Defesa, hipertecnologia e o Anticristo. Peter Thiel lança seu universo sombrio. Artigo de Alessandro Aresu

Foto: Wikimedia Commons | Gage Skidmore

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16 Março 2026

O que se esconde por trás do fundador da Palantir, próximo à direita americana e antiglobalista, mentor de Zuckerberg e Vance? Ele está em Roma para um seminário privado.

O artigo é de Alessandro Aresu, ex-conselheiro do primeiro-ministro italiano, filósofo, consultor de diversas instituições, diretor científico da Escola de Políticas Públicas de Roma e autor de Geopolitica dell'intelligenza artificiale (Feltrinelli Editore, 2024), publicado por La Repubblica, 15-03-2026.

Eis o artigo. 

Para entender as palestras de Peter Thiel em Roma sobre o Anticristo, precisamos começar com a venda do PayPal para o eBay em 2002. Se a marca registrada do nosso século é a aceleração tecnológica, o impacto do capital investido por Elon Musk e Peter Thiel após essa venda foi histórico. Com a SpaceX, Elon Musk já mudou decisivamente a história da economia espacial e, além de seus investimentos em Taiwan, ela ainda representa o único grande exemplo de renascimento da indústria manufatureira nos Estados Unidos. Ao longo deste quarto de século, Thiel teve notável influência empresarial e intelectual. Como cofundador de empresas, a começar pela Palantir, como investidor em startups (incluindo a própria SpaceX, Facebook, Stripe, DeepMind e Anthropic) por meio de seus fundos, e como mentor de figuras como Mark Zuckerberg e J.D. Vance. Além de um ambicioso empreendedor político, visto que, desde a decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos em 2010, a política pode tecnicamente ser comprada, já que investir em campanhas eleitorais faz parte da liberdade de expressão.

Thiel não se limitou a ganhar dinheiro. Ele articulou sua visão de mundo ao longo do tempo, muito antes de seu apoio a Trump em 2016, por meio de ensaios e livros (incluindo "O Momento Straussiano" e "Do Zero ao Um") e inúmeras conferências, inclusive em eventos de tecnologia e em universidades. Lecionou diversas disciplinas em sua alma mater, Stanford, e possui uma extensa bibliografia (publicada em 2025 pela Limes) que abrange desde René Girard a Leo Strauss, de Alexandre Kojève a Bento XVI.

Na visão de Thiel, três temas interligados emergem acima de todos os outros.

O primeiro ponto é a estagnação tecnológica. Em sua visão, a inovação desde a década de 1970 avançou muito em bits (ciência da computação), mas não em átomos (infraestrutura e biotecnologia). Portanto, estamos vivenciando um platô de progresso do qual precisamos escapar, resumido em sua frase espirituosa: "Prometeram-nos carros voadores, mas temos 140 caracteres". A narrativa de Thiel também antecipou um debate que se tornou comum nos Estados Unidos até 2025: o debate sobre o atraso da China na engenharia.

O segundo tema é a crítica à globalização ingênua. Thiel argumentou, há 20 anos, que a interdependência econômica não leva à paz e que o cenário do nosso século se tornaria mais competitivo, especialmente devido ao conflito entre Washington e Pequim.

O terceiro passo é a centralidade da defesa. Thiel, no discurso público, mas também através da fundação e cultura da Palantir, contribuiu para a proposta de um "novo complexo militar-industrial". Para competir com a China e acelerar a inovação física, a aceleração tecnológica deve estender-se à defesa e à segurança. Um passo decisivo foi a controvérsia de 2019 com o Google sobre o Projeto Maven do Pentágono: uma empresa que não coopera com o governo (e investe em pesquisa na China) é culpada de traição.

O estilo de Thiel é deliberadamente provocativo, por vezes marcado por debates inteligentes com aqueles que pensam diferente (por exemplo, o falecido David Graeber), mas ainda mais por expressões como "competição é para perdedores" ou "o avô sociopata de Omaha" (isto é, Warren Buffett). As conferências sobre o Anticristo também servem para gerar memes nos quais ele próprio é o Anticristo. Thiel certamente se deleita com nossa atenção absorta.

Seu confronto com a teologia e o catolicismo vem do pensamento de René Girard, mas também de uma leitura dos sinais de nossa época: o mundo está mais caótico, a tecnologia talvez nos conduza a uma singularidade.

Isso traz à tona o paradoxo da escatologia cristã. A história é julgada pela Cruz, mas sua articulação temporal não está concluída. O mal está em ação, mas ainda não triunfou. Cristo ainda não retornou. O que impede o fim do mundo? Para que o mundo acabe, ele precisa ser unificado. Nessa perspectiva, para Thiel, as várias tentativas de "governo mundial" são candidatas ao papel de Anticristo. É um teatro do absurdo onde Greta Thunberg é considerada uma espécie de Anticristo porque supostamente impulsionaria a conscientização ambiental global. Claramente, estamos muito longe de um governo mundial.

As leituras e provocações de Thiel encontrarão eco em Roma. O Papa Leão XIV, agostiniano, observará facilmente que algo está faltando nessa "teologia": o amor. O apocalipse cristão é a Cruz. A história é julgada por um rosto que nos encara: esse amor sonda a interioridade de cada pessoa. Ele afirma que a conexão entre dados não esgota a profundidade. No tempo que nos resta viver, algo está faltando, e isso nos anima. Enquanto permanecemos frágeis.

Através da pedra vidente, o Palantir de Tolkien, tudo pode ser conectado, analisado, mas querer ver tudo é corromper-se. Até mesmo o peregrino cristão investiga com o olhar. Como Dante, ele quer "fixar o olhar na luz eterna", mas descobre o rosto que o contempla, que o salva, "o amor que move o sol e as outras estrelas".

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