Putin divide os ortodoxos

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17 Março 2022

 

Uma outra frente, problemática, se abriu na guerra russo-ucraniana que corre o risco de erodir ainda mais o consenso interno em que ainda apoia a sustentação da maioria dos russos ao conflito. A agressão contra a Ucrânia está, de fato, dividindo literalmente a Igreja Ortodoxa e seus cerca de 260 milhões de fiéis em todo o mundo, metade dos quais vivem entre a Rússia e a Ucrânia, isolando a Igreja Ortodoxa Russa, cujo Patriarca Kirill é um aliado de ferro do inquilino do Kremlin com a quem ele compartilha uma visão do “Russkiy Mir”, ou seja, o “Mundo Russo”, que une a unidade espiritual dos ortodoxos com a expansão territorial para áreas historicamente russas. O que para Putin é uma guerra de restauração política, para Kirill é uma cruzada para salvaguardar os valores ortodoxos e a unidade dos fiéis.

 

O comentário é de Stefano Pontecorvo, publicado por La Repubblica, 16-03-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Desde o início do conflito, Kirill, provavelmente pela primeira vez na história da Igreja Russa, é objeto de fortes críticas tanto de outras confissões ortodoxas quanto de sua própria Igreja. É de poucos dias atrás a carta aberta, escrita em russo arcaico e assinada por mais de 350 sacerdotes ortodoxos russos, pedindo "... o fim da guerra fratricida" e "um cessar-fogo imediato e um processo de reconciliação", lamentando "o sofrimento imerecido sofrido por nossos irmãos e irmãs na Ucrânia", bem como "o abismo que nossos filhos e netos terão que preencher para restaurar a amizade, o respeito e o amor uns pelos outros".

 

Em proporção aos cerca de trinta e cinco mil sacerdotes e diáconos com que a Igreja Ortodoxa Russa conta, o número de signatários é baixo, mas eles constituem a vanguarda de um crescente movimento de desconforto dentro da ortodoxia, até agora granítica e disciplinada, especialmente daquela russa que como resultado do apoio acrítico que seu patriarca Kirill está dando ao seu aliado Putin, já começa a perder alguns pedaços. A relevante paróquia ortodoxa russa de Amsterdã deixou recentemente o Patriarcado de Moscou para se juntar a um patriarcado diferente da complicada galáxia ortodoxa, e mais deserções e distanciamentos de Kirill e sua Igreja são esperados para os próximos dias.

 

São todos russos e ortodoxos que se afastam de seu próprio patriarcado; desenvolvimento doloroso para uma Igreja nacionalista que procura fortalecer e unificar os fiéis e que ao invés disso, graças ao apoio à guerra, vê desaparecer os esforços da última década, o que está levantando mais de um questionamento dentro da hierarquia eclesiástica russa. Que o Patriarcado de Moscou seja um aliado próximo do Kremlin e dos serviços de segurança russos não é novidade; sempre foi assim, desde os tempos soviéticos, quando se dizia que durante os plenários do serviço de segurança russo o lugar à direita de Yuri Andropov, então chefe da KGB, pertencia ao então Patriarca Pitirim. Além disso, a contiguidade com o poder temporal é uma das características da maioria das igrejas ortodoxas autocéfalas, independentes de fato, da antiga União Soviética.

 

A separação de Moscou dentro da Igreja Ortodoxa Ucraniana, em outubro de 2018, após 300 anos de submissão que desencadeou, segundo observadores eclesiásticos, a maior crise dentro do mundo ortodoxo do último milênio, foi tomada por razões políticas e não religiosas e teve como objetivo romper o vínculo espiritual entre os dois países, fortalecendo a independência política de Kiev de Moscou.

 

Isso não foi aceito por Kirill, que perdeu o controle dos lugares mais sagrados para a Ortodoxia Russa, que se originou em Kiev. Kirill também perdeu a liderança de cerca de sete mil paróquias ucranianas, que aderiram à recém-formada Igreja Ortodoxa Ucraniana, cuja independência foi reconhecida pelo Patriarca de Constantinopla, guia espiritual da Ortodoxia Cristã e única autoridade reconhecida no assunto. O Patriarcado de Moscou, que nunca aceitou a divisão, permaneceu com doze mil paróquias ucranianas, reunidas na Igreja Ortodoxa Ucraniana - Patriarcado de Moscou que, aliás, também tomou decididamente distância de Kirill, condenando abertamente a guerra e a invasão (termos que o patriarca de Moscou não utiliza). Também estaria em curso uma ulterior reflexão sobre o futuro da relação com o patriarcado de Moscou, um desenvolvimento não previsto nem pelo patriarca nem por Putin; eventuais outros distanciamentos ou decisões drásticas teriam uma ampla ressonância na população russa, lançando sombras ainda maiores sobre a guerra contra o "povo irmão". O descontentamento religioso, no esquema mais amplo da tragédia que se desenrola diante de nossos olhos, pode parecer um fator menor. Não é. Cerca de 75% da população russa se professa ortodoxa, crente e praticante e a fé é parte integrante da identidade nacional russa, que se afirma por diferenças de valores e tradições inclusive religiosas em relação ao Ocidente. Não é por acaso que o Patriarca Kirill conclame a defesa contra a imposição de valores ocidentais – com particular ênfase no “orgulho gay” visto como expressão máxima da decadência dos costumes cristãos – para justificar tanto a ação militar de 2014 como a tragédia dos dias atuais.

 

A Igreja Ortodoxa é um fator relevante na vida dos russos, que desfruta de um prestígio muito elevado aos seus olhos, como bem sabe Putin que, desde o início da sua aventura política, investiu fortemente na relação com o clero ortodoxo e com o próprio Patriarca, recebendo em troca um apoio político incondicional que pesou e pesa.

 

A guerra ucraniana, com as suas repercussões na unidade e estabilidade da Igreja russa, do clero e dos fiéis, está minando um dos pilares da visão putiniana do "Russkii Mir" e corre o risco de introduzir uma vistosa e insidiosa rachadura no edifício que ele mesmo construiu, além de ter repercussões negativas diretas na própria vida da Igreja Ortodoxa Russa.

 

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