A atualidade de Dietrich Bonhoeffer. Artigo de François de Taizé

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09 Abril 2015

"Dietrich Bonhoeffer, jovem pastor símbolo da resistência alemã contra o nazismo, encontra-se entre aqueles que podem nos apoiar no nosso caminho de fé. Ele que, nas horas mais sombrias do século XX, deu a sua vida até o martírio, escrevia na prisão estas palavras que agora cantamos em Taizé: "Deus, recolhe os meus pensamentos por ti. Junto de ti, a luz, tu não te esqueces de mim. Junto de ti, a ajuda, junto de ti, a paciência. Não entendo os teus caminhos, mas tu conheces o caminho para mim."

A opinião é do irmão François de Taizé, em artigo publicado no sítio Taize.fr, 26-06-2007. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O que chama a atenção em Bonhoeffer é a sua semelhança com os Padres da Igreja, os pensadores cristãos dos primeiros séculos. Os Padres da Igreja desenvolveram todo o seu trabalho partindo da busca de uma unidade de vida. Eram capazes de reflexões intelectuais extremamente profundas, mas, ao mesmo tempo, rezavam muito e estavam plenamente integrados na vida da Igreja do seu tempo. Encontramos isso em Bonhoeffer.

Intelectualmente, era quase superdotado. Mas, ao mesmo tempo, esse homem rezou muito, meditou as Escrituras todos os dias, até os últimos momentos da sua vida. Ele a compreendia, como disse Gregório Magno uma vez, como uma carta de Deus que lhe era endereçada.

Mesmo que ele viesse de uma família onde os homens – o seu pai, os seus irmãos – eram praticamente agnósticos, mesmo que a sua Igreja, a Igreja Protestante da Alemanha, o tivesse decepcionado muito no momento do nazismo e que ele tivesse sofrido muito com isso, ele viveu plenamente na Igreja.

Destaco três escritos:

A sua tese de doutorado, Sanctorum communio, tem algo de excepcional para a época: um jovem estudante de 21 anos escreve uma reflexão dogmática sobre a sociologia da Igreja partindo de Cristo. Refletir a partir de Cristo sobre o que a Igreja deveria ser parece incongruente. Muito mais do que uma instituição, a Igreja é, para ele, o Cristo, existente sob a forma da Igreja.

Cristo não está um pouco presente através da Igreja, não: Ele existe hoje para nós sob a forma da Igreja. Ele é completamente fiel a São Paulo. Esse Cristo tomou sobre si o nosso destino, tomou o nosso lugar. Esse modo de fazer de Cristo continua sendo a lei fundamental da Igreja: tomar o lugar daqueles que foram excluídos, daqueles que se encontram fora, como Jesus fez durante o seu ministério e já no momento do seu batismo.

Chama a atenção como esse livro fala da intercessão: ela é como o sangue que circula no Corpo de Cristo. Para expressar isso, Bonhoeffer se apoia nos teólogos ortodoxos. Ele também fala da confissão, que não estava praticamente mais em uso nas Igrejas protestantes. Imaginem: um jovem homem de 21 anos afirma que é possível que um ministro da Igreja nos diga "Os teus pecados estão perdoados" e que afirme que isso faz parte da essência da Igreja: como novidade no seu contexto!

O segundo escrito é um livro que ele redigiu quando foi chamado para se tornar diretor de um seminário para estudantes de teologia que planejavam um ministério na Igreja Confessante, homens que deviam se preparar para uma vida muito dura. Quase todos tiveram que lidar com a Gestapo, alguns foram jogados na cadeia.

Em alemão, o título é extremamente breve: Nachfolge, em italiano, Seguimento. Isso diz tudo sobre o livro. Como levar a sério o que Jesus expressou, como não colocá-lo de lado como se as suas palavras fossem de outros tempos? O livro diz isso: seguir não tem conteúdo. Gostaríamos que Jesus tivesse um programa. No entanto, não! No seu seguimento, tudo depende da relação com Ele: Ele está à frente, e nós seguimos.

Seguir, para Bonhoeffer, significa reconhecer que, se Jesus é realmente o que Ele disse de si mesmo, ele tem direito sobre tudo na nossa vida. É o "mediador". Nenhuma relação humana pode prevalecer contra Ele. Bonhoeffer cita as palavras de Cristo que convidam a deixar os pais, a família, todos os próprios bens.

