Arcebispo de Chicago vê a “ética coerente da vida” ensaiando um retorno

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03 Julho 2015

Dom Blase Cupich não estará recebendo o Papa Francisco em sua arquidiocese quando este vier aos Estados Unidos em setembro. No entanto, a mais alta autoridade católica de Chicago talvez se veja sob os holofotes, já que muitos o consideram como o “principal amigo do papa nos Estados Unidos”.

A entrevista é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 01-07-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Este é, no entanto, um papel que Cupich tem pouco interesse em desempenhar.

“Eu não vejo responsabilidade alguma de minha parte em ser uma espécie de termômetro ou ponto de referência”, disse ele na quarta-feira. “Vou ser quem eu sou (...) Não acho que o Santo Padre quer que eu abra caminho para ele nos Estados Unidos”.

Cupich esteva em Roma esta semana para receber o Pálio, um pano de lã que simboliza o cargo de arcebispo. Francisco conferiu este paramento a 46 novos arcebispos de todo o mundo, incluindo Cupich, de 66 anos, nomeado para Chicago em setembro passado.

Embora Cupich não aspire ser um símbolo americano da era Francisco, ele não obstante encarna o ethos político e teológico moderado, mostrando-se em particular preocupado com a justiça social e os pobres, temas imediatamente associados com o atual pontífice.

A esse respeito, muitos associam esta postura de Cupich ao legado do falecido cardeal de Chicago Joseph Bernardin, famoso por ter defendido uma “ética coerente da vida”. Bernardin via a oposição católica ao aborto, à pena de morte e à guerra como parte de uma única defesa pela vida.

Esta ideia vem sendo criticada por alguns devido ao fato de parecer diluir o foco sobre o aborto e outras preocupações pró-vida. Mesmo assim, Cupich diz que a abordagem de Bernardin está ensaiando um retorno.

“Hoje, as pessoas estão mais antenadas para a ética coerente da vida, defendida pelo Cardeal Bernardin, do que durante o tempo em que ele viveu”, disse. “E nós estamos vivendo os resultados daqueles anos”.

Em outros momentos da entrevista, Cupich falou também sobre:

• o seu recente comunicado a respeito da decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos em favor do casamento gay, em que ele deliberadamente combinou a sua crítica com um apoio ao programa Obamacare;
• a carta encíclica do Papa Francisco sobre o meio ambiente, chamada Laudato Si’;
• as recentes renúncias de três bispos americanos relacionados com a forma como lidaram em casos de abuso sexual em suas jurisdições;
• a sua esperança de que os Estados Unidos se tornem mais engajados nos desafios globais, como a crise na Ucrânia e a perseguição contra os cristãos;
• e a visita do Papa Francisco aos Estados Unidos, em setembro, e por que é importante que ele inicie sua visita indo, antes, a Cuba.

A entrevista com Cupich ocorreu no Pontifício Colégio Norte-Americano de Roma. 

Eis a entrevista.

O que o Pálio significa para o senhor?

No começo, ele significava a ligação que tenho com a Sé de Pedro e a capacidade, de alguma forma, de assumir o ministério de unidade dentro da Igreja. Esta é claramente a tarefa do Santo Padre, e isso me coloca numa relação única com ele nesse sentido.

O que me impressionou quando aqui cheguei, no entanto, foi o encontro com os outros arcebispos. Acho que, no todo, éramos 46. Havia prelados vindos Malta, da Malásia, da América do Sul e Central, da África e da Europa.

Ficou claro para mim que a Igreja é realmente universal, e por isso tenho uma ligação não somente com o Santo Padre, mas com eles também. Isso realmente me pareceu importante, ficando claro que servimos de apoio uns aos outros.

Porque o senhor foi a primeira importante nomeação do Papa Francisco nos Estados Unidos, muitas pessoas acabam o considerando como o “principal amigo do papa nos Estados Unidos”. Isso influencia em sua maneira de agir?

De modo nenhum. Penso que todos estamos em união com o papa; acho que esta unidade é algo com que os demais bispos se preocupam também. Eu não vejo responsabilidade alguma de minha parte em ser uma espécie de termômetro ou ponto de referência. Vou ser quem eu sou e tenho dito isso desde o início.

