Kirill, o patriarca de Moscou que nega a invasão da Ucrânia

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06 Mai 2022

 

A última consideração, no outro dia, parece sair de uma história de Philip K. Dick, quase uma sequência de O Homem do Castelo Alto, a descrição de uma realidade paralela: "A Rússia nunca atacou ninguém, apenas defendeu suas fronteiras". Kirill, também conhecido como Vladimir Michajlovic Gundjaev, talvez ainda não tivesse lido a sugestão que o Papa Francisco lhe dirigiu de forma cristã em uma entrevista ao Corriere: "O patriarca de Moscou não pode se transformar no coroinha de Putin".

 

A reportagem é de Gian Guido Vecchi, publicada por Corriere della Sera, 05-05-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Afinal, é desde o início da guerra que Kirill agita o incensário para abençoar a batalha contra os "chamados valores do poder mundial" representados pelo lobby gay, a "parada gay" como "teste" da "liberdade" como é entendida no Ocidente pervertido. Mas agora que a Comissão Europeia está se preparando para sancioná-lo também, no sexto pacote de medidas em resposta à invasão da Ucrânia, existe o risco de que apareçam as riquezas que Kirill sempre negou ou silenciou e sobre as quais há rumores há anos, 4 bilhões de dólares segundo um relatório da Forbes de 2006, de 4 bilhões a 8 bilhões segundo estimativas do Novaya Gazeta.

 

E assim, com todo o respeito ao conflito ontológico entre o bem e o mal, de uma guerra que "não tem apenas um sentido político" porque "se trata de uma questão de salvação humana, de onde a humanidade vai acabar", em suma, "uma luta que não tem um significado físico, mas metafísico", será uma questão de verificar as vozes incômodas que o caçam há anos, a paixão pelo esqui alpino e aquático, as riquezas que ele teria obtido quando no Iraque havia o embargo dos EUA e a Igreja russa recebia o dízimo sobre o comércio de cigarros, a residência de luxo em Moscou e o chalé nos Alpes suíços, no cantão de Zurique, até mesmo aquele caso obscuro do agente "Mikhailov" recrutado no clero pela KGB quando ainda era arcebispo.

 

Dez anos atrás, o fotografaram sentado hierático em um encontro oficial com um relógio de trinta mil dólares no pulso. Tentaram deletá-lo com o Photoshop mas dava para ver o reflexo na mesa, o patriarcado pediu desculpas pelo retoque.

 

Resta saber por que Kirill, há mais de dois meses, tenha abandonado a também prudência residual que seu cargo lhe imporia. Até a invasão da Ucrânia, Vladimir Michajlovic teve o cuidado de não se expor demais em público.

 

Criado em uma família religiosa, tornou-se monge em 1969 e teve uma carreira fulgurante desde os anos soviéticos, seus estudos na Academia Teológica de Leningrado-São Petersburgo da qual se tornou reitor, a nomeação como bispo de Vyborg (1976), arcebispo de Smolensk (1984) e Kaliningrado (1988) e metropolita (1991), Alexis II que em 1989 o escolhe como presidente do departamento de Assuntos Religiosos e, portanto, "ministro das Relações Exteriores" do Patriarcado, finalmente o idoso patriarca que morre e Kirill que o sucede em 2009. Diz-se que ele fosse contrário à anexação da Crimeia e em 2014 evitou participar das celebrações.

 

No mundo ortodoxo, para explicar a virada extremista e os tons de capelão militar, conta-se que ele teria sofrido com a concorrência interna do metropolita de Pskov e Porkhov, Tikhon Shevkunov, também amigo de Putin, que gosta de se considerar como o "pai espiritual" do presidente russo, um opositor interno que se destaca na pregação do Russkii mir, a ideologia de um "mundo russo" além das fronteiras do país que é um dos fundamentos da vontade de poder de Putin.

 

Enquanto isso, Kirill está cada vez mais isolado, tanto dentro quanto fora da ortodoxia. Segundo dados do Conselho Mundial de Igrejas, há 113,5 milhões de fiéis na Rússia, 8,2 milhões na Bielorrússia. Na Ucrânia seriam 30 milhões, ligados ao patriarcado de Moscou, com 10.377 paróquias: e agora, como é evidente, abandonaram Kirill à sua sorte e estão indo alhures.

 

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