Gás e petróleo, o “preço político” da guerra. Artigo de Alberto Negri

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06 Setembro 2022

 

"Vamos sim punir o autocrata Putin, mas alguma vez gostaríamos de ver sancionado também algum outro: aqui o preço político que se paga pela guerra é sempre o do duplo padrão", escreve Alberto Negri, filósofo italiano, em artigo publicado por Il Manifesto, 04-09-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Com a guerra na Ucrânia desencadeada por Putin, descobrimos que o gás e o petróleo russos podem ter um preço “político”, pelo menos é isso que parece pelo que foi decidido no G-7 e pelo debate em curso em Bruxelas.

 

E por que apenas congelar os preços das matérias-primas energéticas russas? Por que não o estender a outros bens primários, visto que ainda se morre de fome no mundo? Até agora nos haviam dito e repetido que só os mercados podiam decidir os preços, com o dogma inviolável da oferta e da procura.

 

Quer dizer que eles estavam errados?

 

Na realidade, não é isso. Nós não erramos. Pode-se mexer apenas no gás e no petróleo dos russos, não naqueles, por exemplo, dos estadunidenses ou das monarquias árabes absolutas do Golfo. É claro que, neste caso, se quer sancionar Moscou e limitar suas receitas de exportação para afetar a capacidade do autocrata Putin de continuar a guerra na Ucrânia. Mas ninguém ousaria congelar o petróleo saudita que está em guerra no Iêmen e também o maior comprador de armas estadunidenses e ocidentais.

 

Teríamos nos tornados de repente “pacifistas”? Mas diminuir a capacidade de gastos militares dos estados pode ser um começo para limitar a corrida armamentista, que é exatamente o oposto do que está acontecendo hoje, aliás, a OTAN está nos pedindo para aumentar os gastos militares justamente quando as contas de energia disparam para famílias e empresas.

 

Ai daqueles que se sentissem tentados a expressar pensamentos semelhantes aqui em nossas paragens: seriam imediatamente apontados como sabotadores da nossa indústria militar que, afinal, conta com milhares de empregados. E falando da nossa indústria bélica e dos “valores” ocidentais que nos são continuamente desfraldados: nenhum dos que governaram nos últimos anos e dos que estão no comando na Europa teve sequer por engano a ideia de congelar o fornecimento de armas ao Egito do ditador Al Sisi, cujo aparato de segurança massacrou Giulio Regeni e todo opositor democrático. Aliás, nunca será, porque o presidente-geral privado das nossas armas se dirigiria para os concorrentes e entre eles também a Rússia. Além do mais, o Egito também é um fornecedor de gás, então ali ninguém mexe.

 

Mas algumas perguntinhas sobre por que acabamos nas mãos de ditadores como Putin e Al Sisi ou os monarcas do Golfo - agora reciclados dentro do Pacto de Abrão com Israel - precisamos fazê-las. Em 2020, o consumo de gás na Europa era de 380 bilhões de metros cúbicos, 145 vinham da Rússia. Abastecíamo-nos com os russos porque o transporte por gasoduto era mais cômodo e o gás de Moscou era mais barato. Todo mundo fazia isso, da Alemanha à Itália, aos países da Europa Oriental. Uma dependência tão evidente que se tornou um fato que não agradava especialmente aos estadunidenses que, de fato, foram aqueles que, antes da guerra, ameaçaram sancionar o Nord Stream 2 alemão. Não só os estadunidenses têm seu gás para vender, mas controlar as rotas dos abastecimentos energéticos mundiais continua sendo um objetivo estratégico de Washington irrenunciável. É por isso que eles jamais vão sair do Golfo, onde passa 40% do petróleo do mundo, onde mantêm sua frota e bases militares.

 

Se formos cavar mais fundo nas propostas anunciadas pelo G-7 e pela UE, na realidade percebemos que o teto dos preços da energia tem consequências estratégicas muito relevantes: a principal é que o conflito, em vez de ser contido, corre o risco de se ampliar.

 

O que querem os Sete Grandes? O G-7 pretende aplicar “urgentemente” um teto ao preço de compra do petróleo russo - setor em que Moscou fatura três vezes mais do que das exportações de gás – e incentiva uma “ampla coalizão” de países a participar da iniciativa, que visa limitar a capacidade de Moscou de financiar a sua invasão da Ucrânia. Mas como obter que essa “coalizão de voluntariosos” antirrussa possa funcionar?

 

Com as chamadas sanções secundárias. Ou seja, serão sancionados e punidos os países e os operadores que comprarem petróleo de Moscou com uma cotação superior ao teto estabelecido. Isso significa colocar em prática sanções econômicas e financeiras do tipo aplicado hoje ao Irã, que foi efetivamente isolado do sistema bancário ocidental. Ora, como entre os maiores compradores de petróleo russo estão chineses e indianos, parece claro que as ondas sísmicas do conflito ucraniano estão destinadas a aumentar. Sem falar que no chamado campo ocidental e da OTAN já existem duas anomalias, aquela da Turquia e aquela de Israel, que não aplicam sanções à Rússia de Putin.

 

Erdogan importa gás, petróleo e até sistemas de armas de Moscou, mas ninguém se atreve a tocá-lo porque o sultão da OTAN, que se propõe constantemente como mediador com Putin mesmo vendendo seus drones a Kiev, tornou-se o verdadeiro guardião do Mediterrâneo oriental onde decide, com manobras provocativas, mesmo onde o gás offshore é extraído. Isso sem falar na chantagem contra os curdos e as contínuas violações dos direitos humanos e civis, sobre as quais Finlândia e Suécia deveriam fechar os olhos para ter seu sinal verde para ingressar na OTAN. Então, vamos sim punir o autocrata Putin, mas alguma vez gostaríamos de ver sancionado também algum outro: aqui o preço político que se paga pela guerra é sempre o do duplo padrão.

 

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