Bruxelas, China, Greta e as ONGs: as caras do Anticristo segundo Thiel

Peter Thiel. Foto: Heisenberg Media/Flickr

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18 Março 2026

No segundo dia, a plateia se reduziu. Mas, justamente ontem, Peter Thiel começou a revelar seu universo aos convidados reunidos no Palazzo Taverna, no centro de Roma. Dando uma cara ao Anticristo, essa criatura multiforme que o bilionário do Vale do Silício, financiador de Donald Trump e J.D. Vance, toma emprestada da Bíblia para a transformar na pedra angular de sua análise entre teologia, política e negócios.

A reportagem é de Ilario Lombardo, publicada por La Stampa, 17-03-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

O ambiente está quente demais para um estadunidense acostumado ao ar-condicionado gelado. E assim, quando aparece vestindo uma camiseta azul justa, Thiel começa: “Perdoem-me se não tenho a elegância de ontem. Vejo que vocês têm essas tecnologias do século XIX, também chamadas de janelas.”

Para explicar quem ele é, ou melhor, quem são os legionários do Anticristo, o fundador do PayPal e da Palantir projeta um diagrama no telão. Duas colunas: de um lado, o katéchon; do outro, o Anticristo. Trabalha por dualismos: Cláudio-Nero (os imperadores romanos), Carlos Magno-Napoleão, anticomunismo-neoliberalismo, democracia cristã-democracia de Bruxelas, bitcoin-sistema de crédito social (este último de matriz chinesa, o sistema de controle e avaliação ao qual o governo central em Pequim submete empresas e instituições), Estado profundo-ONGs. Assim, na coluna do Anticristo, encontramos a União Europeia, a China e as organizações não governamentais.

E aqui já emergem as primeiras afinidades com Trump e as novas direitas globais. Os adversários são os mesmos. A geopolítica é lida através das lentes do Apocalipse. O katéchon é outro conceito da escatologia bíblica tomado em empréstimo para a filosofia política: nasce com São Paulo, em sua Carta aos Tessalonicenses, e se desenvolve no século XX com Carl Schmitt, um autor muito apreciado pelo empresário. É a "força que impede" o advento do Anticristo: evita o fim do mundo introduzindo um princípio de ordem e prevenindo o caos. Para dar um exemplo, Thiel tira da cartola um clássico, repetido em outros seminários: Greta Thunberg. A ativista, na visão do bilionário, está a serviço do Anticristo porque "quer deter a ciência em nome de uma nova ordem global".

A Europa das regulamentações é um inimigo semelhante. Assim como o controle social tecnológico, ainda mais se estiver nas mãos do Estado, como na China. Curioso ser ele a defender isso, financiador de Big Tech e chefe de uma empresa, a Palantir Technologies, líder no setor de análise de big data para governos e agências de inteligência. Mas Thiel parece confortável em desafiar suas próprias contradições, como libertário que alerta contra a dominação global e o controle de massa, mas também como ideólogo da tecnologia como vontade de poder. Não só: ele é o homem que confiou suas esperanças messiânicas a Trump, argumentando certa vez que o herói do povo MAGA jamais trairia as promessas nacionalistas para ir travar guerra por aí como teria feito a democrata Hillary Clinton.

Não há políticos à vista na sala, a direita continua a negar encontros e o governo permanece em silêncio. Os convidados da segunda palestra são os mesmos professores, economistas, gestores e seminaristas, estes últimos esperados à noite para um jantar privado organizado pelo Instituto Cluny, afiliado à Universidade Católica da América. Cada convidado tem sua própria razão pessoal para ouvir Thiel. Por exemplo, quando fala sobre bitcoin: na plateia está Guido Maria Brera, financista e empresário, que tem uma ligação empresarial com a Chora, um grupo de editoria digital, e com a Tether, empresa de criptomoedas fundada por Giancarlo Devasini (o homem mais rico da Itália, com um patrimônio líquido de 89 bilhões) e Paolo Ardoini, ambos investidores da Plasma, um projeto de stablecoin apoiado pelo guru da tecno-direita estadunidense.

Suas origens alemãs (Thiel nasceu na Alemanha) o levam a refletir sobre a história do Partido Democrata Cristão (Katechon) em oposição à União Europeia (Anticristo). Segundo ele, a CDU perdeu seus valores em 2005, ano em que Angela Merkel chegou ao poder. Ele nunca menciona a ex-chanceler, mas fica claro que, para Thiel, ela foi quem contribuiu para a construção da Europa e de suas regras excessivamente rígidas. A ponto de se aventurar a uma comparação inimaginável com a rede de fast-food KFC: "Ninguém se lembra que o K significa Kentucky, assim como ninguém pensa no C de CDU como cristão". A defesa do Ocidente e da Europa cristã — o subentendido — foi enfraquecida por Merkel e por líderes como ela. Vocês não acham que já ouviram isso de JD Vance?

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