“A teologia ortodoxa precisa ser ‘desputinizada’”, afirma o teólogo ortodoxo russo Cyril Hovorun

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15 Março 2022

 

“As ideias de um ‘mundo russo’ e uma ‘sociedade ortodoxa’ são baseadas em teologias ruins”, diz o padre e teólogo Cyril Hovorun, da Igreja Ortodoxa Russa.

“Essas são ideias heréticas. Teologicamente, elas precisam ser desconstruídas seriamente para revelar suas dimensões autoritárias e fascistas”, insiste.

Hovorun, 48 anos, natural da Ucrânia, é um arquimandrita na Igreja Ortodoxa Ucraniana do Patriarcado de Moscou. É um importante teólogo do Cristianismo Ortodoxo, com muitos livros publicados, servindo em postos de liderança no Patriarcado de Moscou durante anos.

Ele foi vice-presidente do Conselho de Doutrina da Igreja Ortodoxa Russa e é atualmente diretor para eclesiologia política na Academia Teológica Sankt Ignatios, na Suécia, e professor na Escola de Teologia de Estocolmo.

Duas semanas depois que a Rússia iniciou a invasão à Ucrânia, Hovorun concedeu esta entrevista em que explica as bases teológicas que apoiam o ato de guerra do Kremlin.

 

A entrevista é de Mikael Corre, publicada por La Croix International, 11-03-2022. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

Eis a entrevista.

 

Em uma entrevista recente, você fez um chamado à Igreja Ortodoxa para reavaliar sua teologia, em particular para condenar “a quase religiosa ideia que há um mundo russo”.

Uma guerra deve sempre ser explicada antes de ser começada. Antes de precisar de armas, você precisa de uma narrativa para convencer seu povo de sua validade, para fazê-los apoiá-la.

A ideia de um “mundo russo” é o que está na base da tentativa de invadir a Ucrânia, o que lhe dá uma estrutura conceitual.

Para entender bem, é preciso lembrar que quando Vladimir Putin chegou ao poder na virada dos anos 2000, a Rússia não tinha mais nenhuma ideologia. O Kremlin enfrentou o vazio deixado pela queda da URSS e o abandono do comunismo.

Para preencher esse vazio, os que estavam no poder empreenderam a restauração da Igreja Ortodoxa Russa. É a Igreja que dará ao Estado o que lhe falta: uma meta, uma missão, tanto histórica quanto metafísica.

 

E esta missão é a defesa do “mundo russo”?

Isso mesmo. Essa ideologia serviu antes de tudo para mobilizar os russos, para criar as condições em que pudessem viver juntos.

É uma lógica bastante semelhante àquela desenvolvida por Jean-Jacques Rousseau em “O Contrato Social”. Só que na situação russa não estamos apenas testemunhando o surgimento de uma espécie de religião civil que garante a coesão social e permite que as pessoas se reúnam em torno de valores comuns.

Não, na situação russa, as ideias são forjadas no Patriarcado e misturadas com o neoimperialismo de Vladimir Putin, numa espécie de fusão. Agora é usado para definir inimigos e traçar os contornos de uma guerra contra o mal.

 

Você acha que a agressão contra a Ucrânia tem outros objetivos além de adquirir novos territórios, novos recursos, novos acessos ao mar?

O Kremlin não segue uma lógica simples de expansão territorial.

A guerra na Ucrânia é de outra natureza. Ela está sendo travada em nome de uma missão especial de unificação religiosa, de proteção de uma espécie de “terra santa” contra o Ocidente – contra os países ocidentais considerados heréticos, maus e mentirosos, por serem católicos ou protestantes.

É antes de tudo uma lógica de expansão da “civilização ortodoxa”, que é a outra grande ideia que os teólogos ortodoxos devem desconstruir hoje.

 

De onde vem essa ideia de uma “civilização ortodoxa”?

Vem de uma tese que fascinou o Patriarcado de Moscou quando trabalhei lá de 2009-2012: “O Choque de Civilizações”, de Samuel P. Huntington.

O que fascinou o Patriarcado de Moscou não foi apenas a noção de civilização, mas também a de “choque” e conflito.

A “civilização ortodoxa” foi imediatamente pensada em termos de confronto com os outros.

 

E de expansão?

Absolutamente. Falar sobre civilização permite que o Kremlin não limite a Rússia às suas fronteiras.

Em 2016, Vladimir Putin fez um discurso muito explícito durante um evento em Moscou. No palco, o presidente russo perguntou a um menino: “Onde terminam as fronteiras da Rússia?” “No Estreito de Bering”, respondeu a criança. “Não, as fronteiras da Rússia não têm fim”, rebateu Vladimir Putin.

