14 Abril 2026
O autor da biografia do Papa Wojtyla analisa a tensão entre a Casa Branca e o Vaticano. "Espero que este episódio ensine aos católicos pró-Trump que votar em um narcisista nunca é uma boa ideia."
A entrevista é de Paolo Mastrolilli, publicada por La Repubblica, 14-04-2026.
Se o presidente Trump também perdeu George Weigel, com seu ataque ao Papa Leão XIV, ele deveria começar a se preocupar seriamente com a estabilidade de seu eleitorado antes das eleições de meio de mandato em novembro. Isso porque o pesquisador sênior do Centro de Ética e Políticas Públicas está longe de ser um liberal convicto e, se algo, deveria representar o público católico interessado nas posições de Donald Trump, pelo menos no que diz respeito ao conservadorismo social.
Weigel foi biógrafo de João Paulo II, praticamente vivendo no Palácio Apostólico enquanto preparava seu livro Testemunha da Esperança. Juntamente com Michael Novak e Richard John Neuhaus, ele formou o trio de intelectuais americanos que serviu de referência nos Estados Unidos para o pontificado do papa polonês e, posteriormente, de Bento XVI. As posições, no entanto, tornaram-se mais complexas sob Francisco.
Simplificar é sempre perigoso, especialmente quando se discute teologia, mas, neste caso, não é errado pensar que, em teoria, uma presidência republicana poderia ter construído um diálogo frutífero com esse segmento do catolicismo americano, que o apoiava de forma esmagadora, mas que Donald Trump conseguiu alienar.
Eis a entrevista.
O que você pensou ao ler a mensagem contra o Papa Leão XIV publicada pelo chefe da Casa Branca?
As postagens do Presidente Trump na rede social Truth Social são ultrajantes, escandalosas e ofensivas. A resposta do Papa durante seu voo para a África demonstra como um adulto deve reagir a tamanha estupidez.
O chefe da Casa Branca complementou sua mensagem postando uma imagem de si mesmo como Jesus, o que até mesmo muitos apoiadores do movimento MAGA consideraram blasfemo. Qual a sua opinião?
O que devo pensar disso? Parece um gesto que fala por si só.
Todos se perguntam por que Trump decidiu lançar esse ataque contra o primeiro Papa americano neste momento, e muitos suspeitam que seja uma tentativa de desviar a atenção dos problemas que ele enfrenta na guerra com o Irã. Qual a sua opinião sobre a motivação?
Tudo isso aconteceu porque Trump é completamente indisciplinado e não há ninguém ao seu redor capaz de protegê-lo de seus piores instintos. E esse é um problema geral que se aplica a tudo, não apenas à mensagem ofensiva que ele decidiu publicar contra o Papa.
Talvez ele pensasse que a transição de Francisco para Leão aproximaria a Igreja Católica de sua presidência, da imigração à guerra?
Como eu disse após a eleição de Prevost, acho que essas divisões foram exageradas, principalmente pela mídia italiana. O corpo vivo da Igreja nos Estados Unidos está bastante dividido, mas os bispos estão quase unanimemente unidos. Os fiéis estão felizes com a nomeação de Leão XIV, mesmo ele tendo vivido quase toda a sua vida adulta no exterior, entre a América Latina e Roma. Não é que Chicago tenha usurpado a Sé de Pedro, mas essa experiência internacional fortalece seu perfil como Papa, que por natureza tem uma missão global.
President Trump has, oddly, accused Pope Leo XIV of being "weak on crime," as if the Vicar of Christ were a mayor or a governor. Here's someone else who would probably be criticized for being too lenient with criminals, even promising one a place a heaven:
— James Martin, SJ (@JamesMartinSJ) April 13, 2026
One of the criminals… pic.twitter.com/YN0zXZPTdW
Até mesmo João Paulo II se opôs à invasão do Iraque, enviando o Cardeal Laghi à Casa Branca para convencer Bush a não atacar, mas ele nunca havia chegado a um nível tão baixo. Que impacto terá este caso nas eleições de meio de mandato de novembro?
Espero que este episódio ensine aos católicos pró-Trump que votar em um narcisista nunca é uma boa ideia. Todos os presidentes têm um ego forte, mas o narcisismo é uma falha grave em quem lidera um país.
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