No começo, as pessoas não me comparavam ao papa, mas ao Cardeal Francis George, e isso é uma comparação meio inadequada…

Importa-se de nos dizer qual a comparação que o senhor acha mais assustadora: com o Cardeal George ou com o Papa Francisco?

Acho que vou evitar as duas comparações... Como já dito, esta é outra razão por que a Igreja se põe contra a clonagem!

Nos 40 anos que trabalhei como sacerdote e nos 17 anos que servi como bispo sempre fui eu mesmo, e acho que, no geral, isso tem dado certo. As pessoas percebem a autenticidade ou a falta dela, especialmente as crianças. Eu não gosto muito [de ser considerado a pessoa próxima do papa nos EUA], e não acho que o Santo Padre iria querer que eu abra caminho para ele nos Estados Unidos. Houve um processo, conselhos foram dados, e como sempre é o caso com estas nomeações: é o Santo Padre quem toma a decisão final. Não acho que minha nomeação deva ser muito valorizada...

O senhor está ciente de que, quando faz ou diz alguma coisa, as pessoas podem pensar que não é apenas Dom Blase Cupich quem aí está, mas também o melhor amigo do papa nos EUA?

É claro que eu entendo que algumas pessoas pensem nesses termos, mas eu não deixo estas coisas me influenciar. Não irei reagir a isso, de modo algum... Não é meu ponto de referência e nem a maneira como eu trabalho.

Vejamos por exemplo a declaração que fiz sobre as últimas decisões da Suprema Corte. O meu público não era o grupo que poderia estar olhando para mim como um ponto de referência. O meu público eram os sacerdotes, religiosos, fiéis e o povo em geral da Arquidiocese de Chicago. Dirigi minhas observações às pessoas a quem sirvo, e acho que é isso mesmo o que tenho de fazer.

De fato, tento ser cuidadoso no que digo. Lembro do documento da Santa Sé, de alguns anos atrás, que falava sobre o problema dos abusos sexuais e que também incluía algo sobre a ordenação de mulheres. Acho que foi você mesmo [John L. Allen Jr.] que escreveu que eu fiz do limão uma limonada, porque tive a oportunidade de formular a ideia segundo a qual aquele documento realmente falava sobre os valores fundamentais que temos e que foi por isso que todos testes assuntos estavam nele incluídos.

Tento procurar maneiras por onde as pessoas possam ver as conexões entre vários pontos que, às vezes, estão perdidos. É por isso que o meu comunicado sobre as decisões da Suprema Corte foi escrito do jeito que foi, não só sobre a redefinição do casamento, mas também envolvendo a questão da saúde. Eu quis ajudar as pessoas a ver que, sim, temos certas objeções à forma como a legislação foi redigida e à sua execução, mas que também temos uma posição de apoio na questão da assistência à saúde.

O mesmo acontece com a outra decisão da Suprema Corte: sim, temos uma posição referente à definição de casamento, mas aqui se trata de casamento civil – e não do matrimônio sacramental.
Eu tento falar de tal forma que permita que as pessoas vejam as conexões que elas, de outro modo, não perceberiam.

Por falar em conexões que as pessoas podem não perceber, vamos tocar na encíclica do Papa Francisco. É sua opinião que as pessoas leram toda a encíclica, ou apenas se focaram em partes específicas dela?

Quando analiso as reações de algumas das pessoas que questionam este documento, me pergunto se elas realmente leram todo o texto publicado.

Tenho incentivado os adultos a lerem a Laudato Si’ com os seus filhos, aqueles que estão no ensino médio ou na faculdade. Acho que há uma sensibilidade nessa faixa etária para com os problemas tratados na encíclica que, talvez, os pais não possuem, especialmente no que diz respeito à “cultura do descarte” e do desperdício. Existe um deserto espiritual na vida moderna e temos que preenchê-lo com aquilo que é mais recente, não importa quais sejam as consequências, ou que só nos sentiremos satisfeitos adquirindo as coisas imediatamente. Eu ouço os jovens falarem sobre isso o tempo todo, sobre como eles se sentem presos pelo ataque violento de novos produtos para preencher suas próprias vidas espirituais.

