A nova missão do mundo católico diante da trajetória do trumpismo. Artigo de Stefano Zamagni

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17 Abril 2026

"O cristão [...] sabe bem qual é o sentido da parábola do Bom Samaritano, ou seja, que a verdadeira responsabilidade reside em cuidar do peso das coisas (res pondus), mesmo que não caibam a ele. Em essência, somos responsáveis não tanto pelo que se faz, mas pelo que não se faz, embora se poderia fazer", escreve Stefano Zamagni, ex-presidente da Pontifícia Academia das Ciências do Vaticano e professor da Universidade de Bolonha, em artigo publicado por Avvenire, 16-04-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

O artigo é uma prévia da edição de junho da revista "Vita Pastorale".

Eis o artigo.

 O trumpismo está operando como "discurso de um movimento": uma gramática pública capaz de unificar queixas e ressentimentos muito diversos sob uma lógica comum, a do "nós contra eles".

As premissas da eficácia desse discurso, que visa estigmatizar os pobres e as políticas de bem-estar social, são basicamente duas: primeiro, transferir a culpa para um grupo vulnerável, apresentando-o como causa da desordem social; e, segundo, oferecer a quem está "dentro" da comunidade um senso de inocência e superioridade moral. Esse esquema, transferido para uma escala nacional, torna-se a base de um saudosismo vingativo: o passado é evocado como a época da ordem (implicitamente branca, cristã, patriarcal) e o presente como um desvio produzido por elites e "outros" que estariam usurpando o país.

O trumpismo não precisa que todos os apoiadores do projeto MAGA sejam motivados por racismo explícito, pois funciona como infraestrutura simbólica; basta que as narrativas de ameaça, decadência e cerco forneçam uma chave de leitura que torne "razoáveis" medidas e tons cada vez mais extremos (tarifas, ataques a universidades, restrições de vários tipos). Dessa forma, o movimento pode agregar ansiedade de status, frustrações econômicas, fundamentalismos religiosos, antifeminismo e desconfiança nas instituições, sem perder coerência, porque o que unifica não é um programa, mas uma maneira de nomear inimigos e legitimar emoções.

Surge, então, uma dupla questão: como foi possível chegar a uma situação como essa brevemente descrita acima e, em segundo lugar, o que fazer para superar uma crise de pensamento tão profunda?

Começarei pela primeira questão. A arquitetura ideológica da atual guinada estadunidense está enraizada no conservadorismo de Barry Goldwater, centrado na liberdade individual — entendido como liberdade de qualquer coerção — contra o Estado de bem-estar social e do pensamento tradicionalista de Russell Kirk, centrado na preservação da identidade e do patrimônio cultural estadunidense contra o nivelamento globalista, e a consequente adoção de um modelo de soberania transnacional focado na lealdade pessoal ao líder. Contudo, é ao polpudo grupo de figuras influentes das Big Tech californianas (Palantir, Anduril, SpaceX e muitas outras) que se deve a tentativa de reduzir a religião a instrumento ideológico de poder: Deus é invocado como forte sustentação do poder que visa concretizar o projeto de criação da sociedade pós-democrática. Basta considerar a recente declaração de Paula White, chefe do Escritório de Fé da Casa Branca, que comparou Trump ao próprio Cristo, "traído e falsamente acusado". Sem mencionar as orações pelo sucesso da guerra, no Salão Oval, com pastores evangélicos impondo as mãos sobre o presidente "ungido pelo Senhor". E, ainda, os relatórios públicos de Pete Hengseth, "ministro da guerra", que terminam com os versículos do Salmo 144: "Bendito seja o Senhor, minha rocha, que ensina as minhas mãos para a peleja e os meus dedos para a guerra".

É de Peter Thiel — o mais trumpiano dos novos oligarcas — a afirmação que "a liberdade e a democracia não são mais compatíveis" e, portanto, que chegou a hora de dar asas ao "pós-liberalismo cristão". (Sic!) Veja-se o embaraçante artigo de M. Pakaluk, professor da Pontifícia Academia de São Tomás de Aquino, intitulado "Leão XIV contra Leão XIII", publicado no The Catholic Thing de 23 de outubro de 2025, cuja tese é que Leão XIV está trilhando um caminho perigoso para o destino do cristianismo. No mesmo comprimento de onda se coloca o recente manifesto político de um grupo de figurões do Vale do Silício que enxergam o futuro em termos de governo tecnológico. (A. Karp e N. Zamiska, The technological republic, 2025). Não se trata da costumeira engenharia social à obra. Em vez disso, a tecnologia deve incorporar uma espécie de novo humanismo para desenhar o futuro do Ocidente com base em uma precisa "teologia científica".

