As irmãs falaram, e Dom Sartain escutou

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20 Maio 2015

Quando as 25 líderes da maior organização de irmãs católicas americanas se reuniram pela primeira vez com Dom J. Peter Sartain, da Arquidiocese de Seattle, em 2012, depois de o Vaticano nomeá-lo para conduzir uma reformulação do grupo, elas esperavam um conflito.

A reportagem é de Laurie Goodstein, publicada pelo jornal The New York Times, 15-05-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Estas irmãs ficaram magoadas e confusas quando o Vaticano as acusou, meses antes, de estarem se afastando dos ensinamentos católicos e promoverem “temas feministas radicais incompatíveis com a fé católica”. E, para muitos católicos, a nomeação de Dom Sartain e de dois outros bispos equivaleu a uma tomada de controle hostil.

“Tudo era muito recente”, disse a Irmã Carol Zinn, ex-presidente da Conferência de Liderança das Religiosas – LCWR, que representa cerca de 80% das religiosas deste país. “As nossas coordenadoras diziam para ele: ‘O que devemos falar às nossas irmãs, Dom Sartain, o que dizer para elas?’”

Mas, em vez de dar uma palestra às religiosas – mulheres que dedicam suas vidas ao ensino, à assistência médica, à pesquisa e à justiça social – Dom Sartain as escutou. “Isso continuou pelos dois anos seguintes”, disse Zinn, o que ajudou a chegar onde se chegou: no mês passado, elas ficaram surpresas ao se verem em uma reunião cordial no Vaticano com um Papa Francisco sorridente, falando com ele por quase uma hora sobre a vida religiosa e o chamado para o cuidado aos pobres e sofredores.

A caminhada destas religiosas, de um estatuto de pária a uma acolhida papal, durou três anos e foi finalizada a portas fechadas. Apensar de um apoio maciço às irmãs e do imenso interesse por parte da imprensa, as líderes religiosas concordaram, desde o início com os bispos supervisores, que não falariam aos jornalistas sobre as conversas que estavam sendo travadas.

Mesmo depois de o processo ter sido terminado de forma abrupta no mês passado com um relatório final conjunto, as irmãs e os bispos decidiram manter um silêncio de 30 dias. Porém, agora com este intervalo terminado, três líderes da LCWR e um dos bispos relataram, em entrevistas, o caminho – às vezes doloroso – até a reconciliação.

Os bispos passaram muitas horas escutando as irmãs, inteirando-se da acusação de que elas haviam sido desleais com a Igreja à qual haviam devotado suas vidas. As irmãs garantiram aos bispos que alguns dos oradores provocativos, que a LCWR havia convidado para as suas assembleias anuais, não falavam em nome de toda a organização.

“Aprendemos muito sobre o poder e o potencial do diálogo respeitoso e honesto”, disse a Irmã Sharon Holland, atual presidente da organização religiosa em uma entrevista conjunta, por telefone, ao lado de duas outras líderes.

Nenhum arquivo revirado, nenhum funcionário/a foi demitido e nenhuma mudança grande foi feita aos trabalhos realizados pela LCWR, segundo as entrevistadas. O Vaticano e as irmãs chegaram a uma resolução dois anos antes do previsto – o Vaticano havia dado um prazo de cinco anos para que o processo fosse realizado.

Uma investigação iniciada sob o Papa Bento XVI chegou a um final precoce sob Francisco, porém os envolvidos hesitaram em fazer comparações entre estes pontífices. Disseram que o processo todo ocorreu surpreendentemente bem, porque ambas as partes partilham de uma devoção à Igreja; e porque as autoridades em Roma viram que a mão pesada do Vaticano estava causando um alvoroço entre os católicos, prejudicando a imagem da Igreja.

“A impressão que tenho era a de que todos os envolvidos, desde o papa, passando pelas autoridades da Congregação para a Doutrina da Fé, os bispos e as irmãs, queriam ver esta situação resolvida o mais rapidamente possível”, disse Dom Thomas J. Paprocki, um dos três bispos escolhidos pelo Vaticano para supervisionar a LCWR. “Estávamos nos tratando como companheiros cristãos, e ninguém gostava da ideia de que o mundo exterior nos via como adversários”.

Esta aparência de “adversários” estabeleceu-se com a “avaliação doutrinal” feita à LCWR, publicada em abril de 2012 pela Congregação para a Doutrina da Fé.

