"Morrer é penetrar no coração do universo onde todas as teias de relação encontram o seu nó de origem e de sustentação". Entrevista especial com Leonardo Boff

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Por: João Vitor Santos | 02 Novembro 2016

“A morte é um acabar de nascer. Como dizia José Marti: ‘morrer é fechar os olhos para ver melhor’, ver Deus e as realidades bem-aventuradas que desde sempre nos preparou”. É assim que o teólogo Leonardo Boff apresenta seu entendimento sobre a morte. “A vida se estrutura dentro de duas linhas: numa, a vida começa a nascer e vai nascendo ao longo do tempo até acabar de nascer. É o momento da morte. Na outra, a vida começa a morrer, pois lentamente o capital vital vai se consumindo ao longo da vida até acabar de morrer”, explica. Nessa sua perspectiva, está incrustado o conceito de ressurreição. “No cruzamento das duas linhas se dá a passagem para outro nível de vida que os cristãos chamam de ressurreição: a vida que chega, na morte, à plena realização de suas potencialidades”.

Assim, o teólogo se propõe a olhar a experiência do Cristo para ampliar o entendimento sobre a morte. “Como todos os humanos, ele temeu a morte porque amava esta vida”, pontua. “Mas Jesus superou o momento da desesperança. Triunfou uma entrega serena ao Mistério sem nome”, completa, ao lembrar que a resposta a entrega foi a ressurreição. O teólogo ainda recupera a história de São Francisco de Assis para falar da cosmologia da morte. Lembra que o frei não toma a morte como algo sinistro, “mas uma irmã que nos conduz ao nosso destino derradeiro”. Para Francisco, “morrer é entrar também em comunhão com a Mãe Terra”. Foi, segundo Boff, por isso que ele pediu que o colocassem nu sobre a terra, num “arquetípico de uma profunda comunhão coma irmã e Mãe Terra”.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, Boff ainda lembra como a atual vida moderna, presa ao material, tende a entender a morte como perda, uma desgraça. O que, para ele, é uma perspectiva reducionista diante da potência de vida que há na humanidade. Por isso, provoca: “precisamos é acolher a morte como parte da vida. Não como uma desgraça, mas como a passagem alquímica para outro estágio do mistério da vida”.


Leonardo Boff no IHU, em 2012
Foto: Acervo IHU

Leonardo Boff é teólogo. Sobre o tema da morte, escreveu dois livros publicados pela Editora Vozes: Vida para além da morte (1973) e A ressurreição de Cristo - a nossa ressurreição na morte (1974), além de artigos para congressos de médicos e psicanalistas. Durante 22 anos, foi professor de Teologia Sistemática no Instituto Franciscano de Petrópolis e, posteriormente, professor de Ética e de Ecologia Filosófica na Universidade do Rio de Janeiro. Sua bibliografia é composta por mais de 100 livros que tratam de temas ligados à mística, espiritualidade, filosofia, ética e ecologia.

A entrevista é publicada na revista IHU On-Line desta semana, sob o título "A passagem pela clínica de Deus", disponível aqui.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – A morte pode ser entendida como um fim da vida?

Leonardo Boff - Não considero a morte como o fim da vida. Morrer é um acabar de nascer. A vida vai para além da morte. Por isso meu livro sobre o tema não se intitula: “Vida depois da morte”, mas “Vida para além da morte”. A vida se estrutura dentro de duas linhas: numa, a vida começa a nascer e vai nascendo ao longo do tempo até acabar de nascer. É o momento da morte. Na outra, a vida começa a morrer, pois lentamente o capital vital vai se consumindo ao longo da vida até acabar de morrer.

No cruzamento das duas linhas se dá a passagem para outro nível de vida que os cristãos chamam de ressurreição: a vida que chega, na morte, à plena realização de suas potencialidades, ao irromper para dentro de Deus. Mas não de qualquer jeito, pois somos imperfeitos. Passaremos pela clínica de Deus na qual amadureceremos até chegar à nossa plenitude. É o juízo purificador. Outros chamam de purgatório. Em todos os casos não vivemos para morrer, como diziam os existencialistas. Morremos para ressuscitar, para viver mais e melhor.

