Na esteira da decisão pelo casamento homoafetivo tomada pela Suprema Corte americana, alguns bispos pedem calma

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01 Julho 2015

A reação de alguns bispos para com a decisão, tomada sexta-feira pela Suprema Corte dos EUA – que afirma que os estados não podem proibir o casamento homoafetivo –, foi rápida, com o principal representante do episcopado chamando-a de um “erro trágico” e com o principal assessor americano do papa, o Cardeal Sean O’Malley, escrevendo que estava “havia ficado entristecido” com a notícia.

A reportagem é de Michael O’Loughlin, publicada por Crux, 29-06-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Porém, alguns outros prelados americanos escolheram um caminho diferente, fazendo declarações nuançadas nas primeiras horas após a decisão e que sustentam o ensinamento da Igreja sobre o casamento, mas ainda assim convidando os católicos a refletirem profundamente sobre a decisão.

Em Roma numa reunião com o Papa Francisco, Dom Blase Cupich, da Arquidiocese de Chicago, exortou os católicos a darem uma recepção “de verdade” à comunidade LGBT na sequência da decisão da Suprema Corte que derrubou as proibições estaduais relativas ao casamento homoafetivo, ao mesmo tempo reiterando que a posição da Igreja sobre o matrimônio sacramental é aquele entre um homem e uma mulher.

Cupich, escolhido a dedo por Francisco no ano passado para conduzir a terceira maior arquidiocese do país, destacou uma parte frequentemente citada do Catecismo que diz que gays e lésbicas “devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza. Evitar-se-á, em relação a eles, qualquer sinal de discriminação injusta”.

Ele, porém, desafiou os católicos a irem mais longe.

“Esse respeito deve ser real, não retórico, e sempre refletir o compromisso da Igreja no acompanhamento de todas as pessoas”, disse ele em um comunicado divulgado no domingo (28).

“Por este motivo, a Igreja deve estender o seu apoio a todas as famílias, independentemente de suas circunstâncias, reconhecendo que somos todos parentes, caminhando nesta vida sob o olhar atento de um Deus amoroso”.

“As rápidas mudanças sociais sinalizadas pela decisão da Suprema Corte nos convidam para uma reflexão madura e serena à medida que avançamos juntos”, disse Cupich no comunicado. “Nesse processo, a Igreja Católica irá estar a postos para oferecer uma sabedoria enraizada na fé e numa ampla gama de experiências humanas”.

Cupich disse também que a Igreja “agarrar-se-á uma compreensão autêntica do casamento, que foi inscrita no coração do homem, consolidada na história e confirmada pela Palavra de Deus”. Observou ainda que a decisão da Corte “não tem nenhuma influência sobre o Sacramento do Matrimônio católico, em que o casamento entre homem e mulher é um sinal da união de Cristo e da Igreja”.

Cupich, prelado moderado entre a hierarquia americana, também elogiou a decisão da Suprema Corte em confirmar o programa Obamacare.

“Temos problemas com o disposto na lei que regulamenta este programa e continuaremos defendendo a preservação da nossa liberdade religiosa”, escreveu ele. “No entanto, entendemos que para milhões de indivíduos e famílias, a maioria deles sendo composta de trabalhadores pobres, tal decisão preserva o acesso aos cuidados de saúde e à promessa que ele [o Obamacare] oferece de uma vida mais saudável, mais duradoura”.

O comunicado de Cupich parece distanciá-lo da crítica mais contundente contra a decisão da Suprema Corte americana conduzida pelo presidente da Conferência dos Bispos Católicos dos EUA – USCCB.

O presidente da Conferência, Dom Joseph Kurtz (da Arquidiocese de Louisville), em um comunicado divulgado sexta-feira chamou a decisão de “profundamente imoral e injusta” além de um “erro trágico”. Um punhado de outros bispos católicos reagiram de forma semelhante na semana passada.

O Cardeal de Boston, Sean O’Malley – um dos principais assessores do Papa Francisco –, ecoou as palavras de Kurtz.

“Certamente todos os cidadãos desta terra, independentemente da sua orientação sexual, merecem ser respeitados em sua vida pessoal e civil”, disse ele. “Mas acolher o casamento homoafetivo em nosso sistema constitucional de governança tem perigos que podem ficar evidentes com o passar do tempo”.

Cupich não está sozinho ao pedir por moderação, no entanto.

Dom Wilton Gregory, arcebispo de Atlanta e ex-presidente da USCCB, divulgou um comunicado sexta-feira observando que a forma como a Igreja compreende o casamento “une, com beleza, um homem e uma mulher em uma união amorosa, permanente no compromisso e aberta à bênção divina à vida nova preciosa”.

No entanto, Gregory advertiu aqueles que não gostaram da decisão da Suprema Corte a se absterem de “uma linguagem mais venenosa ou de um comportamento vil contra aqueles cujas opiniões continuam a divergir da nossa”. Disse que a decisão “confere um direito civil para algumas pessoas que não podiam reivindicá-lo antes”, mas afirmou que “ela [a decisão] não resolve o debate moral que a precedeu e que, com certeza, continuará em seu rastro”.

Gregory escreveu que a decisão da Suprema Corte torna o seu trabalho “mais complexo, uma vez que exige que eu continue defendendo os ensinamentos em minha Igreja sobre o Sacramento do Matrimônio enquanto, ao mesmo tempo, exige que eu insista no respeito pela dignidade humana, tanto para os que aprovam o julgamento bem como os que podem não o aprovam”.

Dom Robert McElroy, da Diocese de San Diego, disse em um comunicado que a Igreja “continuará a honrar e incorporar a singularidade do casamento entre um homem e uma mulher como um dom de Deus”, mas “vai fazê-lo de forma que respeite profundamente, em todos os momentos, as relações amorosas e familiares que enriquecem as vidas de tantos homens e mulheres gays que são nossos filhos e filhas, nossos irmãos e irmãs e, finalmente, nossos companheiros peregrinos nesta jornada da vida”.

O Papa Francisco, que se reuniu com Cupich na sexta-feira em Roma, tem dito repetidas vezes que o casamento deve ser uma união entre um homem e uma mulher, mas mesmo assim é visto pelos católicos progressistas como sendo mais hospitaleiro para com os gays e lésbicas em comparação aos papas anteriores.

Em outubro, os bispos de todo o mundo irão se reunir para a segunda parte do Sínodo dos Bispos sobre a família, que deverá incluir uma discussão sobre o acompanhamento pastoral aos católicos LGBTs.

Cupich foi eleito pela Conferência dos Bispos Católicos dos EUA – USCCB para ser um dos delegados substitutos para o Sínodo dos Bispos entre os prelados americanos, embora alguns católicos se perguntam se Francisco irá nomeá-lo como um de seus delegados especiais.

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