A ressurreição. Uma certeza ou uma esperança?

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Por: André | 08 Novembro 2013

A ressurreição não é, como supõem os saduceus, um retorno ao passado. Pelo contrário, é a entrada em uma outra vida. Ressuscitar não é voltar a ser como antes, é voltar a ser como depois. Não é tornar-se outro, é tornar-se outramente. Mas atenção! Não são apenas os saduceus do tempo de Jesus que pensam dessa maneira. Seu raciocínio é o de muitos cristãos de hoje, que imaginam o além como aqui e que se representam a vida após a vida a partir dos conceitos materiais que correspondem à sua realidade e que eles transportam para o além, para o céu.

A reflexão é de Raymond Gravel, padre da Diocese de Joliette, Canadá, e publicada no sítio Réflexions de Raymond Gravel, comentando as leituras do 32º Domingo do Tempo Comum – Ciclo C do Ano Litúrgico (10 de novembro de 2013). A tradução é de André Langer.

Referência bíblica:
Evangelho: Lc 20,27-38

Eis o texto.

Estamos nos aproximando do final do ano litúrgico. Nós acompanhamos Jesus na sua subida para Jerusalém a partir do Evangelho de Lucas. Eis que hoje o Jesus do Evangelho de Lucas afirma que o nosso Deus não é o Deus dos mortos, mas dos vivos (Lc 20,38). Nós somos prometidos, portanto, não à morte, mas à Vida e esta Vida já começou. Isso deveria transparecer em nossos rostos de cristãos e de cristãs; nós devemos viver já em ressurreição. Nietzsche dizia: “Eu acreditarei nos cristãos no dia em que eles tiverem semblantes de ressuscitados”.

1. O que é a Ressurreição?

Muitas pessoas, hoje, mesmo entre os cristãos, não acreditam na Ressurreição. Para alguns, a morte é o fim de tudo e a Ressurreição é apenas a resposta à recusa de morrer e o reflexo de uma ignorância persistente que se opõe à realidade científica. Outros, mesmo entre os cristãos, acreditam na reencarnação, isto é, nas sucessivas vidas que permitem às almas se purificarem, emprestando sucessivos corpos, até a divinização. Pessoalmente, acredito na Ressurreição e sei que a minha fé não é fruto da minha ignorância e que ela não se opõe à ciência. É evidente que a minha fé não é uma certeza, e é melhor que seja assim, porque os crentes seguros de si mesmos, são, muitas vezes, integristas e extremistas que impõem sua religião a todo o mundo... O que é contrário ao Deus de Jesus Cristo.

Bernanos dizia que sua fé estava cheia de dúvidas: “24 horas de dúvidas, menos 1 minuto de esperança”. Mas que esperança! Uma esperança a toda prova, dizia Doris Lussier: “Eu não digo: eu sei; eu digo: eu creio. Crer não é saber. Eu saberei quando verei, como os outros. Se eu tenho o saber... E, além disso, depois de tudo, como eu disse um dia a um amigo descrente: tu sabes, nossas respectivas opiniões sobre os mistérios do além não têm grande importância. No que nós acreditamos ou não, isso não muda absolutamente nada da verdade da realidade: o que é e..., e o que não é não é, um ponto, é tudo. E temos de conviver com isso”.

Por outro lado, se eu li bem o evangelho de hoje, me dou conta de que a Ressurreição não está na ordem da materialidade; ela não é, sobretudo, a reanimação de um cadáver que continua a viver como antes. E para provar isso, Jesus diz aos saduceus que tentam provar pelo absurdo a ideia da ressurreição, falando da lei judaica do levirato (Dt 25,5-6) que obriga o irmão de um morto a esposar a viúva desse para dar uma descendência ao seu irmão: “‘Mestre, Moisés escreveu para nós: Se alguém morrer, e deixar a esposa sem filhos, o irmão desse homem deve casar-se com a viúva, a fim de que possam ter filhos em nome do irmão que morreu. Ora, havia sete irmãos. O primeiro casou e morreu, sem ter filhos. Também o segundo e o terceiro casaram-se com a viúva. E assim os sete. Todos morreram sem deixar filhos. Por fim, morreu também a mulher. E agora? Na ressurreição, de quem a mulher vai ser esposa? Todos os sete se casaram com ela!’” (Lc 20,28-33).

Jesus denuncia esta concepção materialista da Ressurreição. Os saduceus não se dão conta de que sua maneira de abordar o problema supõe que Deus se serve do mesmo raciocínio que aqueles nos quais eles mesmos se trancaram. O exegeta francês Jean Debruynne escreve: “Eles querem fazer Deus entrar a qualquer preço em suas adições e subtrações. Mas a ressurreição não é, como supõem os saduceus, um retorno ao passado. Pelo contrário, é a entrada em uma outra vida. Ressuscitar não é voltar a ser como antes, é voltar a ser como depois. Não é tornar-se outro, é tornar-se outramente”.