IHU On-Line - Como podemos relacionar morte e juízo final? Em que medida esse temor ao juízo se transforma no medo da morte, limitando uma compreensão mais ampla?

Leonardo Boff - Para a pessoa que morre, o mundo se acabou. Deixou-o para trás. Começa outro tipo de mundo. Depois do tempo vem a eternidade. Mas entre um e outro há o juízo, não medido pelo tempo do relógio, sempre igual, mas pelo tempo existencial, próprio de cada pessoa. Por esse juízo nos é concedida a oportunidade de uma visão global de nossa vida, dentro da corrente da vida universal e de nosso lugar dentro do universo.

Nessa cisão entre o tempo e a eternidade se cria a oportunidade de uma “de-cisão” derradeira, uma adesão ao projeto de Deus sobre nossa existência. Creio que será sempre positiva, tal é a intensidade da visão de amor e de atração da divina realidade. A pessoa pode custar em desfazer-se de laços desordenados que não o alinhavam na lógica global do universo e de Deus. Mas o fará, pois fomos criados para sermos companheiros do infinito Amor. Morrer é voltar à casa a qual sempre pertencemos e que, depois de um penoso caminhar, chegaremos felizes a ela.

IHU On-Line - Como o conceito de morte pode nos evocar comunhão? E como compreender o conceito de ressurreição a partir da morte?

Ressurreição comporta a realização de todas as potencialidades escondidas dentro de cada pessoa

Leonardo Boff - Morrer é penetrar no coração do universo, onde todas as coisas são um, quer dizer, onde todas as teias de relação, que constituem a realidade universal, encontram o seu nó de origem e de sustentação. É a possibilidade de comunhão de tudo com tudo e a identificação de nosso lugar e de nossa importância para o todo e no todo. Nós mesmos nos tornamos cósmicos. Esse é o conceito teológico de ressurreição. Não se trata da reanimação de um cadáver como o de Lázaro [1] que, no final, acabou novamente morrendo. Trata-se da superação da morte e do ter que morrer.

Ressurreição comporta a realização de todas as potencialidades escondidas dentro de cada pessoa. Somos um projeto infinito, somos seres feitos de utopias e de sonhos. Agora eles podem vir à tona e conhecer uma ridente e plena concretização. Aí surge aquilo que São Paulo [2] diz ao se referir, na Epístola aos Coríntios, à ressurreição de Jesus: é irrupção do “novissimus Adam”, do ser novo, que recém acabou de nascer. Ele é o primeiro entre muitos irmãos e irmãs. Conosco acontecerá o mesmo, cada um conforme a sua identidade que é singular e única. Mas todos ressuscitaremos, pois essa é a mensagem derradeira da ressurreição de Jesus. Não é apenas algo que ocorreu somente com ele. É o Messias que ressuscita. E ele não ressuscita com sua comunidade. E a comunidade é a humana e também cósmica.

IHU On-Line - O que a história do Cristo ensina e inspira a pensar sobre a morte?

Leonardo Boff - Jesus morreu não porque todos morrem. Ele foi sentenciado e condenado à morte. A morte lhe foi imposta. A forma como ele acolheu a morte nos é inspiradora. Como todos os humanos, ele temeu a morte porque amava esta vida e seus amigos e amigas com quem compartilhava uma comunidade de destino. Mas como diz a Epístola aos Hebreus, “Jesus dirigiu preces e súplicas entre clamores e lágrimas àquele que o podia salvar da morte” (5,8). O texto continua dizendo “e foi atendido por sua piedade”. Exegetas de renome como Bultmann [3] e Harnack [4] afirmam que aqui havia um “não” (ouk): “e não foi atendido embora fosse Filho de Deus” (5, 8). Isso é coerente com a história real de Jesus. Ele não foi libertado, ao contrário, sofreu a execução.

