Kirill transforma a guerra de Putin em uma cruzada contra o “grande Satanás”. Artigo de Pasquale Annicchino

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11 Março 2022

 

"Kirill, com esta nova intervenção, confirma o seu papel de intérprete supremo da teologia política pós-soviética, num contexto em que assumiu a tarefa de reconstruir uma narrativa pública que vê na Rússia o veículo da resistência em relação ao avanço do demônio e à possibilidade do fim da civilização", escreve Pasquale Annicchino, jurista, pesquisador do departamento de direito da Universidade de Foggia, foi Professor Adjunto de Direito na St. John's Law School, em Nova York, e Bolsista de Pesquisa no Robert Schuman Center for Advanced Studies na EUI, em artigo publicado por Domani, 09-03-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Existe uma função pedagógica das teologias políticas que se revela em sua máxima potência nos momentos de crise, justamente quando as comunidades são chamadas a se questionar sobre seus destinos coletivos. Quando a esses debates se entrelaçam aqueles sobre a energia nuclear, eis que entram em jogo perspectivas escatológicas que chegam a evocar a ação do demônio.

Pode parecer um contexto ultrapassado para comentaristas ocidentais, confortavelmente sentados nos divãs da secularização. E se as referências ao "grande Satanás" não vêm apenas do islamismo-fascismo dos aiatolás, mas, após as adaptações norte-coreanas e venezuelanas, continuam se espalhando, só resta refletir.

 

Dividir o povo

 

Vem em nosso auxílio o patriarca de Moscou e de todas as Rússias, Kirill, que ainda ontem à tarde encontrou tempo para proferir um novo sermão no final do serviço na igreja catedral de Cristo Salvador em Moscou.

A adesão de Kirill à narrativa de Putin é uma história, se quisermos ser neutros, realmente não muito edificante. A Ucrânia e a Rússia estão unidas por um destino comum "um só povo, ligado pelo destino histórico" com a fonte batismal de Kiev como colante "estamos unidos pela nossa fé, pelos nossos santos, pela esperança comum, pelas mesmas orações. O que pode nos separar?”.

Retomando a linguagem de Vladimir Putin, que vê no mundo ocidental "o império da mentira", Kirill evidencia como o "inimigo da humanidade, por meio de pessoas e organizações específicas, lança mentiras nas relações entre os nossos povos e com base nessa mentira desenvolve um conflito".

O autor da grande mentira contra o povo russo, como roteiro consolidado do manual do cristianismo anti-internacionalista, seria o demônio. É o demônio (o "grande Satanás") que leva dois povos irmãos à guerra. Aliás, na realidade, argumenta Kirill, "um povo, o povo russo".

É aquele demônio que "armou" seus irmãos para que entrassem em conflito com os "irmãos do mesmo sangue e da mesma fé", contribuindo assim a criar os "pré-requisitos para a expansão do conflito militar".

 

Teologia política pós-soviética

 

Kirill, com esta nova intervenção, confirma o seu papel de intérprete supremo da teologia política pós-soviética, num contexto em que assumiu a tarefa de reconstruir uma narrativa pública que vê na Rússia o veículo da resistência em relação ao avanço do demônio e à possibilidade do fim da civilização.

Será interessante observar as reações dos próximos dias, especialmente aquelas internas ao mundo ortodoxo. O primaz metropolita Giovanni de Dubna, arcebispo das igrejas ortodoxas de tradição russa na Europa Ocidental, justamente ontem publicou uma carta na qual pede a Kirill para intervier para parar a guerra.

No entanto, ele não se limitou a este convite. Ele também criticou o discurso de Kirill de 6 de março último: "Sua Santidade, em sua ‘homilia’ para o Domingo do Perdão, proferida em 6 de março na catedral patriarcal de Cristo Salvador, o senhor parece querer justificar esta guerra de agressão cruel e homicida como ‘uma luta metafísica’, em nome do ‘direito de estar do lado da luz, do lado da verdade de Deus, daquilo que a luz de Cristo nos revela, a sua palavra, o seu Evangelho’. Não posso subscrever tal interpretação do Evangelho. Nada jamais poderá justificar que os ‘bons pastores’, que nós devemos ser, deixem de ser ‘artesãos da paz’, sejam quais forem as circunstâncias. Vossa Santidade, humildemente, com o coração pesado, peço-lhe que faça todo o possível para pôr fim a esta terrível guerra que está dividindo o mundo e semeando morte e destruição”.

Talvez tivesse realmente razão Sergei Chapnin, ex-diretor da revista do patriarcado de Moscou, que em seu recente discurso sobre Kirill se perguntava "Quem realmente precisa de um patriarca assim?". Talvez Putin?

 

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