Hiroshima, Nagasaki, nós

Revista ihu on-line

Zooliteratura. A virada animal e vegetal contra o antropocentrismo

Edição: 552

Leia mais

Modernismos. A fratura entre a modernidade artística e social no Brasil

Edição: 551

Leia mais

Metaverso. A experiência humana sob outros horizontes

Edição: 550

Leia mais

Mais Lidos

  • A dificuldade de Maria Homem comer Caetano. Artigo de Faustino Teixeira

    LER MAIS
  • Uma ladainha sem fim e uma pequena história exemplar. Artigo de José Luís Fiori

    LER MAIS
  • Escândalo de Rupnik é nova peça do mosaico do Vaticano sobre casos de abuso

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


06 Agosto 2020

“A memória não é retrocesso, semeia futuro. Aqueles que “fazem a morte feliz” não descansam nem nos dias de folga. Olhos no piolho: os Bolsonaro e os Trump se reproduzem rapidamente porque a paranoia se tornou a mais eficaz das ideologias. À mercê do absurdo desenfreado, o planeta (com nós sobre ele) está a caminho de se tornar uma Hiroshima, um punhado de cinzas indefesas, envolvidas no celofane dos eufemismos, que nem o vento levará. Cinzas de nós, cinzas do planeta”, escreve Rodolfo Braceli, poeta, ensaísta e jornalista argentino, em artigo publicado por Página|12, 05-08-2020. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Em 6 de agosto de 1945, foi lançada a primeira bomba atômica sobre Hiroshima. Ao terceiro dia, ninguém ressuscitou, foi lançada a segunda atômica sobre Nagasaki. Duas bombas preventivas? Duas advertências pacifistas? Mais de 260.000 mortes em alguns instantes: o equivalente em vidas a 88 Torres Gêmeas.

Com aqueles 6 e 9 de agosto, começou uma nova Era? A condição humana subiu ao menos um degrau? O respeito ao diferente superou a tolerância? Desenvolvemos algo a mais do que o músculo da hipocrisia? Enfim, além do prodigioso crescimento da ciência e da técnica, conseguimos fazer com que guerras e doenças endêmicas e fomes e genocídios e analfabetismo deixassem de ser inevitáveis hábitos humanos?

Passaram-se anos, mas no primordial crescemos? Não há caso: sempre parece impudente a defasagem entre evolução científica e cretinismo moral. Nada aprendemos do atroz genocídio judeu, nada com o menosprezado genocídio armênio. Os genocídios preventivos não param. Pedalamos sem corrente. Enquanto isso, suicidamos o planeta.

Assistimos à Era dos eufemismos. Nossa história depois da Segunda Guerra Mundial explícita poderia ser contada encadeando eufemismos. Somos filhos de eufemismos desalmados, tais como: “danos colaterais, mísseis inteligentes, em situação de rua, racionalização de pessoal, departamento de relações humanas, guerras preventivas, analfabetismo’. O cúmulo do cinismo é consagrado quando a insuportável tortura é chamada de interrogatórios exigentes.

Naturalizados pelos meios de (des)comunicação, os eufemismos amortecem, minimizam, mascaram, liquefazem, absolvem atrocidades e a globalização da escravidão. Os eufemismos são a forma mais azeitada de impunidade. Os assassinatos em massa, em Hiroshima e Nagasaki, foram informados ao mundo com eufemismos contidos em frases selvagens: Tivemos que soltar a bomba, disseram, “para alcançar a paz mais cedo”. A pequena frase justificou e absolveu uma bomba e outra mais. As consciências da condição humana foram amortecidas.

E quem consumou a barbárie? Não foram monstros, essa denominação os absolve: foram seres humanos... Quando chegam notícias de assassinos em série que em colégios dos Estados Unidos despacham dezenas de companheiros, surge a pergunta: como, como é possível? É possível porque emergem de uma sociedade que assimilou o eufemismo dessas bombas com uma naturalidade que hoje a faz encarnar a paranoia como ideologia. O massacre em uma cervejaria é rotulado como "incidente crítico". Um personagem borgiano diria: "Coisa de meninos". A paranoia corre solta. Triunfa o cinismo.

Revisemos detalhes daqueles bombardeios sobre Hiroshima e Nagasaki, duas cidades desarmadas. As bombas foram "soltas", não "lançadas". Os autores não careciam de ternura: as bombas foram batizadas de "Little boy" (Pequeno garoto) e "Fat man" (Homem gordo). O aviãozinho que transportou a façanha foi nomeado como "Enola Gay", em homenagem à mãe que deu à luz o piloto. Quanto ao pai, esqueceram.