A mesma angústia face à morte mostrou no jardim das Oliveiras: “Pai, afasta de mim este cálice”. O texto diz que suou sangue. Médicos afirmam que condenados à morte, diante do pavor, suam sangue. Mas a maior expressão, de quase desespero, manifestou no alto da cruz, clamando em sua língua materna conservada na versão de São Marcos: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste (Mc 15, 34)?” E o texto termina de uma forma aterradora: “Dando um imenso grito, Jesus expirou” (Mc 15,37).

Superação da desesperança

Mas Jesus superou o momento da desesperança. Triunfou uma entrega serena ao Mistério sem nome, embora sempre o chamasse na linguagem da ternura infantil de Abba, “meu querido paizinho”: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito”. A resposta desta entrega confiante, para além de toda a tentação, foi a sua ressurreição. O Pai o ressuscitou inaugurando uma nova humanidade, finalmente, redimida.

Qual a lição? Temeu a morte como todos a temem. Bebeu o cálice do temor e do pavor até ao fundo. Gritou ao céu. Mas, por fim, resignado e livre, acolheu o desígnio misterioso do Pai, aceitando a morte. Bem diz no evangelho de João. “Ninguém me tira a vida, eu a dou por mim mesmo”. Essa doação e entrega pode nos inspirar. A morte pertence à vida e devemos integrá-la. Nós não sucumbimos à morte, mas nos transfiguramos através da morte, como foi o caso de Jesus. Em outras palavras: a palavra derradeira pronunciada por Deus sobre o nosso destino não é a morte, mas a vida em plenitude, a vida ressuscitada.

IHU On-Line - Como a experiência de São Francisco [5] pode nos inspirar a pensar sobre a morte? Em que medida é possível afirmar que essa experiência atualiza a do próprio Cristo?

São Francisco viveu uma experiência singular da morte

Leonardo Boff - São Francisco viveu uma experiência singular da morte. Como se havia reconciliado com todas as coisas, chamando-as com o doce nome de irmãos e irmãs, o mesmo fez com a morte. Ela é irmã que nos leva para a Casa do Pai. Não é uma figura sinistra que nos vem arrebatar a vida. Mas uma irmã que nos conduz ao nosso destino derradeiro. Morrer é ir ao encontro do Pai, sem medo, pois Ele é pura bondade, misericórdia e amor. Morrer é cair em seus braços para o abraço infinito da paz e do amor.

Em São Francisco não há angústia como notamos em Jesus, pois seguramente tinha diante dos olhos o fato da ressurreição. Há acolhida e total entrega. Morrer é entrar também em comunhão com a Mãe Terra. Pediu que o desnudassem e o colocassem, nu, sobre a terra. Isso é arquetípico de uma profunda comunhão coma irmã e Mãe Terra que ele cantou no “Cântico ao Irmão Sol” [6]. Somos Terra, dela viemos e para ela vamos, entregando o corpo que ela nos deu.

Talvez, a única semelhança seja a total e serena entrega ao Pai, no supremo momento, como finalmente e depois de muita luta, o fez Jesus. Por isso que os franciscanos, guardando a tradição de São Francisco, sempre que um frade falece, fazem festa na comunidade, com comes e bebes, pois celebram a entrada do confrade no Reino da Trindade.

IHU On-Line - No seu livro Vida para além da morte (Petrópolis: Vozes, 1973), evocas uma perspectiva de que o purgatório pode se constituir na terra, em vida, a partir das dores e sofrimentos a que se é submetido. Gostaria que o senhor recuperasse essa ideia e refletisse como essa perspectiva pode contribuir para dissociar a ideia de morte e dor.