Esta é uma ideia imperialista que já se encontrava no Império Romano, em Augusto, por exemplo, o sucessor de Júlio César. O império não tem limites...

 

Voltemos à Ucrânia. Por que deveria, na mente do Kremlin, necessariamente fazer parte desse “mundo russo”, dessa “civilização ortodoxa”?

Devido à história. Ou melhor, uma visão mítica e reinventada da história.

Isso é muito claramente o que saiu do discurso de Vladimir Putin em 21 de fevereiro. Quando Vladimir Putin fala sobre a Ucrânia, ele não fala sobre o país real, as pessoas que vivem lá ou suas aspirações. Ele nega essas realidades.

Em vez disso, ele fala sobre a “ideia da Ucrânia”, no sentido platônico.

É como se o reino feudal da Rússia de Kiev, cristianizado no século X sob o reinado de Vladimir I, fosse ainda hoje uma realidade geopolítica relevante... Isso é como se o destino fosse recuperar Kiev, vista como “o berço do Cristianismo Russo”.

 

Como você a descreve, seria uma guerra religiosa?

Você tem que entender que Vladimir Putin tem uma relação hegeliana com a história. Para ele, a história é movida por ideias que justificam suas ações.

Seu discurso de 21 de fevereiro nada mais foi do que um friso imaginário desenrolado para falar do “mundo russo”, do qual ele se vê como o redentor.

Sua relação com a história também é muito messiânica: a “Santa Rússia”, que encarnaria o bem, estaria protegida contra as forças do mal, representadas pelo Ocidente...

 

Parece tão maniqueísta, caricatural... Como acreditar?

Não estou dizendo que Vladimir Putin, que é um cínico, acredita nisso. Mas se você ouvir os discursos, isso é realmente o que sai.

Em um sermão em 6 de março, o Patriarca Kirill de Moscou explicou, por exemplo, que a guerra na Ucrânia é necessária pelo “genocídio” que seria perpetrado no Donbass pelos ucranianos contra aqueles que recusam o Orgulho Gay.

Esta pode parecer-lhe uma afirmação absurda e alucinante, mas é muito coerente: pinta um bom retrato deste “choque de civilizações” do qual falamos.

De um lado, há a Rússia cristã. Do outro, há o Ocidente, ontologicamente o mal, que promove homossexuais, perseguidos como a encarnação do mal, e que deveriam ser exterminados.

Hoje, há uma urgência na Ortodoxia em atacar esses discursos. A partir do momento em que o mundo foi criado por Deus, é teologicamente impossível argumentar que qualquer parte deste mundo é essencialmente má.

E como defender o extermínio de gays e lésbicas se acredita que fomos criados à imagem de Deus?

As ideias de um “mundo russo” e uma “civilização ortodoxa” são baseadas em uma teologia ruim. São ideias heréticas. Teologicamente, deveriam ser seriamente desconstruídas para revelar sua dimensão autoritária e fascista.

 

O que deve envolver esse processo de desconstrução?

Através do mesmo trabalho de análise crítica de textos, de publicação de livros ou artigos, ocorrido no catolicismo e no protestantismo após a Segunda Guerra Mundial.

Alguns teólogos, por exemplo, tentaram demonstrar que Jesus não era judeu, para seguir as teses antissemitas.

A teologia católica e protestante teve que ser desnazificada, purgada dessas análises doentias.

A teologia ortodoxa hoje deve ser desputinizada e mais amplamente liberta dessas tendências fascistas.

Na Romênia, por exemplo, as teses de um teólogo antissemita e fascista como Nichifor Crainic (1889-1972) estão ganhando popularidade.

Nossa fraqueza hoje vem de muito trabalho que não foi feito, o de desconstruir teologias fundadas sob regimes autoritários na Grécia, Sérvia, Iugoslávia etc.

A ideia do “mundo russo” infelizmente não é a única teologia autoritária do início do século XXI, mas é a pior.

 

De que maneira?

Em teoria, de acordo com a Constituição russa, o Estado e a Igreja são separados.

Mas, de fato, podemos ver claramente que o sonho é recriar uma espécie de “sinfonia bizantina”, praticamente uma fusão entre poderes políticos e religiosos.

Em vez disso, devo dizer para criá-lo do zero, porque essa sinfonia nunca existiu totalmente no Império Bizantino.

Essa empreitada é perigosa, porque tira qualquer dimensão profética da Igreja e a torna escrava da política. Mas para alguns ortodoxos russos, este é um retorno a uma idade de ouro, a uma grandeza passada.

Então eles precisam de um homem forte como Putin, que interpreta o basileus [o imperador bizantino], para sonhar com um império ortodoxo que é forte...

 

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