A consequência prática dessa linha de pensamento é o capitalismo oligárquico, não mais o capitalismo democrático, que permite o progresso socioeconômico e a libertação da sociedade, porque a prática democrática é muito dispendiosa e muito "woke". Basta ler documentos como o Manifesto do Capitalismo Oligárquico, escrito por P. Theil em 2009, na Califórnia, e assinado por uma poderosa patrulha de super-ricos como Vance, Bezos, Musk e outros; o Programa Científico do Instituto Claremont, um dos think tanks mais eficazes do ultraconservadorismo estadunidense; o delirante Manifesto Tecno-Otimista de M. Andreessen, cofundador da Netscape, de outubro de 2023, para perceber o que está acontecendo nestes tempos. A linguagem da libertação tornou-se presa de poderes que se disfarçam precisamente com dessa linguagem. Corruptio optimipessima: estamos diante de um sistema que reproduz as palavras e os propósitos dos libertadores, mas que, na realidade, esmaga as realidades percebidas como frágeis e vulneráveis em nome de um privilégio de "atalho", em obséquio à ideologia da performance.

Gostaria de me deter num ponto específico, ainda que brevemente. A recente visita de Peter Thiel (fim de março de 2026) a Roma para uma série de seminários sobre o Anticristo (organizados pela Associação Cultural Vincenzo Gioberti de Brescia), destinados a um público muito selecionado, permite-nos esclarecer um erro importante de seu pensamento. Para Thiel, o Anticristo hoje é quem explora o medo do Apocalipse para impor uma governança global; quem dramatiza os riscos existenciais representados pela energia nuclear, pelas armas biológicas e pela inteligência artificial, para travar o progresso tecnológico de que a humanidade precisa para sobreviver. O demônio de Thiel assume a forma da regulamentação tecnológica e da luta contra as mudanças climáticas, formas que fingiriam proporcionar segurança, mas que, na verdade, retiram a liberdade dos cidadãos. Ele define o Papa Leão XIV como "woke" porque trata de paz e IA. (Uma encíclica sobre as novas tecnologias digitais será lançada em breve.)

A essência do argumento é que o Katèchon (a força restritiva que atrasa a vinda do Anticristo, como escreveu São Paulo) é representado por Trump e seus colaboradores e por entidades como o Estado Profundo. Por outro lado, o mal hoje seria encarnado pelas ONGs que ajudam os migrantes e todos aqueles afeitos pela "Síndrome de Transtorno Anti-Trump", uma doença mental que leva as pessoas a julgarem negativamente tudo o que Trump faz. Como E. Mazzarella explica claramente (Critica della ragion digitale, Castelvecchi, 2026), os motivos da evolução tecnoteológica de Thiel – convertido ao catolicismo há várias décadas – podem ser encontrados em seu texto de 2007, O Momento Straussiano, onde é exposta a conhecida tese de Leo Strauss: o Império do Bem deve deixar de lado as ilusões das culturas liberais e woke e, em vez disso, tratar da "teologia da prosperidade" dos grupos evangélicos e da extrema-direita que defendem um cristianismo sem a cruz e sem o perdão. O pobre é pobre porque caiu no vício e, portanto, no pecado!

Bem, o ponto em questão é que Thiel – formado em filosofia e direito – declara que se inspirou para sua construção em René Girard (1923-2015), o renomado filósofo francês que foi seu professor na Universidade da Califórnia. Mas não é verdade, como Bernard Perret demonstrou de forma convincente ("I conservatori USA e il pensiero di Renè Girard", Vita e Pensiero, 6, 2025), que se pergunta: como pode um pensamento – o de Girard – que entre seus méritos tem o de alertar contra a violência e seu enraizamento na natureza mimética das paixões humanas – a propensão a imitar o desejo alheio e a transformar o outro em inimigo – ser misturado a uma concepção política baseada inteiramente no culto à força bruta e no desprezo pelo princípio democrático?