Leonardo Boff - A categoria “purgatório” é tardia na reflexão teológica. Como Jacques Le Goff [7] o mostrou, ela surgiu no mundo medieval no contexto das hierarquias da nobreza e das correspondentes ofensas que podem ocorrer contra elas. Para cada ofensa, o seu merecido castigo. O purgatório foi incorporado à teologia, a partir de algumas referências de Santo Agostinho [8], que insinuava o fato de que não se pode chegar a Deus imperfeitos. Temos que nos aperfeiçoar para sermos adequados ao mundo da absoluta perfeição divina na eternidade. O purgatório cumpriria essa função de purgação.

A tendência da moderna teologia ecumênica é dispensar o purgatório como construção teológica e não mais como doutrina oficial. A vida, vivida com virtudes, superando dificuldades e padecimentos, mas principalmente, vivendo amor e a compaixão fazem com que vamos nos purificando. A grande purificação viria no momento do juízo que se dá entre o fim do tempo e o começo da eternidade. No juízo nos damos conta de nossos benfeitos e malfeitos, de qual foi o nosso projeto fundamental. Somos colocados diante de Deus-amor e bondade e de nossa missão no desígnio do Mistério dentro da história e do próprio universo. É o momento de fazermos um ato de amor e de total entrega a Deus. Alguns o farão com dificuldades, dada a sua adesão a um tipo de vida que não se alinhava ao propósito do Criador. Mas face a tanta bondade, amor e misericórdia do Deus-Trindade, nos rendemos em arrependimento e ação de graças. Sairemos purificados.

E então participaremos do mundo para o qual fomos destinados desde toda a eternidade. Bem disse o Papa Francisco: para Deus não há condenação eterna. Há misericórdia. Seguramente se revelará a justiça no juízo. Mas passamos pelo juízo e, transfigurados, gozaremos e cantaremos, cantaremos e celebraremos, celebraremos e comungaremos a vida infinita, terna e eterna do Deus-comunhão-de-divinas Pessoas.

IHU On-Line - Muitas pessoas que se anunciam católicos – e por vezes até professam sua fé no catolicismo – acabam buscando referência em outras religiões quando confrontadas pela experiência da morte. Como compreender esses movimentos? Em que medida isso revela os limites do catolicismo na construção que faz da morte?

Um dos maiores reducionismos da encarnação da fé cristã na cultura greco-latina foi praticamente o abandono da mensagem revolucionária da ressurreição

Leonardo Boff - A teologia oficial que entrou nos catecismos é mais devedora da cosmovisão grega do que da leitura cristã da vida e da morte. Ainda se manejam os conceitos antropologicamente pobres de corpo e alma ao invés de captar o ser humano como o faz a visão originária e bíblica: o ser humano em suas várias situações. Um dos maiores reducionismos da encarnação da fé cristã na cultura greco-latina foi praticamente o abandono da mensagem revolucionária da ressurreição. Ela ficou como uma espécie de milagre para mostrar que Jesus era Deus, quando na verdade, mostrava a verdadeira leitura cristã sobre o destino humano, chamado à transfiguração.

Em seu lugar entrou o tema fácil de origem platônica, da imortalidade da alma, entregando o corpo ao pó da terra. A ressurreição ficou algo para o fim do mundo. Como não sabemos quando ele acontecerá, o tema ressurreição perdeu relevância existencial. Graças a Deus que a moderna teologia ecumênica resgatou a centralidade da ressurreição e permitiu uma nova leitura do destino final do ser humano. Ressuscitaremos no fim do mundo, vale dizer, no momento em que para cada um o mundo acabou e se inicia a eternidade. Quer dizer, ressuscitaremos na morte. Vamos inteiros com toda nossa realidade, purificada pelo juízo, ao seio do Pai e Mãe de infinita bondade.

Entretanto, essa ressurreição não é completa. Nem a de Jesus. Apenas o núcleo pessoal ressuscitou. Enquanto nossa Casa Comum, o inteiro universo também não participa da ressurreição, vivemos uma ressurreição ainda por completar. No final, tudo será transfigurado. Será como o corpo da Trindade.

