. Por outra parte, a repercussão pública da obra de Tillich se produziu na América do Norte, e não na Alemanha.

Não obstante, a sensibilidade social de Tillich e sua nítida consciência desta polaridade levaram-o a reagir desde muito jovem contra o predomínio do eu centro-europeu através do socialismo religioso. Este movimento tratava de acolher dentro da tradição cristã as melhores intuições da reforma social do socialismo nascente, como sistema alternativo ao capitalismo imperante. É desta época seu característico conceito de ‘kairós’. Contraposto a outro conceito grego de ‘chronos’, que mediria o tempo quantitativamente, o kairós assinala um momento oportuno, um tempo adequado, uma característica qualitativa de um determinado lapso de tempo.

Com esta preocupação pela justiça social, Tillich se situava conscientemente na linha dos profetas de Israel – daí seu artigo Marx e a tradição profética, - junto com a já citada Decisão socialista e tantos outros. Não se tratava de uma assunção acrítica do socialismo, senão antes de um diálogo enriquecedor e frutífero. Curiosamente, este período que Tillich considerava como mais individualista, é o mais fecundo em escritos de questões políticas, éticas e sociais. A tensão polar entre individualismo acadêmico e compromisso social resulta evidente.

Não menos clara ela aparece, também, em sua concepção teológica de Jesus. Segundo Tillich, em Jesus faz sua aparição na história o Novo Ser. Na esteira paulina da nova criação Tillich concebe, em termos existenciais e ontológicos, a figura de Jesus como o Cristo (no sentido de Ungido). A Cristologia não deve ocupar-se tão só de Jesus de Nazaré considerado individualmente, pois o interesse teológico do cristianismo não está centrado somente em Jesus enquanto homem judeu do século I, senão que deve antes atender à aparição – neste homem concreto – do Cristo de Deus, do Novo Ser no qual se supera a alienação entre a existência alienada do homem e sua essência reconciliada.

Assim, pois, é a participação religiosa no ser regenerado de Cristo o que nos converte em cristãos, mais do que a informação pontual sobre sua pessoa individual. Assim entende Tillich o ser em Cristo, do apóstolo Paulo. Jesus, como indivíduo, encontra-se em relação polar consigo mesmo enquanto Cristo, no qual a humanidade inteira está chamada a participar. O mesmo ocorre na Igreja como comunidade espiritual dos que crêem. A tensão entre o indivíduo e a comunidade não se resolve nem pela dissolução anônima da pessoa no conjunto da Igreja, nem pela compreensão da Igreja como mera soma de todos os indivíduos que a compõem. A comunidade espiritual assume os indivíduos sem anulá-los, porém transcende a mera individualidade de todos os seus componentes por sua participação no Espírito que a mantém e sustenta.

O mesmo se poderia dizer do âmbito da moralidade.  O homem autônomo rechaça toda determinação externa. Opostamente, a heteronomia não respeita o foro interno e inviolável da constituição moral do indivíduo e se impõe de fora, com a voz da autoridade, da sociedade, ou de Deus. A síntese moral entre um extremo e o outro –entre o homem abandonado a si mesmo e o homem alienado de si mesmo –Tillich a propõe com seu famoso conceito de teonomia. A teonomia potencializa a autonomia levando-a além de si mesma, de modo que impede sua absolutização, porém não a força a partir de fora – como a heteronomia – senão que a plenifica a partir de dentro por uma espécie de singular implosão interna que a conecta com o fundamento último do ser. Bastem estes exemplos para assinalar o conteúdo desta importante polaridade.

4. Deus mais além de Deus.

Impõe-se concluir. Seja-nos permitido, não obstante, dizer somente uma última e muito breve palavra sobre o conceito de Deus. God over God. As tensões entre conceitos complementares, porém contrapostos é, como estamos vendo, uma constante muito clara na obra de Tillich. O conceito de Deus não é uma exceção. Quando a linguagem já não dá mais nada de si, aparecem expressões paradoxais que tratam de levar ao entendimento mais além do que explicitamente se diz. Isto é o que pretendeu Tillich ao evitar a palavra Deus para referir-se a Deus. Tentava, assim, evitar o teísmo, a compreensão de Deus excessivamente antropomorfa ou como pertencente ao plano das causas segundas.

Numa palavra: Tillich trata de evitar a objetivação de Deus. Sua intenção mais profunda era sublinhar sua absoluta transcendência. Uma transcendência que, não obstante, sai ao encontro do homem em experiências de revelação e que, por isso, se mostra, com não menos força, como a mais íntima imanência. Deus é, pois, para Tillich, o fundamento infundado de todo o existente, o ‘terminus a quo’ que é ao mesmo tempo o ‘terminus ad quem’ [termo do qual – termo ao qual] de toda a realidade. Ou seja: o Ser em si mesmo, que chama à existência tudo quanto é, porém ainda não existe, e assim o mantém no ser até a consumação escatológica no final dos tempos. Tensão e polaridade. Uma vida na fronteira. Uma obra de um homem religioso impregnado pela preocupação última (Ultimate Concern) daquele que se encontra inclusive além dos limites do finito.

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