Digo que, quando as pessoas tiverem inquietações com este documento, elas devem lê-lo com alguém de uma faixa etária diferente. Creio que terão uma opinião diferente sobre os assuntos nele tratados.

Esta encíclica combina algumas preocupações de paz e justiça com questões pró-vida. Na Igreja americana, essas questões são frequentemente assumidas por diferentes grupos que, às vezes, não se relacionam bem uns com os outros. O senhor acha que a encíclica poderá ajudar a mudar isso?

Sim, mas acho que se olharmos para as encíclicas de Bento XVI, veremos que ele se esforçou – e muito – para fazer o mesmo em Deus Caritas Est.

Com resultados diferentes?

Sim. Por outro lado, é preciso um tempo para que todas estas ideias sejam assimiladas pelas pessoas em suas maneiras de pensar. Um mestre tem que ser paciente. Algumas pessoas compreendem certas coisas num primeiro momento; na verdade, isso acontece com a maioria. É preciso buscar novas formas de dizer o mesmo.

Vejamos o ensinamento que temos com respeito à pena de morte. Os bispos em Nebraska fizeram um grande trabalho em falar com as pessoas. Havia uma população que, em sua maioria, era contra [a abolição da pena capital], mas os legisladores foram unidos e agora a pena de morte não mais existe neste estado. Não acho que isso teria acontecido sem o envolvimento da Igreja e a educação constante das pessoas, especialmente os jovens.

Recentemente, alguém me disse que Cristo opera em décadas, não apenas em anos ou momentos. Vemos mudanças, transformações ao longo de décadas. Sou sacerdote há 40 anos, e não consigo acreditar nas mudanças que vejo nas pessoas e em várias questões sociais. As pessoas estão fazendo as conexões.

Eu diria o seguinte: hoje, as pessoas estão mais antenadas para a ética coerente da vida, defendida pelo Cardeal Bernardin, do que durante o tempo em que ele viveu. E nós vivendo vendo os resultados daqueles anos.

O senhor presidiu a Comissão para a Tutela das Crianças e Adolescentes, da Conferência Episcopal americana. Recentemente, vimos dois bispos americanos renunciarem, em parte, pelo menos, por causa da forma como lidaram em casos de abusos sexuais nas suas dioceses: Robert Finn (de Kansas City-St. Joseph) e John Nienstedt (de St. Paul-Minneapolis). Ainda que dolorosas, estas renúncias foram importantes gestos no sentido de uma responsabilização?

Primeiro de tudo, não devemos ter estes desenvolvimentos apenas para demonstrar “gestos”. Acho que isso seria um erro. Existem aspectos internos nessas situações, que não são conhecidos por nós, em termos de como eles se desenvolveram.

Eu acho que precisa haver um sistema coerente, claro, público de responsabilização. Fiquei feliz que o papa criou um sistema para a responsabilização. Em 2002, os bispos [dos EUA] adotaram um capítulo final em seu estatuto relativo à responsabilização mútua, porém deixamos a desejar em nossa capacidade do implementá-lo. Sim, nós temos uma correção fraterna, podemos falar uns com os outros... Posso dizer que há trocas que nós fazemos questão de ter. No entanto, até então não havia nenhum dispositivo com o qual poderíamos responsabilizar alguém de forma verdadeira. O movimento do Santo Padre, criando um tribunal para isso, torna a responsabilização possível. Essa é mudança importante.

Quanto a estas situações em particular [Finn e Nienstedt], espero que não sejam apenas “gestos”.

O mundo as considerou como exemplos de responsabilização. Isso é uma coisa positiva?

Sim. No entanto, estes dois casos são muito diferentes. Não quero me esquecer do bispo auxiliar de St. Paul-Minneapolis, Dom Lee Piché, pois ele renunciou também. Havia três pessoas envolvidas aqui, o que é de partir o coração. Estas pessoas têm famílias, possuem amigos que se preocupam com elas e que as apoiaram. Todos esses três homens entraram para o ministério, para o sacerdócio, querendo servir a Igreja. Quero que as pessoas vejam o longo trajeto de vida desses homens.

O senhor há pouco esteve na Ucrânia. Quais são as suas impressões sobre a situação local?