IHU On-Line - Em que medida a morte, numa perspectiva escatológica [9], pode suscitar uma reflexão sobre a esperança cristã?

Não morremos, nos transfiguramos

Leonardo Boff - Se entendermos a escatologia não como algo que acontece no termo da história, mas como a presença antecipada dos bens do Reino, como o perdão, a graça e, especialmente, a ressurreição, podemos nos encher de alegria e desafogo existencial. Morrer é atender a um chamado de Deus. E vamos felizes ao encontro dele. Na passagem se dá a nossa transfiguração. Não morremos, nos transfiguramos. Nietzsche [10] comentava que os cristãos andam tão tristes como se não tivesse havido redenção nem tivesse eclodido a ressurreição. Temos mil razões para vivermos felizes e serenos, mesmo dentro das maiores dificuldades, pois o fim é bom e significa a plenificação de todos os nossos sonhos e desejos, a irradiação total da vida.

IHU On-Line - Quais caminhos são necessários percorrer para dissociar a ideia de morte da ideia de perda – de alguém – e associar a ideia de integração com o todo da criação, quase que como uma perspectiva cosmológica de povos originais?

Leonardo Boff - O que precisamos é acolher a morte como parte da vida. Não como uma desgraça, mas como a passagem alquímica para outro estágio do mistério da vida. Os mortos não são ausentes. São apenas invisíveis. E podem ser invocados e senti-los como companheiros em nossa caminhada. É o conteúdo concreto do que está no Credo [11]: “creio na comunhão dos santos”. Isso não tem nada a ver com os santos e santas que estão nos altares. Mas tem a ver com todos os que estão em Deus, onde cremos que estarão nossos entes queridos. Ficamos tristes com a partida. Mas podemos ficar alegres com a chegada deles na suprema felicidade.

IHU On-Line - Em que medida a lógica desses nossos tempos nos levam a falar da morte de uma maneira exterior a nós mesmos? Quais as implicações dessa perspectiva?

Leonardo Boff – Para os modernos, vítimas da cultura materialista e consumista do capital, a morte significa a maior desgraça. Pois para a maioria tudo acaba no pó cósmico. Então não vale a pena fazer qualquer sacrifício em função de uma vida que vai para além da morte. Tudo se realiza aqui. Esta visão é pequena e não corresponde aos impulsos do coração, aos sonhos que nos habitam, de querer vida e mais vida, e a eternidade da vida. Por isso existe nos países ricos como nos Estados Unidos todo um disfarce da morte, uma indústria de preparação dos cadáveres para que pareçam vivos e sejam colocados até de pé. Estimo que esta visão é pobre demais para se adequar com aquilo que de fato ocorre em nossa interioridade, em nossos anelos mais profundos. Ela é contra vida, pois a vida chama à vida e não à morte. Por isso devemos sempre defendê-la em sua dignidade, a partir daqueles condenados a ter menos vida. Estes serão os primeiros a herdar a vida no Reino da Trindade.

Notas: 

[1] O entrevistado se refere ao texto de João 11. (Nota da IHU On-Line)