Esse é o nó górdio que precisa ser desatado para que possamos compreender as raízes profundas do projeto trumpista, um projeto filosófico-religioso da liberdade sem limites – isto é, de libertarianismo que não deve ser confundido com liberalismo – do qual as Big Tech deveriam se beneficiar. Liberdade também de "discurso de ódio" e de desinformação, mas sobretudo de deixar o campo aberto para o MUAI (Uso Malicioso da Inteligência Artificial), ou seja, o uso malévolo da IA.

O que fazer, então? Pois bem, se o mundo católico pretende permanecer fiel à sua missão, não pode limitar-se a expressar indignação e a apresentar propostas, tanto políticas como econômicas, de mera mitigação e adaptação à nova situação. Nem pode refugiar-se no misoneísmo, que é a atitude típica daqueles que acreditam que não se pode fazer nada porque os desafios postos são demasiado grandes, e que a única perspectiva é esperar por tempos melhores. E, sobretudo, acabar com a retórica da loucura humana, porque o que está diante de nossos olhos não provém da mente desviante de uma pessoa, mas de uma escola de pensamento que tem operado sem perturbações há mais de vinte anos, em parte devido à preguiça mental e à subestimação cultural daqueles que hoje procuram proteções de vários tipos. Pensando bem, essa é a atitude de quem acredita que o princípio da responsabilidade consiste em responder, em prestar contas dos próprios atos (respondeo, em latim).

O cristão, no entanto, sabe bem qual é o sentido da parábola do Bom Samaritano, ou seja, que a verdadeira responsabilidade reside em cuidar do peso das coisas (res pondus), mesmo que não caibam a ele. Em essência, somos responsáveis não tanto pelo que se faz, mas pelo que não se faz, embora se poderia fazer. Concretamente, isso comporta elevar o nível do discurso, filosófico e teológico, a fim de demonstrar (e não apenas afirmar) que a linha de pensamento acima não só carece de fundamento científico, como também é contrária à posição teológica oficial da Igreja. (Não nos esqueçamos de que o trumpismo se declara cristão, e especificamente católico!).

O mundo católico está culturalmente preparado e espiritualmente pronto para tal tarefa? Creio sinceramente que sim, desde que se queira e que se retome o caminho do pensamento ponderado, que infelizmente foi posto de lado nas últimas décadas para dar lugar ao pensamento calculista. De fato, uma lacuna significativa que precisa ser preenchida rapidamente é a de pensar que, com sua Ascensão ao céu, indo se sentar no trono do Pai, Jesus tenha encerrado a história, após ter cumprido sua missão: a redenção do gênero humano.

Mas essa leitura da Ascensão levanta um problema teológico: se a história que nos separa daquele evento não tem mais interesse, se tudo já foi realizado, por que nos enviar o Espírito Santo? Lemos em Lucas, no início dos Atos, quando os apóstolos perguntam a Cristo se ele restaurará o Reino de Davi, a resposta que recebem é: "Não vos compete saber as épocas ou as datas que o Pai estabeleceu por sua exclusiva autoridade. Contudo, recebereis poder" — o Espírito Santo, justamente — e, tendo dito isso, ascende aos céus. Jesus, portanto, deixa o trono de Davi vazio, para confiar tal missão aos homens.

Dietrich Bonhoeffer também nos lembra disso quando, em sua obra Resistência e Submissão, escreve: "A fé cristã se distingue de todas as outras concepções de mundo porque não conduz o homem para fora do mundo, mas o envia de volta ao mundo... O cristão não é dispensado dos deveres terrenos, mas justamente neles é confirmado." Em seu discurso ao corpo diplomático do Vaticano em 9 de janeiro de 2026, o Papa Leão XIV, renovando a visão agostiniana das duas cidades, longe de opor eternidade e tempo, Igreja e Estado, insiste, com muita propriedade, que "os cristãos são chamados por Deus a habitar a cidade terrena com seus corações e mentes voltados para a cidade celeste, sua verdadeira pátria. Ao mesmo tempo, os cristãos que vivem na cidade terrena não são estranhos ao mundo político e, guiados pelas Escrituras, buscam aplicar a ética cristã ao governo civil... Agostinho também adverte sobre os graves perigos para a vida política decorrentes de falsas representações da história, de um nacionalismo excessivo e da distorção do ideal de líder político." 

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