Os evangélicos e o poder na América Latina

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15 Fevereiro 2019

De uma atitude de distância, passando pelo colateralismo, até chegar ao compromisso político direto, o cmainho do movimento pentecostal latino-americano praticamente completou seu caminho. O crente de fé protestante que meio século atrás se cuidava muito para se envolver na política, agora considera completamente natural que o “irmão deve votar pelo irmão”. Tendo alcançado a maioridade, os modernos herdeiros da antiga Reforma Protestante levantam as bandeiras da política partidária praticamente em todo o continente. Porque os evangélicos – escreve um atento estudioso da sua encarnação e desenvolvimento na América Latina, o peruano José Luis Pérez Guadalupe – “chegaram ao continente latino-americano para ficar, ficaram para crescer e cresceram para conquistar”.

A que se deve essa transformação que na realidade foi surpreendente e relativamente rápida, da visão tradicional do evangelismo latino-americano?

O artigo é de Alver Mettalli, publicado por Vatican Insider, 13-02-2018. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

A metamorfose evangélica, ao passo do proclamado distanciamento ao neocolateralismo e dali ao compromisso político, com partidos e candidatos próprios é, em primeiro lugar, o resultado de sua mesma expansão e, portanto, da consciência de que constituem uma força de choque eleitoral capaz de modificar os equilíbrios políticos de um país e de uma região.

Os estudos sobre as modificações do universo religioso no continente latiinoamericano não são muitos, e entre os poucos eu há convém citar aqueles mais conhecidos: os da Corporation Latinobarometro, uma agência privada com sede central em Santiago do Chile e os da Pew Research Center, uma think tank estadunidense com sede em Washington, ambos especializados em pesquisas de opinião sobre temas de alcance continental. Segundo um informe da primeira dessas instituições, Latinobarometro, o catolicismo latino-americano diminuiu 13 pontos percentuais entre 1995 e 2014, com retrocessos mais acentuados em países da América Central como Nicarágua (-30), Honduras (-29) e Costa Rica (-19). Nesses mesmos países, os evangélicos cresceram de maneira inversamente proporcional ao retrocesso católico, confirmando dessa maneira que a grande maioria dos herdeiros de Lutero na América Latina são novos convertidos provenientes das filas católicas.

Os resultados do Pew Research Center atualizados também em 2014 mostram que os católicos latino-americanos baixaram a 69% da população total, enquanto os evangélicos em seu conjunto subiram a 19%. Nos três países da América Central anteriormente citados – Nicarágua, Honduras e Costa Rica – a realidade evangélica pentecostal cresceu a tal ponto que no futuro próximo poderia tirar a Igreja Católica de seu primado histórico, alcançando a distância que ainda a separa do catolicismo romano (6% em Honduras, 7% na Guatemala e Nicarágua e 10% no Panamá).

Frente ao generalizado crescimento evangélico, há duas exceções que vale a pena apontar porque poderiam constituir a tendência no futuro. Uruguai é o único país da região latino-americana onde o segundo grupo majoritário não são os protestantes em suas diversas denominações, mas sim os ateus sem filiação religiosa declarada. Ainda mais anômalo é o caso chileno, que se caracteriza por uma impressionante perda de confiança na Igreja Católica que nesse momento tem 124 processos de pedofilia em curso, com 222 vítimas declaradas e 178 investigados, dos quais 105 são padres e 8 bispos. A última pesquisa de 2018, feita pelo Centro de Estudios Públicos, uma fundação acadêmica chilena dedicada a análise de temas públicos, mostra que somente um de cada 10 chilenos conserva certa confiança na Igreja, com uma diminuição dos que avaliam positivamente sua doutrina e sua obra de 51% a 13%, em duas décadas. Mas a diferença de outros países como Brasil ou Guatemala, onde os evangélicos conquistam quase todo o terreno que Igreja Católica deixou livre, no Chile o maior crescimento se observa entre aqueles que não se identificam com nenhuma religião, que se triplicaram nas últimas duas décadas, passando de 7% aos 24% atual.

Fica compreensível que a força religiosa crescente do evangelismo e o enfraquecimento do catolicismo se traduza também na vontade dos evangélicos de conquistar espaços e condicionar processos a favor da realidade que representam. A tentação de envolver na política uma massa de votantes de consideráveis proporções se tornou irresistível com o passar do tempo. E se no começo do século XX a luta dos protestantes – luteranos, anglicanos, presbiteranos, batistas, metodistas e pentecostais – se orientava a afirmar e promover a liberdade de consciência e a separação entre a Igreja e o Estado, ainda o preço de audazes alianças com a maçonaria e outros movimentos declaradamente anticatólicos, hoje os objetivos mudaram completamente e as multas denominações pentecostais mostram uma aguda sensibilidades pelas batalhas eleitorais onde estão em jogo valores que caracterizam no sentido antropológico a convivência de uma sociedade.

Observando o comportamento político dos evangélicos em um número crescente de países da América Latina, se pode ver que sua força eleitoral se coagula em primeiro lugar em torno de muitos “nãos” pronunciados em relação com a modificação de leis para “atualizar” os parâmetros morais vigentes em um país, em função das mudanças culturais profundas que se produziram na sociedade. Os pastores das denominações pentecostais se opõem ao aborto, às uniões homossexuais, à legalização da maconha, à introdução da educação de gênero nas escolas, ao que se soma a luta contra a corrupção em nome da moralização da política e o endurecimento de leis contra a criminalidade. E quando esses temas entram nos programas eleitorais dos partidos laicos, a convergência dos evangélicos em candidatos próprios ou “externos” para neutralizá-las foi sendo cada vez mais maciça.

Cabe perguntar qual foi a fisionomia, ou a performance mais recente, do movimento evangélico que incorporou a participação política direta como forma de sua presença e de sua relação com as sociedades da América Latina. Samuel Escobar, professor emérito de Missiologia, na Palmer Theological Seminary of Pennsylvania, fala da sua própria experiência como pastor, de uma “segunda onda de missionários, mais modernos e de evidente influência conservadora américa” que “conseguiu posicionar socialmente os evangélicos ao ponto de que já não se fala de protestantes: ser evangélico é uma forma especial de ser protestante”.

O teólogo protestante alemão – e pastor luterano – Heinrich Schäfer, aponta a mudança profunda que se produziu nas filas dos descendentes de Lutero centrando a atenção no conceito de graça, que “no protestantismo histórico é fortemente objetivo e assume a missão e a educação como modos de exercer influência na sociedade”, quanto no protestantismo evangélico prevalece “um conceito de missão, fortemente de conversão, orientado a um crescimento quantitativo da igreja e sua ética social está subordinada aos interesses da missão”.

A incursão na política partidário dos novos evangélicos não se produz em razão de um pensamento social que tenha acompanhado seu desenvolvimento e transformação, mas sim pelo potencial eleitoral e uma clara influência conservadora americana, baseada em uma teologia da prosperidade e uma visão reconstrucionista do mundo. Em síntese, estamos na presença de “um novo tipo de protestantismo, politicamente mais conservador, anticomunista e antiecumênico, vale dizer anticatólico que, contrariamente aos seus predecessores, alcança um notável crescimento numérico por meio de estratégias de evangelização e difusão massivas, incluindo os meios de comunicação e tecnologias de informação”.

Falar de meios de comunicação massivos é falar de poder, e falar de poder é falar de política. Os evangélicos aprenderam com rapidez e na América Latina implantam amplamente e em função política o poderoso arsenal de meios dos quais dispões, apontando sempre a novas aquisições. A última foi anunciada no início de 2019 e se refere nada menos que à cadeia de televisão CNN. Douglas Tavolaro, neto e biografo do magnata brasileiro e pastor evangélico Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, será o administrador chefe da CNN Brasil, uma franquia da cadeia estadunidense. É um negócio sem precedentes na história do Brasil que se concretizou quando Macedo alinhou publicamente seu império midiático com a posição do governo do presidente eleito Bolsonaro. Para ter uma ideia da magnitude do projeto basta pensar que, segundo as declarações publicadas pela agência argentina Télam, a CNN se dispõe a incorporar 800 pessoas, entre elas 400 jornalistas, e terá redações em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília.

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