[2] Paulo de Tarso (3–66 d.C.): nascido em Tarso, na Cilícia, hoje Turquia, era originariamente chamado de Saulo. Entretanto, é mais conhecido como São Paulo, o Apóstolo. É considerado por muitos cristãos como o mais importante discípulo de Jesus e, depois de Jesus, a figura mais importante no desenvolvimento do Cristianismo nascente. Paulo de Tarso é um apóstolo diferente dos demais. Primeiro porque, ao contrário dos outros, Paulo não conheceu Jesus pessoalmente. Antes de sua conversão, se dedicava à perseguição dos primeiros discípulos de Jesus na região de Jerusalém. Em uma dessas missões, quando se dirigia a Damasco, teve uma visão de Jesus envolto numa grande luz e ficou cego. A visão foi recuperada após três dias por Ananias, que o batizou como cristão. A partir deste encontro, Paulo começou a pregar o Cristianismo. Ele era um homem culto, frequentou uma escola em Jerusalém, fez carreira no Templo (era fariseu), onde foi sacerdote. Era educado em duas culturas: a grega e a judaica. Paulo fez muito pela difusão do Cristianismo entre os gentios e é considerado uma das principais fontes da doutrina da Igreja. As suas Epístolas formam uma seção fundamental do Novo Testamento. Afirma-se que ele foi quem verdadeiramente transformou o cristianismo numa nova religião, superando a anterior condição de seita do Judaísmo. A IHU On-Line 175, de 10-04-2006, dedicou sua capa ao tema Paulo de Tarso e a contemporaneidade, assim como a edição 286, de 22-12-2008, Paulo de Tarso: a sua relevância atual. Também são dedicadas ao religioso a edição 32 dos Cadernos IHU em formação, Paulo de Tarso desafia a Igreja de hoje a um novo sentido de realidade, e a edição 55 dos Cadernos Teologia Pública, São Paulo contra as mulheres? Afirmação e declínio da mulher cristã no século I. (Nota da IHU On-Line)

[3] Rudolf Karl Bultmann (1884 —1976): foi um teólogo alemão. Em 1912 começou a trabalhar como docente na área de Bíblia - Novo Testamento em Marburg; em 1916, tornou-se professor em Breslau; em 1920 foi para Giessen e, em 1921, transferiu-se para Marburg, onde viveu e trabalhou até o final de sua vida. Ocupou-se com muitos temas da teologia, filologia e arqueologia. Levantou questões importantes que dominaram a discussão teológica do século passado e são relevantes até hoje, como, por exemplo, o problema da demitologização. (Nota da IHU On-Line)

[4] Adolf von Harnack (1851-1930): teólogo alemão, além de historiador do cristianismo. Suas duas obras mais conhecidas são o Lehrbuch der Dogmengeschichte ("Manual de história do dogma", em três volumes) e a série de palestras Das Wesen des Christentums ("A essência do cristianismo"), texto clássico da teologia liberal. Harnack recebeu diversas condecorações, entre outros, em 1902 a Ordem Pour le Mérite para as Ciências e as Artes, da qual foi chanceler de 1920 até a sua morte em 1930. (Nota da IHU On-Line)

[5] São Francisco de Assis (1181-1226): frade católico, fundador da "Ordem dos Frades Menores", mais conhecidos como Franciscanos. Foi canonizado em 1228 pela Igreja Católica. Por seu apreço à natureza, é mundialmente conhecido como o santo patrono dos animais e do meio ambiente. Sobre Francisco de Assis confira a edição 238 da IHU On-Line, de 01-10-2007, intitulada Francisco. O santo, e a entrevista com a medievalista italiana Chiara Frugoni, intitulada Uma outra face de São Francisco de Assis, na revista IHU On-Line número 469, de 03-08-2015. (Nota da IHU On-Line)

[6] Cântico das Criaturas (em italiano: Cantico delle creature; em latim: Laudes Creaturarum), também conhecido como Cântico do Irmão Sol, é uma canção religiosa cristã composta por Francisco de Assis. Escrita no dialeto úmbrio do italiano, acredita-se que esteja entre as primeiras obras escritas no idioma. Ao contrário de outras canções religiosas da época, o Cântico das Criaturas é quase infantil na maneira em que louva Deus agradecendo-o por criações como o "Irmão Fogo" e a "Irmã Água". A letra é uma afirmação da teologia pessoal de Francisco de Assis. Ele frequentemente se referia aos animais como irmãos e irmãs da Humanidade, rejeitava qualquer tipo de acúmulo material e confortos sensuais, em troca da "Senhora Pobreza". Francisco teria composto a maior parte do cântico no fim de 1224, enquanto se recuperava de uma doença em San Damiano, em uma pequena cabana construída para ele por Clara de Assis e outras mulheres pertencentes à sua ordem. De acordo com a tradição, ela teria sido cantada pela primeira vez por São Francisco e pelos irmãos Angelo e Leo, dois de seus companheiros originais, no leito de morte de Francisco, com o verso final que louva a "Irmã Morte" tendo sido acrescentado apenas alguns minutos anteriormente. (Nota da IHU On-Line)

