Brasil: crescem pentecostais e evangélicos. Da igreja do “Nós” para a igreja do “Eu”

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04 Março 2020

Em 2032 poderá ocorrer no Brasil a superação das igrejas pentecostais e evangélicas em comparação com a Igreja católica. Entre as causas do sucesso, o individualismo crescente nas periferias, a crise econômica, o aumento das desigualdades sociais: todos elementos dos quais, para essas igrejas, podemos nos salvar apenas por mérito pessoal, em detrimento da atenção às dinâmicas associativas e comunitárias. Para esclarecer o que está acontecendo, a AgenSir entrevistou três especialistas: o teólogo Rodrigo Coppe Caldeira, o historiador Gianni La Bella e o padre Geraldo Ferreira Bendaham, coordenador da Pastoral da Arquidiocese de Manaus.

A reportagem é de Bruno Desidera, publicada por AgenSIR, 03-03-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

O ano "marcado" é 2032. Nessa data, se a tendência atual continuar, no Brasil deveria haver a ultrapassagem das igrejas evangélicas e pentecostais em relação à Igreja católica. Essa é a hipótese formulada por um estudo do DataFolha publicado recentemente. Segundo a pesquisa, o catolicismo ainda está no topo do ranking, com cerca de 50% da população, mas o declínio de seus fiéis continua. Por outro lado, os evangélicos continuam a crescer e atingem 31%. A área com maior porcentagem de católicos é o nordeste do país, enquanto os evangélicos, além de uma forte presença no sudeste e no centro-oeste, penetram no norte (ou seja, nos estados amazônicos), onde chegam a 39%.

Na realidade, é difícil dar "os números exatos"; mas a tendência é indiscutível e, certamente, essa é uma das questões que foram abordadas nas últimas semanas durante as visitas ad limina dos bispos brasileiros. Então, quais são as causas desse crescimento que parece imparável? E como a Igreja é chamada a responder a esse desafio? O Sir perguntou isso a alguns especialistas no assunto.

O individualismo cresce nas periferias. O teólogo Rodrigo Coppe Caldeira, especialista em fenômenos religiosos e professor da Universidade Católica de Minas Gerais, explica: “O que estamos testemunhando é a terceira onda evangélica que atinge o Brasil, depois da primeira no início do século XX, que abordou essencialmente a Sul e a segunda, que remonta aos anos cinquenta do século passado. Essa terceira onda, iniciada na década de 1970, encontrou terreno fértil devido às mudanças sociais que ocorreram no Brasil nesse meio tempo. O âmbito chave desse sucesso é constituído pelas periferias das grandes cidades. Ali, a chamada 'teologia da prosperidade', dirigida principalmente ao indivíduo, seduz as pessoas que vivem às margens das metrópoles”.

O teólogo cita uma pesquisa realizada entre 2016 e 2017 pela fundação Perseu Abramo, vinculada ao Partido dos Trabalhadores, na periferia de São Paulo. Segundo o estudo, a fase de crise econômica que se seguiu aos anos de crescimento provocou o surgimento de uma mentalidade individualista, baseada no mérito, em detrimento da atenção às dinâmicas associativas e comunitárias. E é justamente nesse contexto que as igrejas pentecostais ganham espaço, inclusive diante, explica Coppe Caldeira, de uma "certa fragilidade institucional da Igreja católica, a partir da presença sacerdotal", que se torna mais evidente no norte e nos estados da Amazônia, outros áreas de expansão das "novas" igrejas.

O maior desafio para os católicos. O professor Gianni La Bella, professor de história contemporânea da Universidade de Modena e Reggio Emilia, especialista em questões latino-americanas, tanto por sua pesquisa acadêmica quanto por seu empenho na Comunidade de Santo Egídio, também acredita que o desafio trazido pelos pentecostais é "o maior desafio para a Igreja católica brasileira”. Obviamente, o professor adverte: “a questão é complexa também porque essa galáxia que chamamos de evangélica ou pentecostal é realmente difícil de definir e quantificar. Trata-se de uma realidade em evolução, que passou das ‘mega-igrejas’, das grandes estruturas de alguns anos atrás, às ‘igrejas portáteis’ que agora estão se espalhando, igrejas de proximidade, informais e pequenas, quase familiares ". Para La Bella, “no entanto, o crescimento dessas igrejas em toda a América Latina é inquestionável. Em algumas áreas da América Central, particularmente em Honduras, acredito que já ultrapassaram os católicos".

Eles se apresentam como "solução para os problemas". Completa o "diagnóstico" o padre Geraldo Ferreira Bendaham, coordenador da Pastoral da Arquidiocese de Manaus, a metrópole que surge no coração da Amazônia, um dos lugares onde o crescimento dos pentecostais é mais acentuado,: "É necessário distinguir, certamente existem evangélicos que realmente vivem a fé em Jesus Cristo e suas implicações práticas e estão distantes de ser uma fé alienada ou manipulada por pastores políticos-empresários, que transformam a religião em um negócio". Para o sacerdote, em todo caso, o crescimento dos evangélicos pentecostais deve-se a algumas constantes: “Primeiro, o aumento das desigualdades sociais deu origem a uma massa de pessoas pobres que se tornam o público alvo da pregação de muitas igrejas pentecostais, que, enquanto o governo está ausente, se apresentam como a solução para todos os problemas. Essas igrejas também usam muito a mídia e as novas linguagens, têm uma grande disponibilidade financeira, aplicam regras de marketing à religião e funcionam como empresas que oferecem aos 'clientes' o 'produto' que esperam, com retorno imediato. Além disso, para os líderes e pastores é suficiente uma formação teológica mínima e rápida”. Diante de tudo isso, "há uma Igreja católica que às vezes não tem profundidade, que acaba preparando o terreno para os evangélicos, ou se fecha a si mesma e distante".

Retorno a Aparecida e nova temporada laical

Como, então, a Igreja pode responder a esse desafio, parcialmente evocado também durante o recente Sínodo? Para La Bella, “é necessária uma estratégia orgânica que vá além das lamentações. A Assembleia do Episcopado Latino-Americano de Aparecida terminou com um convite à Missão continental. É preciso começar dali, e nos perguntar o que significa hoje ser 'Igreja em saída’ em três grandes contextos: primeiro, as enormes periferias urbanas, depois o mundo indígeno-amazônico, protagonista do recente Sínodo, finalmente o mundo rural, que ainda permanece uma realidade fundamental no continente". Quando dizemos que, depois do Sínodo para a Amazônia, talvez seja necessário um sínodo para as grandes realidades urbanas, o historiador concorda: “Sim, seria necessário um sínodo para as megalópoles, nas quais a própria base paroquial está em crise e conta até certo ponto". E há outras dimensões que deveriam ser exploradas: “Penso no papel dos santuários e da religiosidade popular, na necessidade de um catolicismo que não seja apenas apresentado 'racionalmente', mas que responda ao 'desafio da emoção', dentro da cultura emocional que vivemos."

Especialmente, também à luz da exortação Querida Amazônia, “o desafio passa por uma nova mobilização laical, por uma ideia eclesiológica nova. E em um novo enraizamento entre humildes e pobres, colocando no centro o 'nós', enquanto os pentecostais colocam no centro a dimensão do 'eu', nesse sentido a deles é uma religião meritocrática”.

 

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