16 Março 2026
"Essa curiosa versão secular do Apocalipse nos Estados Unidos de hoje se entrelaça politicamente com a corrente do "sionismo cristão", um ramo nada marginal dos influentes grupos evangélicos protestantes. Embora tendo raízes antigas no milenarismo puritano do século XVII, essa corrente foi se afirmando com força na vida pública estadunidense nas últimas décadas"
O artigo é de Lucio Brunelli, jornalista italiano, publicado por La Repubblica, 13-03-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Temas como o Apocalipse e o Anticristo no passado interessavam apenas pintores, exegetas e filósofos. Hoje, são tema de conferências a portas fechadas (nos próximos dias em Roma) promovidas pelo bilionário tecnocrata Peter Thiel, fundador do PayPal e da Palantir, empresa especializada em vigilância digital cuja tecnologia é usada nos Estados Unidos também pela famigerada polícia anti-imigração. Teórico do transumanismo, Thiel vê no ambientalismo, no socialismo e no islamismo os sinais de um mal absoluto que avança, empurrando o planeta para a beira do abismo; a ponto de identificar "em alguém como Greta Thunberg" os traços do Anticristo, e em Donald Trump o último baluarte que pode deter ou ao menos retardar o fim do mundo.
Essa curiosa versão secular do Apocalipse nos Estados Unidos de hoje se entrelaça politicamente com a corrente do "sionismo cristão", um ramo nada marginal dos influentes grupos evangélicos protestantes. Embora tendo raízes antigas no milenarismo puritano do século XVII, essa corrente foi se afirmando com força na vida pública estadunidense nas últimas décadas. Os sionistas cristãos acreditam que o retorno completo dos judeus à Terra Prometida é o pré-requisito para o tão aguardado retorno de Cristo no fim dos tempos. Por essa razão teológica, apoiam incondicionalmente a política israelense de anexação de territórios palestinos, financiam as novas colônias judaicas e veem o Irã como o inimigo final. Seu milenarismo os leva a aguardar ansiosamente a Batalha Final, o bíblico Armagedom, que eles identificam geograficamente em um local real, Tel Megido, a poucos quilômetros ao sul de Nazaré, na Baixa Galileia. Apesar do firme apoio a Israel em sua visão apocalíptica, aos judeus não está reservado um destino tão aprazível: muitos deles perecerão na última guerra travada neste mundo, e os poucos sobreviventes se converterão à fé cristã.
Uma bizarrice estadunidense, poderíamos dizer, em um país onde o nome de Deus está impresso nas cédulas bancárias.
Certamente, esse Apocalipse, tanto na versão secular-tecnocrática quanto na religiosa dos milenaristas cristãos, soa bastante bizarra aos nossos ouvidos de europeus ocidentais. Talvez nem haveria razão para levar tal fé a sério se não tivesse alguma influência no destino do mundo, ou seja, de todos nós. Peter Thiel é um homem poderoso, muito próximo do ocupante da Casa Branca. E os apocalípticos religiosos desempenharam um papel nada secundário na eleição de Trump, tanto em seu primeiro quanto em seu segundo mandato. O embaixador estadunidense em Jerusalém, Mike Huckabee, ex-governador do Arkansas e pastor batista, é um fervoroso seguidor do sionismo cristão.
Trump, em suma, retribui o apoio que recebeu e não despreza a imagem do "ungido do Senhor". Recebeu razoável atenção (mas incluído entre as curiosidades excêntricas) um vídeo recente mostrando cerca de vinte pastores evangélicos impondo as mãos sobre o presidente estadunidense, em sinal de oração pedindo o apoio de Deus na guerra contra o Irã. Muitos entre eles acreditam e propagam a visão do "fim dos tempos" professada pelos sionistas cristãos. E é impossível não estremecer ao ouvir Pete Hengseth, "ministro da guerra", recitar publicamente, ao final de seus boletins militares, os versículos do Salmo 144: "Bendito seja o Senhor, minha rocha, que adestra as minhas mãos para a peleja e os meus dedos para a guerra". Mísseis e a Bíblia. Um Deus que quer morte e destruição para se afirmar no mundo?
Muito mais convincentes e reconfortantes, em termos de Apocalipse, são para nós outras imagens, mais afeitas à tradição católica europeia. Como aquelas pintadas na cripta medieval da Catedral de Anagni. Em uma parede lateral da abside, estão representados os quatro cavaleiros imaginados por São João em seu livro: o primeiro, aquele no cavalo branco, com a auréola e o arco, põe em fuga o cavaleiro armado com uma espada larga, que personifica a guerra. Segundo os especialistas mais conceituados (cf. L. Cappelletti, Gli affreschi della cripta anagnina, ed. Pontificio Istituto Biblico), a figura no cavalo branco é o próprio Cristo, e o Apocalipse não anuncia tragédias infinitas, mas revela a vitória de Jesus, já alcançada, e sua luta ainda em curso contra a guerra, o inferno e a morte.
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