Como a Guerra da Ucrânia vai intensificar o número de terremotos no mundo

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02 Setembro 2022

 

A União Europeia está diversificando seus fornecedores de gás diante do conflito russo-ucraniano, mas a maioria desses novos fornecedores usa ‘fracking’ para extrair esse combustível fóssil. Vários estudos relacionam a utilização desta técnica com o aumento dos terremotos nas áreas de extração.

 

A reportagem é de María Diéguez Fernández, publicada por El Salto, 29-08-2022. A tradução é do Cepat.

 

A guerra entre a Rússia e a Ucrânia está afetando seriamente os países europeus: o aumento dos preços dos alimentos e dos produtos de primeira necessidade é agravado pelo problema da dependência do gás russo. Nessa linha, os piores pesadelos da União Europeia estão se tornando realidade, já que a Rússia chegou a cortar total ou parcialmente o fornecimento de gás para a Alemanha e outros países europeus alegando “problemas técnicos”.

 

O último desses cortes foi anunciado esta semana pela gigante russa do gás Gazprom: o gasoduto Nord Stream 1 não vai bombear combustível para a Alemanha entre 31 de agosto e 2 de setembro. Assim, embora se espere que o problema de abastecimento dure cerca de um ano, não sendo este o primeiro destes cortes de abastecimento que o país alemão sofre desde o início do conflito russo-ucraniano, o ministro da Economia alemão, Robert Habeck faz previsões mais pessimistas e considera que “a situação pode prolongar-se indefinidamente”.

 

Diante deste problema, a União Europeia tenta encontrar novos aliados para continuar a garantir as reservas de gás nos Estados-Membros e já é uma ideia substituir o combustível russo pelo dos Estados Unidos ou comprá-lo de outros países com regimes autocráticos como o Azerbaijão ou os Emirados Árabes Unidos. Embora vozes críticas com a guerra e defensores do clima insistam que as energias renováveis são a solução para o problema do gás russo – já que não financiam armas como o gás russo e evitam intensificar o problema da crise climática –, a tendência atual é buscar outras fontes de petróleo e produtores de gás.

 

À semelhança de outros países, como a Alemanha, a Espanha optou pelo consumo de petróleo bruto. Em dados, as importações subiram 16% no primeiro trimestre do ano, segundo a Corporação de Reservas Estratégicas de Produtos Petrolíferos (Cores).

 

Mais injeção, mais terremotos

 

“A guerra entre a Rússia e a Ucrânia pode restringir o comércio de gás e diminuir a oferta, por isso pode favorecer o uso da técnica do fracking”, afirma José Luis Simón, geólogo especializado no estudo dessa técnica que utiliza a injeção de água pressurizada no subsolo para quebrar a rocha e extrair o gás. Esse processo, usado em larga escala em países que estão aumentando suas exportações de gás para a União Europeia, como é o caso dos Estados Unidos, gera “uma relação direta de causa e efeito entre o fraturamento hidráulico e os terremotos”, sentencia Simón. Cada vez mais estudos confirmam essa relação, como uma pesquisa de uma equipe germano-canadense que documentou um novo tipo de terremoto em um ambiente de injeção de água na Colúmbia Britânica, Canadá, pela qual registraram dados sísmicos de aproximadamente 350 terremotos.

 

Na mesma linha, um estudo dirigido por um sismólogo da Southern Methodist University (Dallas, EUA) indica que existe uma relação entre o fraturamento hidráulico e a avalanche de tremores em falhas do norte do Texas que estavam inativas há cerca de 300 milhões de anos. Além disso, a intensidade desses terremotos pode variar e até aumentar ao longo do tempo.

 

“Demonstrou-se que a técnica do fracking pode induzir a terremotos e existem vários artigos publicados em revistas especializadas onde são fornecidos os dados necessários para deduzir uma correlação entre fracking e terremotos induzidos. A razão é que a técnica do fracking, ao introduzir água pressurizada e fraturar a rocha, ajuda a aumentar a pressão de fluidos, que é um dos mecanismos que ativa o movimento nas falhas e, portanto, pode produzir terremotos”, diz Fernando Pérez Valera, geólogo especializado em cartografia geológica.

 

A lista de países que lideram o uso dessa técnica em seus territórios inclui Estados Unidos, México, China, Argentina, Colômbia... além de um registro de bacias com estimativas de recursos na Líbia ou na Argélia. Se fizermos uma sobreposição desta lista de fracking com a dos países com os maiores terremotos, os nomes se repetem: Estados Unidos, México, China...

 

Embora nem todos esses terremotos sejam produzidos por essa técnica de extração de gás, os especialistas alertam que esse mecanismo não favorece a estabilização dos terremotos. Por isso, de várias áreas se alerta que a União Europeia estaria motivando o uso do fracking ao abastecer-se de gás em países como os Estados Unidos ou o Irã.

 

Mas o problema com esta técnica não são apenas os terremotos: “a contaminação dos aquíferos é provavelmente o principal problema”, explica Simón. A razão está nos agentes poluentes: o próprio metano que é extraído, que pode escapar por fissuras descontroladas; os agentes químicos que são adicionados à água de injeção, que vão diretamente para o subsolo e seu destino final também não pode ser controlado; e as substâncias tóxicas ou radioativas naturais (arsênio, radônio...) que estão fixadas e estabilizadas no subsolo e podem ser removidos pela água injetada sob pressão fazendo com que passem para os aquíferos. São efeitos sobre o meio ambiente que não ocorreriam com a obtenção de energia a partir de fontes renováveis.

 

A Espanha flerta com o fracking

 

Por volta de 2015, começaram a proliferar os projetos de fracking e foram apresentados à Administração em diferentes áreas da Espanha, como Albacete, o norte de Burgos, o País Basco, Aragão, o Maestrat de Castellón ou La Rioja. “Em muitas das áreas não havia sequer bases geológicas razoáveis para que fizesse sentido iniciar os estudos”, explica o geólogo especialista no fracking Pérez Valera.

 

“A grande maioria delas eram operações especulativas iniciadas por pequenas empresas oportunistas que certamente queriam se apossar dos direitos para depois vendê-los para empresas maiores”, continua. Por fim, aquilo foi uma espécie de “gasosa” que, assim como fazia “efervescência” muito rapidamente, “se esgotou, porque se viu sua falta de sentido”, arremata.

 

A operação fazia pouco sentido para este especialista, pois somente um ano antes, em 2014, vários partidos políticos haviam assinado um acordo antifracking graças à iniciativa de cerca de 200 grupos e associações sociais e ambientais. Como lembra Tom Kucharz, membro da confederação Ecologistas en Acción, todos os grupos do Congresso, com exceção do PP, CiU, PNV e UPyD, assinaram essa declaração.

 

Embora a Espanha não seja um dos países mais dependentes do gás russo, em 2021 importou 56 milhões de toneladas de petróleo bruto de mais de 20 países. Da Rússia, chegaram apenas 2,5 milhões de toneladas, 4,6% do total, segundo Cores. No entanto, está “alimentando” o uso do fracking em outros países. “Hoje, a Espanha importa grandes quantidades de gás fóssil extraído com a técnica do fracking, especificamente dos Estados Unidos e da Argentina, especificamente do depósito de Vaca Muerta”, afirma Kucharz.

 

A solução para estes problemas seria, segundo a Ecologistas en Acción, proibir a importação de gás proveniente do fracking para aumentar exponencialmente a transição para um sistema 100% renovável, tendo como pilares fundamentais o autoconsumo coletivo e a eficiência energética.

 

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