Isso dá um pouco de medo hoje, e foi possível repreendê-lo por esse livro: Bonhoeffer não dá uma imagem autoritária demais de Cristo? Mas lemos no Evangelho como as pessoas ficavam admiradas com a autoridade com que Jesus ensina e com que expulsa os espíritos malignos. Há uma autoridade em Jesus.

No entanto, ele se diz totalmente diferente dos fariseus, manso e humilde de coração, isto é, ele mesmo tentado e abaixo de nós. É assim que Ele sempre se apresentou, e é atrás dessa humildade que está a verdadeira autoridade.

Todo esse livro é construído assim: escutar com fé e pôr em prática. Se escutamos com fé, se nos damos conta de que é Ele, Cristo, que fala, não podemos não colocar em prática o que Ele disse. Se a fé parasse diante da prática, não seria mais fé. Colocaria um limite ao Cristo que ouvimos.

Certamente, sob a pena de Bonhoeffer, isso pode parecer um pouco forte demais, mas a Igreja não precisa sempre novamente dessa escuta? Uma escuta simples. Uma escuta direta, imediata, que acredita que é possível viver o que Cristo pede.

O terceiro escrito são as famosas cartas da prisão, Resistência e submissão. Em um mundo em que ele percebe que Deus não é mais reconhecido, em um mundo sem Deus, Bonhoeffer se faz a pergunta: como falaremos d'Ele? Tentaremos criar domínios de cultura cristã, imergindo no passado, com uma certa nostalgia? Tentaremos provocar necessidades religiosas nas pessoas que, aparentemente, não as têm mais?

Hoje, pode-se dizer que há um reflorescimento de interesse religioso, mas, muitas vezes, apenas para dar um verniz religioso à vida. Seria falso, de nossa parte, criar explicitamente uma situação em que as pessoas precisariam de Deus.

Como falaremos, então, de Cristo hoje? Bonhoeffer responde: com a nossa vida. É impressionante ver como ele descreve o futuro ao seu afilhado: "Vem o dia em que será impossível falar abertamente, mas nós rezaremos, faremos o que é justo, o tempo de Deus virá".

Bonhoeffer crê que a linguagem necessária nos será dada com a vida. Todos podemos sentir hoje, mesmo com relação àqueles que estão mais próximos de nós, uma grande dificuldade para falar de redenção mediante Cristo, da vida depois da morte ou, ainda mais, da Trindade.

Tudo isso está tão diante das pessoas que, em certo sentido, não precisam mais de Deus. Como ter essa confiança de que, se vivermos isso, a linguagem nos será dada? Não nos será dada se tornarmos o Evangelho aceitável diminuindo-o. Não, a linguagem nos será dada se realmente vivermos dele.

Nas suas cartas, como no seu livro sobre seguir Cristo, tudo termina de uma maneira quase mística. Ele não teria querido que se dissesse isso, mas, quando se trata de estar com Deus sem Deus, pensa-se em São João da Cruz ou em Santa Teresa de Lisieux, naquela fase tão dura que atravessou no fim da sua vida.

É isto que Bonhoeffer queria: permanecer com Deus sem Deus. Ousar estar ao lado d'Ele quando Ele é rejeitado, recusado. Isso dá uma certa gravidade para tudo o que ele escreveu. No entanto, é preciso saber que ele era otimista. A sua visão do futuro tem algo de libertador para os cristãos. Ele tinha confiança; a palavra confiança retorna muitas vezes nas suas cartas de prisão.

Na prisão, Bonhoeffer gostaria de escrever um comentário sobre o Salmo 119, mas só chegou à terceira estrofe. Nesse salmo, um versículo resume bem o que Bonhoeffer viveu: "Tu, Senhor, estás perto, todos os teus preceitos são verdadeiros".

Dietrich Bonhoeffer viveu essa certeza de que Cristo está realmente perto, em todas as situações, mesmo nas extremas. Tu, Senhor, estás perto, todos os teus preceitos são verdadeiros. Podemos acreditar que o que tu ordenas não só é verdade, mas digno da nossa confiança inteira.

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