Presidente da Conferências das Igrejas Europeias - CEC - pede a Kirill para condenar a invasão

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14 Março 2022

 

O reverendo Christian Krieger está convencido que as Igrejas e comunidades cristãs da Europa deveriam falar abertamente e desafiar o Patriarcado de Moscou para se afirmarem contra a invasão russa à Ucrânia.

 

“A ideologia perseguida pelo presidente russo é totalmente refletida em algumas declarações do Patriarca Kirill”, diz Krieger, um teólogo reformado francês de 58 anos.

 

Reverendo Christian Krieger (Foto: Claude TRUONG-NGOC | Wikimedia Commons)

 

“Eu queria relembrar (o patriarca) que a identidade cristã está além das nossas identidades culturais e nacionais”, diz ele.

 

Krieger foi eleito em 2018 presidente da Conferência das Igrejas Europeias (CEC), uma organização que emergiu nos anos 1940 e 1950 depois da Segunda Guerra Mundial.

 

A organização inclui muitas das 114 igrejas ortodoxas, protestantes e anglicanas de todos os países do Velho Continente.

 

Nesta entrevista, ele diz que os europeus de toda a Europa têm o dever de orar e de trabalhar pela paz neste momento.

 

A entrevista é de Xavier Le Normand, publicada por La Croix, 10-03-2022. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

Eis a entrevista.

 

Como o ecumenismo contribui para a paz?

 

A Conferência das Igrejas Europeias foi criada em 1959 e visa promover o ecumenismo e a paz no continente europeu. Nasceu das ruínas de uma Europa devastada pelas duas guerras mundiais.

Na época, as pessoas se perguntavam como a barbárie das trincheiras e o horror dos nazistas poderiam ter sido cometidos por países que, embora não fossem cristãos, pelo menos eram majoritariamente cristãos.

A história nos mostra que o ecumenismo é uma das condições para a paz: ser Igreja com outras Igrejas, que também são reconhecidas como expressões da Igreja de Jesus Cristo.

Isso nos permite nutrir nossa própria oração, teologia e fé. Também nos permite perceber como as identidades religiosas, culturais e nacionais se sobrepõem.

Pode nos ajudar a vê-los em seu devido lugar. Somos então mais capazes de compartilhar um ethos de paz e reconciliação.

Do ponto de vista da fé, acredito que esse mecanismo de reconhecimento da diferença do outro permite uma melhor capacidade de viver o Evangelho.

 

Hoje, estamos em meio a um conflito...

 

Sim, e esta guerra é inquietante, abala um certo número de nossas certezas. É muito complicado que certas Igrejas ou certos círculos eclesiais se posicionem.

Isso levanta a séria questão de uma guerra justa: é justificável usar a violência para responder à violência?

Esta pergunta dirige-se diretamente a nós, uma vez que o envio de armas para a Ucrânia também contribui para a violência e, portanto, a reforça.

Os ativistas da ação não-violenta estão se perguntando como comunicar essas convicções.

Sem ter uma resposta, acredito que devemos conviver com essas questões. Ninguém pode falar de paz hoje sem a sombra do conflito pairando sobre eles.

 

Você escreveu ao Patriarca Ortodoxo de Moscou, Kirill, pedindo-lhe que “reconheça a agressão, exorte os líderes políticos de seu país a acabar com a guerra e retomar o caminho do diálogo diplomático e da ordem internacional”. Por que você tomou essa iniciativa?

 

Queria convidá-lo a tomar uma posição clara diante de uma agressão que jamais imaginaria ser possível hoje. Tenho a sensação de que o Patriarcado de Moscou vive um isolamento igual ao isolamento daqueles que fazem a guerra.

A ideologia perseguida pelo presidente russo está plenamente refletida em algumas declarações do Patriarca Kirill.

Ser Igreja com outras Igrejas – ou seja, fazer parte de uma relação ecumênica – permite abreviar esse tipo de autocompreensão.

Diante do risco de isolamento, e até de fragmentação, quis lembrá-lo de que a identidade cristã está além de nossas identidades nacionais e culturais.

Como Conferência, também devemos ter uma certa atividade política e me parece que era nossa missão desafiar o patriarcado diante desse conflito que abala muitas certezas.

O movimento ecumênico pode exigir uma voz cristã ampla e representativa e pode lançar um desafio que deve ter certo peso.

Acredito que o movimento ecumênico deve desempenhar esse papel.

 

Em vista das recentes declarações de Kirill, que parecem legitimar a agressão russa, você não teme que seus esforços sejam inúteis?

 

Acredito que o patriarcado é desafiado por muitos de seus próprios nacionais, especialmente na diáspora, mas também pelo metropolita Onofre de Kiev, primaz da Igreja Ortodoxa Ucraniana que está ligada a Moscou.

Além disso, acredito que a posição do patriarcado será seriamente questionada na próxima assembleia do Conselho Mundial de Igrejas, agendada para Karlsruhe (Alemanha) no final do verão.

Às vezes você tem que correr o risco de que uma ação seja em vão. No Evangelho de Lucas, Cristo diz que “se estes se calarem, as pedras falarão” (19, 40).

Devemos agir com nossas convicções.

Temos o dever de falar, a Igreja não pode ficar calada diante de tal agressão.

Ao dever de orar acrescenta-se o dever de fazer perguntas. Além disso, ao mesmo tempo em que fazemos justiça na situação atual, já devemos nos preparar para o futuro.

Em tempo de guerra, devemos nos preparar para o tempo de paz.

Devemos ter cuidado para não demonizar toda a Rússia e todos os russos. Devemos começar a nos perguntar o que queremos escrever como história para o período pós-conflito.

 

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