Mas atenção! Não são apenas os saduceus do tempo de Jesus que pensam dessa maneira. Seu raciocínio é o de muitos cristãos de hoje, que imaginam o além como aqui e que se representam a vida após a vida a partir dos conceitos materiais que correspondem à sua realidade e que eles transportam para o além, para o céu. Quantas vezes, sem se dar conta, os cristãos emprestam a Deus os sentimentos que são os seus, os desejos que habitam neles, os pensamentos que os tranquilizam e os julgamentos que fazem a balança pesar a seu favor. A Ressurreição é certamente uma vantagem em relação ao que se vive aqui e agora, e o importante não é saber, mas crer e esperar. No limite, mesmo que não houvesse nada depois da morte, poderíamos continuar a crer e a esperar. É exatamente o que uma mulher jovem com câncer disse a um jornalista que lhe dizia: “Se não há nada após a morte, você acreditou por nada, inutilmente!”. Ela respondeu: “Se a fé meu ajudou a viver bem com o meu marido e os meus filhos, e se ela me ajuda a morrer bem, sem me revoltar, em que terei perdido meu tempo? Uma coisa é certa: eu não terei acreditado inutilmente!”.

2. Ressurreição pessoal e coletiva

Nós não estamos sozinhos na Terra; somos coletividade, comunidade, humanidade. A nossa vida nós a recebemos uns dos outros. Nós somos seres de relação, de comunicação, de comunhão. Estamos em relação com toda a humanidade. É por isso que a Ressurreição não é somente pessoal; ela também é coletiva. São Paulo, na primeira Carta aos Coríntios, dizia: “Ora, vocês são membros dele, cada um no seu lugar” (1 Cor 12,27). “Se um membro sofre, todos os membros participam do seu sofrimento; se um membro é honrado, todos os membros participam de sua alegria” (1 Cor 12,26). Em seu livro ‘Céu! Para onde vamos?’, André Myre escreve: “Nós fazemos parte uns dos outros, tanto para o bem como para o mal, para ser salvos ou para nos perdermos sozinhos. Se apenas um está perdido, então todos estão perdidos. Se um só é salvo, então todos são salvos. Ora, Cristo ressuscitou, portanto... Daí a grande serenidade dos primeiros cristãos. Eu contribuo para a salvação dos outros e eles para a minha”.

Portanto, como cristãos, somos responsáveis uns pelos outros. André Myre acrescenta: “Nada do que os outros fazem pode me deixar indiferente. Quando estoura uma guerra, é a minha ressurreição que está ameaçada. Quando eu mato uma pessoa, é a sua ressurreição que está ameaçada. Quando a igualdade entre os homens e as mulheres é afetada, é o corpo da humanidade ressuscitada que é rompido. Quando um povo se liberta ou a democracia progride, é a esperança da minha ressurreição que aumenta. Quando um santo se levanta entre nós, é a nossa salvação que se afirma”.

E o julgamento em tudo isso? É uma realidade importante que precisamos viver desde agora. Nossa humanidade é ferida pelas injustiças, pela opressão, pelas guerras. Nós devemos, pois, trabalhar para restabelecer a justiça e restaurar a paz, para que a Ressurreição ecloda no grande dia. Para chegar lá, precisamos reconhecer nossas falhas e repará-las, nossos erros e perdoá-los. Sem isso, a Ressurreição não pode ser plenamente alcançada. André Myre chama esse tempo de tomada de consciência, de arrependimento, de reparação e de perdão, o purgatório. Ele escreve: “O purgatório só faz sentido sobre o pano de fundo de um grande amor, por parte da grande humanidade reunida em um só corpo e tomando consciência de repente do grande amor de Deus por ela. O mal se pagará, mas o amor vencerá. Enfim.”

A solidão corresponde, na perspectiva da responsabilidade coletiva da Ressurreição, ao que é o inferno: “E o inferno?, escreve André Myre. Ele terá sido uma grande solidão, solidão dos idosos ou dos abandonados, solidão dos drogados, solidão dos políticos felizes por fazerem guerra, solidão dos financistas ou dos homens de negócios sozinhos na cúpula e sem vínculos com ninguém, solidão dos homens religiosos que condenam os outros, em nome de Deus. Há tanta solidão!” Mas o inferno, se realmente existe, não pode ser eterno: “Será possível que um ser humano decide excluir-se eternamente da humanidade? Talvez, se ele foi abandonado à sua solidão. Mas se Deus é Deus, como poderá não intervir? Afinal, essa será a felicidade de todos os outros. Quem já amou ou foi amado ou desejou ser amado jamais estará perdido”. Há matéria para reflexões!

Para terminar, podemos dizer com André Myre: “Morrer não é perder tudo, mas encontrar tudo”.

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