Thiel: "o Anticristo é um político. Xi Jinping, racista e sexista, é a reencarnação de Hitler"

Peter Thiel | Foto: Gage Skidmore/Flickr

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19 Março 2026

Animação na sala, murmúrios baixos, olhares expectantes. "O Anticristo é um político", declara Peter Thiel. O momento que todos os convidados sentados no salão do Palazzo Taverna esperavam desde domingo parece ter chegado. Ele vai dizer, ele está prestes a dizer, pensam eles: ele vai revelar quem simbolicamente personifica as características do inimigo do progresso hoje. Mas não. Ele se aproxima, esboça um perfil, espalha pistas, circulando uma suspeita que ele deixa pairando sobre a plateia e que os convidados levarão para casa para outra noite.

A reportagem é de Ilario Lombardo, publicado por La Stampa, 18-03-2026.

Na terceira palestra romana, o bilionário fundador do PayPal e da Palantir — que é apresentado no palco como um "empreendedor intelectual germano-americano" — revela definitivamente suas crenças políticas, perfeitamente alinhadas com Donald Trump e seus homens. "Xi Jinping é sexista e racista. Alguns pensam que ele é a reencarnação de Hitler." Essas frases não são ditas  aleatoriamente, mas proferidas com a consciência de que serão registradas e publicadas. Elas carregam um peso enorme porque vêm de um empresário que patrocinou Trump, o aconselha, que apresentou pessoas de suas empresas à administração americana, que financiou a carreira política do vice-presidente J.D. Vance e que fornece ao Pentágono e à CIA ferramentas de inteligência altamente sofisticadas para uso militar.

A China é a adversária estratégica dos Estados Unidos; seu presidente Xi lançou o desafio ao Ocidente. A hegemonia global está em jogo, e é significativo que Thiel esteja fazendo esses comentários justamente quando Trump pediu a Xi para adiar a cúpula marcada para 31 de março, em vista dos cenários cada vez mais incertos em torno da guerra no Irã e com o Estreito de Ormuz ainda bloqueado, onde o presidente americano tentou — em vão — pedir ajuda a Pequim. Não só isso. Há apenas dez dias, Thiel voou para Tóquio para encontrar-se com a primeira-ministra japonesa Sanae Takaichi, a líder que, desde o início de seu mandato, levantou o conflito diplomático com Xi Jinping, e com ela ele provavelmente discutiu o software Palantir, já em uso no Japão. Nesse contexto geopolítico, o papel de Thiel não se resume mais a um bilionário extravagante que se deleita em viajar pelo mundo para falar sobre a Bíblia, escatologia cristã, o Apocalipse e tecnologia. Isso o coloca, com razão, entre os ideólogos do Trumpismo.

O raciocínio que chega a Xi começa mais atrás. Desta vez, está mais frio na sala. As janelas estão escancaradas, porque Thiel reclamou do calor. Ele fala sobre dois colegas. O primeiro é Elon Musk, fundador da Tesla e proprietário da SpaceX, seu ex-sócio no PayPal e, como ele, cooptado por Trump, antes que seu relacionamento com o presidente americano descarrilasse. Thiel compartilha com Musk os princípios que fundamentam a visão tecnocrática da direita libertária, com algumas diferenças importantes (Thiel é muito mais radical e teoricamente mais robusto do que o sul-africano). O segundo é Bill Gates, inventor da Microsoft, um filantropo muito amado pelo mundo liberal. "Musk odeia Gates", diz Thiel. "Bill é como o Dr. Jekyll e o Sr. Hyde. Em público, ele é uma pessoa tão agradável, mas em particular — e eu o vi recentemente — ele é uma torrente de palavrões. Ele está tentando ganhar o Prêmio Nobel. Mas se você está pensando que ele também é um Anticristo, eu não acho. O Anticristo é um político." Tudo o que ele diz posteriormente sobre Xi leva a crer que ele identificou o presidente chinês como o Anticristo dos Anticristos. Mas ele não diz isso. Como prometido, espera-se que ele revele isso apenas na última de suas quatro palestras programadas, que é hoje.

Thiel confessa que não quer se envolver ativamente na política. "Sou uma personalidade carismática, mas não saberia como ganhar eleições. E, de qualquer forma, não quero." Ele certamente tem ideias muito claras sobre de que lado está. Recuando um pouco, durante a primeira palestra no último domingo, o guru da tecno-direita argumentou: "Suspeito que um grupo de estilo europeu, um tanto centro-esquerda, ache que alguém como Netanyahu seja um criminoso desequilibrado e que Trump seja um bobo enganado por ele. Eu não concordo exatamente." Para Thiel, mesmo na direita, nem todos compreendem a ameaça representada pelo Anticristo: "Aos conservadores sociais que estão se movendo em uma direção ligeiramente anticientífica e antitecnológica, digo que vocês são muito mais patéticos do que a esquerda de Hollywood", aquela que "adora filmes sobre o apocalipse climático causado pela superpopulação."

Thiel não carece da capacidade de surpreender e de privar aqueles que seguem o caminho tortuoso de seu pensamento da certeza. Ele presta homenagem ao Papa Bento XVI, "um dos dez maiores pensadores de nosso tempo, talvez o maior". Ele fala sobre Cristo e traça um paralelo com Alexandre, o Grande, ambos morreram aos 33 anos, focando nesse número. Então, provocativamente, ele agita uma nota de banco e pergunta: "Por que o dinheiro tem esse poder? Quem quer esta nota?"

Muitas mãos se levantam, e ele a entrega a Alberto Garzoni, presidente da Associação Vincenzo Gioberti, que organizou as conferências, sentado na primeira fila. Então, quem é Peter Thiel? Um visionário? Um Messias do Novo Mundo? Um vigarista? Um ex-aluno de Stanford que se tornou um rico entediado? Ou, mais simplesmente, ele é um especialista em negócios, porque aprendeu a primeira regra da arte de vender: faça as pessoas acreditarem que o que você está vendendo é a coisa mais importante do mundo.

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