A questão é que temos um país onde as fronteiras eram definidas e aceitas tanto pela Rússia quanto pela Ucrânia, mas que agora se evaporaram. Temos também uma população jovem desanimada, pessoas que nutriam esperanças por um futuro melhor, mas que, agora, essas esperanças foram frustradas. Os jovens estão sofrendo, inclusive entre os refugiados. Visitamos um dos campos de refugiados.

Esta é uma situação política. Será que um país tem o direito de ter suas próprias fronteiras respeitadas pelo resto da família humana?

Uma das minhas preocupações é que, nos Estados Unidos, nós não temos dado a devida atenção a esta questão. As pessoas deveriam ir a estes campos e ver onde os refugiados se encontram.

Deveriam ir aos hospitais militares. Conhecemos um jovem cujo braço teve de ser amputado. Ele não conseguia entrar nos Estados Unidos para obter uma prótese, então Dom Joseph Kurtz [de Louisville, presidente da Conferência dos Bispos Católicos dos EUA] conversou com o embaixador e, daí, pudemos obter o visto para ele. Essa é apenas uma das muitas e muitas circunstâncias.

Acho que a Igreja precisa levantar a sua voz nestas questões que têm a ver com justiça social em escala global.

Os católicos gregos na Ucrânia expressaram o descontentamento para aquilo que muitos consideram uma postura demais suave por parte do Vaticano em relação à Rússia?

Eles me disseram que tiveram a oportunidade de falar à Santa Sé sobre as suas preocupações e que foram bem-recebidos aí. Eles sabem que a Santa Sé está acompanhando esta situação e que o Santo Padre é alguém que deixa as pessoas ficarem sabendo de suas próprias preocupações, como eu sei que ele fez recentemente em seu encontro com [o presidente russo, Vladimir] Putin.

O que ouvi foi que os ucranianos são muito gratos pelo apoio que a Igreja está lhes dando em todo o mundo, e também em relação à interação deles com a Santa Sé.

Há pouco voltei do Egito, onde falei com cristãos que sofreram perseguição. Será que as vítimas cristãs da perseguição deveriam ser uma preocupação central da Igreja nos Estados Unidos?

Sem dúvida. Basta lembrar que quando o Papa João Paulo II enviou o Cardeal Pio Laghi para se encontrar com o presidente George W. Bush [em 2003, antes da invasão do Iraque], ele indicou que a guerra civil aconteceria, que a perseguição aos cristãos teria lugar e que as minorias iriam sofrer. Ele também disse que nós iríamos saber como entrar, mas não como sair [da guerra]. Ele estava certo, e desde então tem havido muitas baixas.

Precisamos nos voltar a este assunto para vermos como as coisas se desenvolveram. Sim, existe o Estado Islâmico, existe a Al-Qaeda e outras forças, mas elas não estão operando em um vácuo. Houve decisões na política dos EUA que contribuíram.

Esta semana, o Vaticano anunciou a agenda do papa para a sua viagem aos Estados Unidos em setembro. Alguma surpresa?

Fiquei tomado pelo fato de que ele escolheu vir aos Estados Unidos a partir de Cuba. Não acho que isso deva passar despercebido. Creio que há uma mensagem aqui, pelo menos, e que ela fale da importância dos Estados Unidos como um país de imigrantes. De certa forma, o papa está vindo como um imigrante, lembrando-nos de nossa herança.

O Santo Padre faz mais com suas ações do que com palavras. Eu procurei por um fio condutor nestes movimentos, e o encontrei, evidentemente, no Encontro Mundial das Famílias. Acho que ele está buscando – com a encíclica sobre a ecologia, com o discurso nas Nações Unidas e com o discurso ao Congresso – um jeito de criar uma melhor percepção no nosso país de que somos não só uma nação composta por famílias, mas também de como nos encaixamos na família de nações.

Eu acho que há algo aí que vai servir como fio condutor das inúmeras visitas que ele fará adiante. Ele não tinha que ir a Cuba desta vez (...) Ele poderia ter ido quando estivesse no Equador [a ser visitado na próxima semana]. O Papa Francisco escolheu combinar sua visita aos EUA com uma ida, antes, a Cuba, e eu acho que isso é algo significativo.

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