[7] Jacques Le Goff (1924): medievalista francês, formado em história e membro da Escola dos Annales. Presidente, de 1972 a 1977, da VI Seção da École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), foi diretor de pesquisa no grupo de antropologia histórica do Ocidente medieval dessa mesma instituição. Entre outras altas distinções, Le Goff recebeu a medalha de ouro do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), pela primeira vez atribuída a um historiador. Boa parte de sua obra está ao alcance do leitor brasileiro, como por exemplo, Para um novo conceito de Idade Média: tempo, trabalho e cultura no Ocidente (Lisboa: Estampa, 1980); Mercadores e banqueiros da Idade Média (Lisboa: Gradiva, 1982); e A civilização no Ocidente Medieval (Lisboa: Estampa, 1984). Le Goff concedeu a entrevista Roma, alimento e paralisia da Idade Média à edição 198 da revista IHU On-Line, de 02-10-2006. (Nota da IHU On-Line)

[8] Santo Agostinho (Aurélio Agostinho, 354-430): bispo, escritor, teólogo, filósofo, foi uma das figuras mais importantes no desenvolvimento do cristianismo no Ocidente. Ele foi influenciado pelo neoplatonismo de Plotino e criou os conceitos de pecado original e guerra justa. (Nota da IHU On-Line)

[9] Escatologia (do grego antigo εσχατος, "último", mais o sufixo -logia): parte da teologia e filosofia que trata dos últimos eventos na história do mundo ou do destino final do gênero humano, comumente denominado como fim do mundo. Em muitas religiões, o fim do mundo é um evento futuro profetizado no texto sagrado ou no folclore. De forma ampla, escatologia costuma relacionar-se com conceitos tais como Messias ou Era Messiânica, a pós-vida, e a alma. (Nota da IHU On-Line)

[10] Friedrich Nietzsche (1844-1900): filósofo alemão, conhecido por seus conceitos além-do-homem, transvaloração dos valores, niilismo, vontade de poder e eterno retorno. Entre suas obras figuram como as mais importantes Assim falou Zaratustra (9. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998), O anticristo (Lisboa: Guimarães, 1916) e A genealogia da moral (5. ed. São Paulo: Centauro, 2004). Escreveu até 1888, quando foi acometido por um colapso nervoso que nunca o abandonou até o dia de sua morte. A Nietzsche foi dedicado o tema de capa da edição número 127 da IHU On-Line, de 13-12-2004, intitulado Nietzsche: filósofo do martelo e do crepúsculo. A edição 15 dos Cadernos IHU em formação é intitulada O pensamento de Friedrich Nietzsche. Confira, também, a entrevista concedida por Ernildo Stein à edição 328 da revista IHU On-Line, de 10-05-2010, intitulada O biologismo radical de Nietzsche não pode ser minimizado, na qual discute ideias de sua conferência A crítica de Heidegger ao biologismo de Nietzsche e a questão da biopolítica, parte integrante do Ciclo de Estudos Filosofias da diferença — Pré-evento do XI Simpósio Internacional IHU: O (des)governo biopolítico da vida humana. Na edição 330 da revista IHU On-Line, de 24-05-2010, leia a entrevista Nietzsche, o pensamento trágico e a afirmação da totalidade da existência, concedida pelo Prof. Dr. Oswaldo Giacoia. Na edição 388, de 09-04-2012, leia a entrevista O amor fati como resposta à tirania do sentido, com Danilo Bilate. (Nota da IHU On-Line)

[11] Credo: é uma fórmula doutrinária ou profissão de fé cristã. Chama-se às vezes um Símbolo. (Nota da IHU On-Line)

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