Seres direitos e humanos, sem dúvida. E lá temos Charles Donald Albury, copiloto do bombardeio que consolidou a lição pacifista em Nagasaki. O garoto posa corado, sorridente, bonachão. Caramba, que cara de babaca feliz tem!

O episódio atômico teve outros traços humanitários. Por exemplo, Kyoto havia sido escolhida como alvo para a primeira atômica, mas o secretário de Guerra, Henry Stimson, amava Kyoto. Em Kyoto, havia aproveitado sua lua de mel. Essa memória salvou Kyoto de ser carbonizada. Optou-se por Hiroshima como alvo, às 8h15, cedinho, porque era “mais conveniente em termos publicitários”.

Depois disso, o que chamados de civilização? Nossa condição humana está pendente. Hiroshima e Nagasaki seguem crepitando. Moralmente, somos um paupérrimo simulacro.

Conta-nos Johsie, uma sobrevivente

Pronunciamos Hiroshima e soa muito distante. Para encurtar a distância que leva à indiferença ativa, compartilho agora algumas linhas de uma reportagem que fiz com uma sobrevivente de Hiroshima. Eu a entrevistei há 38 anos, em sua casa, em Vicente López. Vamos ouvir Yoshie Kamioke em seu determinado espanhol:

“Eu tinha 17 anos e a caiu a bomba. Bomba Hiroshima, 6 de agosto, meu aniversário é 10 de agosto. Passei o aniversário dormindo. A bomba havia cansado muito meu corpo. Lembro-me daquele dia e dói no meu coração. Naquela manhã, saio para o escritório, o bonde não chega, ando 45 minutos, chego à estação e barulho de avião e bomba! Estava a vinte quarteirões de distância, mas quando a bomba caiu, não senti dor, não senti nada”.

“Pobre Hiroshima minha. Bomba silenciosa. Bomba como vento forte, vento com raio, brilho amarelo. Não ouço barulho, apenas vento e muito amarelo e o dia é noite. Tudo escuro, gritos de ajuda! Levanto-me, meu pequeno corpo pesa muito. Busco minha casa. De minha roupa, apenas uma blusa branca permanece inteira. O rosto arde, não sei se falta muito cabelo na cabeça. Ando e caio, vejo pessoas nuas com os cabelos todos brancos. Estou muito cansada e assustada, e um pouco tonta”.

“Três horas e eu chego em casa. A garganta e olhos ardem, sinto-me mais cansada. Não consigo engolir água. Minha mãe tira a blusa com uma tesoura e me coloca na cama. Aparecem moscas e minha mãe coloca uma proteção. Durmo cinquenta dias, até me levantar. E eu continuo vivendo... ”

Yoshie Kamioke tinha 29 anos quando chegou na Argentina. Disse-me com orgulho: “Mas hoje Hiroshima é linda, com flores, com árvores. Quando a morte fechar meus olhos, a memória da bomba terminará... "

A conversa com Yoshie aconteceu em uma manhã ensolarada, em meio ao inverno. Às vezes, Yoshie pensava em voz alta: "Por que a guerra? Com guerra, morrem crianças... gente surda, sem braços, sem pernas, pessoas cegas. Com guerra, somente é feliz a morte".

Pós-escrito. Estamos cheios de mísseis "inteligentes", de famintos sem alfabetização. Como resistir à lógica irreparável dos gerentes do planeta? Finalmente, aprendendo que nada existe de menos liberal que o autodenominado (neo)liberalismo.

A memória não é retrocesso, semeia futuro. Aqueles que “fazem a morte feliz” não descansam nem nos dias de folga. Olhos no piolho: os Bolsonaro e os Trump se reproduzem rapidamente porque a paranoia se tornou a mais eficaz das ideologias. À mercê do absurdo desenfreado, o planeta (com nós sobre ele) está a caminho de se tornar uma Hiroshima, um punhado de cinzas indefesas, envolvidas no celofane dos eufemismos, que nem o vento levará. Cinzas de nós, cinzas do planeta.

Saiamos da indiferença ativa. Mãe minha, mãe sua, mãe nossa, que estais na Terra.

 

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Hiroshima, Nagasaki, nós - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV