Declaração de teólogos ortodoxos em oposição à doutrina do “mundo russo” (russkii mir)

Foto: Sergey Dolzhenko | EFE

15 Março 2022

 

“Rejeitamos a heresia do 'mundo russo' e as ações vergonhosas do governo da Rússia ao desencadear a guerra contra a Ucrânia que flui desse ensinamento vil e indefensável com a conivência da Igreja Ortodoxa Russa, pois é profundamente não-ortodoxa, não-cristã e contra a humanidade”, escrevem mais de 60 teólogos ortodoxos em declaração de oposição ao apoio e justificativas do Patriarca Kirill à guerra da Ucrânia, publicada por Public Orthodoxy, 13-03-2022. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

Eis a declaração.

 

“Pela paz de todo o mundo, pela estabilidade das santas Igrejas de Deus, e pela unidade de todos, rezemos ao Senhor
(Liturgia Divina)

 

A invasão russa da Ucrânia em 24 de fevereiro de 2022 é uma histórica ameaça ao povo da tradição ortodoxa cristã. Mais desafiadora ainda para os fiéis ortodoxos, o mais alto hierarca da Igreja Ortodoxa Russa recusa reconhecer essa invasão, fazendo declarações vagas sobre a necessidade de paz à luz dos “eventos” e “hostilidades” na Ucrânia, embora enfatize a natureza fraternal dos povos ucranianos e russos como parte da “Santa Rússia”, acusa com hostilidades sobre o “Ocidente mau”, e ainda direciona suas comunidades para rezar de forma que ativamente aumentam a hostilidade.

 

O apoio de muitos da hierarquia do Patriarcado de Moscou à guerra do presidente Vladimir Putin contra a Ucrânia está enraizada na forma do fundamentalismo religioso etnofiletista, de caráter totalitário, chamado Russkii mir, ou “Mundo Russo”, um falso ensinamento que está atraindo muitos na Igreja Ortodoxa e tem sido aderido por católicos e protestantes fundamentalistas da extrema-direita.

 

Os discursos do presidente Vladimir Putin e do Patriarca Kirill (Gundiaev) de Moscou (Patriarcado de Moscou) repetidamente invocaram e desenvolveram a ideologia mundial russa nos últimos 20 anos. Em 2014, quando a Rússia anexou a Crimeia e iniciou uma guerra proxy na área de Donbass da Ucrânia, até o início da guerra total contra a Ucrânia e depois, Putin e o Patriarca Kirill usaram a ideologia mundial russa como principal justificativa para a invasão. O ensinamento afirma que existe uma esfera ou civilização russa transnacional, chamada Santa Rússia ou Santa Rus', que inclui Rússia, Ucrânia e Bielorrússia (e às vezes Moldávia e Cazaquistão), bem como russos étnicos e pessoas de língua russa em todo o mundo. Sustenta que este “mundo russo” tem um centro político comum (Moscou), um centro espiritual comum (Kiev como a “mãe de todos os russos”), uma língua comum (russo), uma igreja comum (a Igreja Ortodoxa Russa, Patriarcado de Moscou) e um patriarca comum (o Patriarca de Moscou), que trabalha em "sinfonia" com um presidente/líder nacional comum (Putin) para governar este mundo russo, bem como defender uma espiritualidade, moralidade e cultura comuns.

 

Contra esse “mundo russo” (assim diz o ensinamento) está o Ocidente corrupto, liderado pelos Estados Unidos e nações da Europa Ocidental, que capitulou ao “liberalismo”, “globalização”, “cristianismo”, “direitos homossexuais” promovidos em desfiles e “laicismo militante”. Acima e contra o Ocidente e os ortodoxos que caíram em cisma e erro (como o Patriarca Ecumênico Bartolomeu e outras igrejas ortodoxas locais que o apoiam) está o Patriarcado de Moscou, junto com Vladimir Putin, como os verdadeiros defensores do ensino ortodoxo, os quais veem em termos de moralidade tradicional, uma compreensão rigorosa e inflexível da tradição e veneração da Santa Rússia.

 

Desde a chegada do Patriarca Kirill ao trono em 2009, as principais figuras do Patriarcado de Moscou, bem como porta-vozes do Estado russo, têm continuamente se baseado nesses princípios para frustrar a base teológica da unidade ortodoxa. O princípio da organização étnica da Igreja foi condenado no Concílio de Constantinopla em 1872. O falso ensino do etnofiletismo é a base da ideologia do “mundo russo”. Se considerarmos esses falsos princípios como válidos, então a Igreja Ortodoxa deixa de ser a Igreja do Evangelho de Jesus Cristo, dos Apóstolos, do Credo Niceno-Constantinopolitano, dos Concílios Ecumênicos e dos Padres da Igreja. A unidade torna-se intrinsecamente impossível.

 

Portanto, rejeitamos a heresia do “mundo russo” e as ações vergonhosas do governo da Rússia ao desencadear a guerra contra a Ucrânia que flui desse ensinamento vil e indefensável com a conivência da Igreja Ortodoxa Russa, pois é profundamente não-ortodoxa, não-cristã e contra a humanidade, que é chamada a ser “justificada... iluminada... e lavada em nome de nosso Senhor Jesus Cristo e pelo Espírito de Deus” (Rito Batismal). Assim como a Rússia invadiu a Ucrânia, também o Patriarcado de Moscou do Patriarca Kirill invadiu a Igreja Ortodoxa, por exemplo, na África, causando divisões e conflitos, com incontáveis baixas não apenas para o corpo, mas para a alma, colocando em risco a salvação dos fiéis.

 

Tendo em vista o ensinamento do “mundo russo” que está devastando e dividindo a Igreja, somos inspirados pelo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo e pela Santa Tradição de Seu Corpo Vivo, a Igreja Ortodoxa, para proclamar e confessar as seguintes verdades:

 

1. “O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas lutariam para que eu não fosse entregue às autoridades dos judeus. Mas agora o meu reino não é daqui” (João 18, 36)

 

Afirmamos que o propósito e a realização divinamente designados da história, seu telos, é a vinda do Reino de nosso Senhor Jesus Cristo, um Reino de justiça, paz e alegria no Espírito Santo, um Reino atestado pela Sagrada Escritura conforme interpretada com autoridade pelos Padres. Este é o Reino do qual participamos através de uma prévia em cada Santa Liturgia: “Bendito é o reino do Pai, do Filho e do Espírito Santo, agora e sempre e pelos séculos dos séculos!” (Divina Liturgia). Este Reino é o único fundamento e autoridade para os ortodoxos, na verdade para todos os cristãos. Não há nenhuma fonte separada de revelação, nenhuma base para comunidade, sociedade, estado, lei, identidade pessoal e ensino, para a Ortodoxia como o Corpo do Cristo Vivo do que o que é revelado em, por e através de nosso Senhor Jesus Cristo e o Espírito de Deus.

 

Por isso, condenamos como não-ortodoxo e rejeitamos qualquer ensinamento que pretenda substituir o Reino de Deus visto pelos profetas, proclamado e inaugurado por Cristo, ensinado pelos apóstolos, recebido como sabedoria pela Igreja, estabelecido como dogma pelos Padres, e experimentado em toda Santa Liturgia, com um reino deste mundo, seja o da Santa Rus', do Sagrado Bizâncio, ou de qualquer outro reino terrestre, usurpando assim a própria autoridade de Cristo para entregar o Reino a Deus Pai (1 Coríntios 15, 24), e negando o poder de Deus para enxugar toda lágrima de todos os olhos (Apocalipse 21, 4). Condenamos firmemente toda forma de teologia que nega que os cristãos sejam migrantes e refugiados neste mundo (Hebreus 13, 14), ou seja, o fato de que “nossa cidadania está no céu, e é de lá que esperamos um Salvador, o Senhor Jesus Cristo” (Filipenses 3, 20) e que os cristãos “residiram em seus respectivos países, mas apenas como peregrinos. Eles participam de tudo como cidadãos e suportam tudo como estrangeiros. Toda terra estrangeira é sua casa, e toda casa uma terra estrangeira” (A Epístola a Diogneto, 5).

 

2. “Pois deem a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mateus 22, 21)

 

Afirmamos que, em antecipação ao triunfo final do Reino de Deus, reconhecemos a autoridade única e final de nosso Senhor Jesus Cristo. Nesta época, os governantes terrenos proporcionam paz, para que o povo de Deus possa viver “uma vida calma e ordenada, em toda piedade e santidade” (Divina Liturgia). No entanto, não há nação, estado ou ordem de vida humana que possa fazer uma reivindicação mais alta sobre nós do que Jesus Cristo, em cujo nome “todo joelho se dobre, nos céus, na terra e debaixo da terra” (Filipenses 2, 10).

 

Portanto, condenamos como não-ortodoxos e rejeitamos qualquer ensinamento que subordine o Reino de Deus, manifestado na Única Santa Igreja de Deus, a qualquer reino deste mundo que busque outros senhores eclesiásticos ou seculares que possam nos justificar e redimir. Rejeitamos firmemente todas as formas de governo que divinizam o Estado (teocracia) e absorvam a Igreja, privando a Igreja de sua liberdade de se posicionar profeticamente contra toda injustiça. Também repreendemos todos aqueles que afirmam o cesaropapismo, substituindo sua obediência final ao Senhor crucificado e ressurreto pela de qualquer líder investido de poderes governamentais e afirmando ser o ungido de Deus, seja conhecido pelo título de “César”, “Imperador”, “Czar” ou “Presidente”.

 

3. “Não há mais diferença entre judeu e grego, entre escravo e homem livre, entre homem e mulher, pois todos vocês são um só em Jesus Cristo” (Gálatas 3, 28)

 

Afirmamos que a divisão da humanidade em grupos baseados em raça, religião, língua, etnia ou qualquer outra característica secundária da existência humana é uma característica deste mundo imperfeito e pecaminoso, que, seguindo a tradição patrística, são caracterizados como “distinções da carne” (São Gregório de Nazianzo, Oração 7, 23). A afirmação da superioridade de um grupo sobre os outros é um mal característico de tais divisões, que são totalmente contrárias ao Evangelho, onde todos são um e iguais em Cristo, todos devem responder a Ele por seus atos, e todos têm acesso ao seu amor e perdão, não como membros de grupos sociais ou étnicos particulares, mas como pessoas criadas e nascidas igualmente à imagem e semelhança de Deus (Gênesis 1, 26).

 

Portanto, condenamos como não-ortodoxos e rejeitamos qualquer ensino que atribua estabelecimento ou autoridade divina, santidade especial ou pureza a qualquer identidade local, nacional ou étnica, ou caracterize qualquer cultura particular como especial ou divinamente ordenada, seja grega, romena, russa, ucraniano ou qualquer outro.

 

4. “Vocês ouviram o que foi dito: ‘Ame o seu próximo, e odeie o seu inimigo!’ Eu, porém, lhes digo: amem os seus inimigos, e rezem por aqueles que perseguem vocês!” (Mateus 5, 43-45)

 

Seguindo o mandamento de nosso Senhor, afirmamos que, como São Silouano, o Atonita, declara: “A graça de Deus não está no homem que não ama seus inimigos”, e que não podemos conhecer a paz até que amemos nossos inimigos. Como tal, a guerra é o fracasso final da lei de amor de Cristo.

 

Portanto, condenamos como não-ortodoxos e rejeitamos qualquer ensinamento que encoraje a divisão, a desconfiança, o ódio e a violência entre povos, religiões, confissões, nações ou estados. Condenamos ainda como não-ortodoxos e rejeitamos qualquer ensino que demonize ou encoraje a demonização daqueles que o estado ou a sociedade consideram “outros”, incluindo estrangeiros, dissidentes políticos e religiosos e outras minorias sociais estigmatizadas. Rejeitamos qualquer divisão maniqueísta e gnóstica que elevaria uma santa cultura ortodoxa oriental e seus povos ortodoxos acima de um “Ocidente” degradado e imoral. É particularmente perverso condenar outras nações através de petições litúrgicas especiais da Igreja, elevando os membros da Igreja Ortodoxa e suas culturas como espiritualmente santificadas em comparação com os “heterodoxos” seculares e carnais.

 

5. “Eu quero a misericórdia e não o sacrifício. Porque eu não vim para chamar justos, e sim pecadores” (Mateus 9, 13)

 

Afirmamos que Cristo nos chama a exercer a caridade pessoal e comunitária para com os pobres, famintos, sem-teto, refugiados, migrantes, doentes e sofredores, buscando justiça para os perseguidos, aflitos e necessitados. Se recusarmos o chamado do nosso próximo; de fato, se em vez disso batemos e roubamos, e deixamos nosso próximo sofrer e morrer à beira do caminho (Parábola do Bom Samaritano, Lucas 10, 25-37), então não estamos no amor de Cristo no caminho para o Reino de Deus, mas nos tornamos inimigos de Cristo e de sua Igreja. Somos chamados não apenas a orar pela paz, mas a nos levantarmos ativa e profeticamente e condenar a injustiça, para fazer a paz mesmo ao custo de nossas vidas. “Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus” (Mateus 5, 9). Oferecer o sacrifício da liturgia e da oração enquanto se recusa a agir sacrificialmente constitui um sacrifício à condenação em desacordo com o que é oferecido em Cristo (Mateus 5, 22-26 e 1 Coríntios 11, 27-32).

 

Portanto, condenamos como não-ortodoxos e rejeitamos qualquer promoção de “quietismo” espiritual entre os fiéis e o clero da Igreja, desde o mais alto Patriarca até o mais humilde leigo. Repreendemos aqueles que oram pela paz enquanto falham em fazer a paz ativamente, seja por medo ou falta de fé.

 

6. “Se vocês guardarem a minha palavra, vocês de fato serão meus discípulos; 32 conhecerão a verdade, e a verdade libertará vocês” (João 8, 31-32)

 

Afirmamos que Jesus chama seus discípulos não apenas para conhecer a verdade, mas para falar a verdade: “Diga apenas ‘sim’, quando é ‘sim’; e ‘não’, quando é ‘não’. O que você disser além disso, vem do Maligno” (Mateus 5, 37). Uma invasão em larga escala de um país vizinho pela segunda maior potência militar do mundo não é apenas uma “operação militar especial”, “eventos” ou “conflito” ou qualquer outro eufemismo escolhido para negar a realidade da situação. Na verdade, trata-se de uma invasão militar em grande escala que já resultou em inúmeras mortes de civis e militares, a violenta ruptura da vida de mais de quarenta e quatro milhões de pessoas e o deslocamento e exílio de mais de dois milhões de pessoas (como de 13 de março de 2022). Esta verdade deve ser dita, por mais dolorosa que seja.

Portanto, condenamos como não-ortodoxos e rejeitamos qualquer ensinamento ou ação que se recuse a falar a verdade, ou suprima ativamente a verdade sobre os males perpetrados contra o Evangelho de Cristo na Ucrânia. Condenamos totalmente toda conversa de “guerra fratricida”, “repetição do pecado de Caim, que matou seu próprio irmão por inveja” se não reconhecer explicitamente a intenção assassina e a culpa de uma parte sobre a outra (Apocalipse 3, 15- 16).

 

Declaramos que as verdades que afirmamos e os erros que condenamos como não-ortodoxos e rejeitados estão fundamentados no Evangelho de Jesus Cristo e na Santa Tradição da fé cristã ortodoxa. Chamamos todos os que aceitam esta declaração a estarem atentos a esses princípios teológicos em suas decisões na política da igreja. Suplicamos a todos a quem esta declaração diz respeito que retornem à “unidade do Espírito pelo vínculo da paz” (Efésios 4, 3).

 

Domingo da Ortodoxia, 13 de março de 2022.

 

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