Este processo acusava a LCWR de estar questionando os ensinamentos católicos sobre o sacerdócio masculino e a homossexualidade, bem como de permitir que oradores, em suas assembleias anuais, fizessem discursos contendo “graves erros teológicos e mesmo doutrinais”.

Nos programas da LCWR, detectaram-se “certos temas feministas radicais incompatíveis com a fé católica” e se disse que o grupo era um promotor ardente da justiça social, mas também que se “silenciava” quando o assunto era o aborto ou a eutanásia. O que aparentemente fez soar os alarmes no departamento doutrinal vaticano foi uma fala feita por uma irmã que disse sobre “ir além da Igreja” e mesmo de Jesus – o que, segundo a avaliação do Vaticano, era uma “fonte grave de escândalos”.

Mas as líderes das irmãs detectaram um raio de esperança na primeira reunião delas em Roma, junto a Dom Sartain. Elas lhe disseram: “Nós estaremos trabalhando juntos”.

“Ele não veio até nós com um processo já pensado, nem recebeu um processo a seguir dado pela CDF”, disse a Irmã Carol Zinn, ex-presidente da organização. “O único critério para ele era que construíssemos uma relação e tivéssemos diálogos respeitosos de forma mútua”.

Dom Sartain declinou os pedidos de entrevista feitos por nós. Greg Magnoni, um porta-voz da Arquidiocese de Seattle, disse: “Ele prefere falar diretamente com as irmãs sobre este assunto”.

Na assembleia da LCWR de agosto de 2012, depois de a avaliação vaticana ter sido iniciada, centenas de irmãs, reunidas em mesas-redondas em um hotel na cidade de St. Louis, debateram e rezaram sobre qual o curso de ações elas deviam tomar. Algumas propuseram publicamente não cooperar. Outras propuseram virar uma entidade independente do Vaticano.

Em vez disso, decidiram instruir suas líderes a “preservar a integridade da Conferência de Liderança, porém entrado no diálogo”, disse a Irmã Holland, que esteve na assembleia mas que não era ainda a presidente da organização.

“Precisamos de muita coragem”, disse a Irmã Marcia Allen, hoje a presidente eleita da LCWR, “para travarmos diálogos contínuos e pacientes junto à CDF e seus representantes”.

As irmãs disseram que Dom Sartain pediu que lhe fornecessem as leituras e os documentos relacionados às instruções do Vaticano dadas a elas na sequência do Concílio Vaticano II, que pedia às ordens religiosas para modernizarem as suas missões e finalidades e envolverem-se mais com o mundo. Ele queria melhor entender esta história, já que não é membro de uma ordem religiosa.

As conversas se centraram na doutrina, falou Dom Paprocki: “Havia a percepção de que as irmãs estavam abandonando a identidade cristã, mas elas nos garantiram que isto não era verdade”.

Depois de aproximadamente um ano e meio de escuta paciente (“E realmente foi necessário ter paciência”, disse Paprocki), os bispos e as irmãs formaram subcomissões para reescrever o estatuto da LCWR. Muito ajudou, disse ele, o fato de se ter incluído aqui a Irmã Sharon Holland, canonista que trabalhou muitos anos no Vaticano. Os bispos intencionalmente recorreram a uma canonista mulher, afirmou o prelado, “de forma que não tivéssemos somente as irmãs falando a um grupo de homens”.

O estatuto reescrito, que tem cerca de 10 páginas, esclarece que a Conferência de Liderança das Religiosas – LCWR é “uma entidade oficial estabelecida pela Santa Sé sob o Direito Canônico”, disse ele, uma entidade “centrada em Jesus Cristo e nos ensinamentos da Igreja”. O grupo, porém, não se tornou menos independente ou responsável para tratar dos seus próprios assuntos do que antes de o processo ter começado. O Vaticano aprovou o novo estatuto.

“Será que tudo isso poderia ter sido feito de forma menos dolorosa?”, disse Paprocki quando perguntado se considerava desnecessário tudo o que se passou. “Talvez. Somos todos humanos”.

A Irmã Carol Zinn disse que não fazia ideia se Francisco interveio diretamente na avaliação doutrinal e em seus resultados, mas que quando foram chamadas para a reunião com o pontífice, ele – membro da ordem dos jesuítas – cumprimentou-as como um irmão que cumprimenta suas irmãs.

“Para mim, essa foi a grande surpresa. Tivemos uma conversa”, disse a Irmã Marcia Allen. “Foi uma troca de preocupações e ideias. Eu estava preparada para que ele falasse a nós. Mas o papa estava interessado no que nós estávamos pensando”.

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