“Não faça isso!” fala Biden, mas o problema é a guerra

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23 Setembro 2022

 

"O Ocidente democrático deve olhar além: para a recomposição do quadro internacional, hoje tenso e confuso, como se vê na ONU. As regras da convivência global foram violadas: é o motivo para reconstruí-las. Buscar a paz não é ser fraco ou abandonar os aliados: significa ser clarividentes e saber tornar útil a política", escreve o cientista político italiano Mario Giro, professor de Relações Internacionais na Universidade para Estrangeiros de Perugia, na Itália, em artigo publicado por Domani, 22-09-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Don’t, don’t, don’t” disse Joe Biden ao “60 Minutes” respondendo à pergunta do entrevistador sobre o que Vladimir Putin quis dizer sobre o uso da arma atômica, que este último ameaça usar agora. Não faça isso, enfaticamente repetido três vezes.

 

Os russos reagiram referindo-se à sua própria doutrina estratégica, que, no entanto, permanece ambígua entre a dissuasão e um recurso de última instância. Mas a novidade (trágica) é que a questão nuclear foi oficialmente colocada na mesa.

 

Nunca antes havia se falado disso com tanta clareza, como de uma eventualidade, uma possibilidade real. Biden continuou dizendo que seu uso "mudaria a cara da guerra de uma maneira que não vimos desde a Segunda Guerra Mundial".

 

Isso não é correto: a bomba atômica transformaria o conflito em algo que nunca vimos.

 

Hiroshima e Nagasaki foram terríveis, mas na época não havia possibilidade de réplica. A humanidade nunca viveu uma guerra nuclear, seja ela tática ou estratégica.

 

Não basta esperar que seja local: mudaria tudo e nos levaria ao desconhecido. A única certeza: a escalada causaria destruição mútua garantida. Por esta razão, os defensores da continuação da guerra na Ucrânia argumentam veementemente que os russos nunca a usarão: eles se apegam a uma ilusão para justificar sua posição, que na verdade é totalmente ideológica.

 

Ser a favor da guerra até o fim não é estar do lado dos ucranianos, pelo contrário: eles seriam as primeiras vítimas de uma escalada do confronto até a extrema consequência atômica. Infelizmente, deve-se levar em conta que também existem terríveis fases intermediárias: as armas químicas – já usadas na Síria – e bacteriológicas. Ninguém está na cabeça da liderança russa para saber com certeza o que eles estão decidindo fazer, neste exato momento em que seu exército está recuando.

 

As retiradas (principalmente se forem fugas que correm o risco de se transformar em debandadas) representam momentos muito perigosos, em que o pior pode acontecer. Já sabemos disso. Consequentemente, é absolutamente necessário que, justamente neste momento militarmente favorável para os ucranianos, seja tentada a via diplomática ao mesmo tempo para evitar ultrapassar o ponto limite.

 

O Ocidente deve recuperar a lucidez e abrir espaço para a política. Não se trata de trair os ucranianos, mas de defendê-los de decisões imprudentes e irreversíveis tomadas em Moscou. Lucidez significa olhar para as condições políticas da atual grande crise russa: grande parte de suas fronteiras passadas e presentes estão sujeitas a fortes pressões e tensões. Muitas nacionalidades estão em turbulência, às vezes manipuladas; muitas fronteiras não são reconhecidas; numerosas zonas fronteiriças já estão em guerra.

 

Sabemos da Geórgia e da Abkhazia; da Armênia e do Azerbaijão que continuam lutando entre si. Menos conhecido é o conflito entre o Tajiquistão e o Quirguistão, que nas últimas semanas fez mais de 100 vítimas (e 140 mil refugiados), com invasões e veículos blindados, repetindo para pior os violentos acontecimentos de 2021 e 2010.

 

Conhecemos a fragilidade do Cazaquistão, mas estamos menos informados sobre as tensões étnicas no Extremo Oriente russo. As ameaças à paz global são múltiplas: basta ler "La frontiera", o belo livro de Erika Fatland, no qual a autora narra sua longa jornada de quase um ano, para descobrir um retrato fascinante de culturas, sociedades e Estados unidos pela condição geopolítica de ter fronteira com a Rússia. Trata-se da fronteira mais longa do mundo, hoje muito frágil e potencialmente crítica em muitos lugares.

 

A guerra ucraniana representa o lugar de maior atrito, mas não o único. Para além do destino da atual liderança russa, trata-se de uma questão estratégica que deve ser abordada politicamente para não ter que nos confrontar no futuro com uma série de conflitos em repetição, especialmente se se instaurar a convicção de que não há outro instrumento válido para enfrentar o problema. Caso contrário, a agressão de Moscou a Kiev se tornaria um modelo imitável para outros conflitos.

 

Não é interesse nacional italiano (nem europeu ou global) permitir que uma série infinita de disputas violentas seja desencadeada, sem tentar trazer tudo de volta ao quadro das negociações multilaterais.

 

O Ocidente democrático deve olhar além: para a recomposição do quadro internacional, hoje tenso e confuso, como se vê na ONU. As regras da convivência global foram violadas: é o motivo para reconstruí-las. Buscar a paz não é ser fraco ou abandonar os aliados: significa ser clarividentes e saber tornar útil a política.

 

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