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21 Agosto 2015

Foram muitos os que se afastaram de Jesus, ao fim do seu discurso sobre o Pão da Vida. Pedro reconheceu ser ele somente que tem "palavras de Vida eterna", mas não estava ainda pronto para compreender e aceitar o modo de ser e de agir do Cristo.

A reflexão é de Marcel Domergue, sacerdote jesuíta francês, publicada no sítio Croire, comentando as leituras da Missa do 21º Domingo do Tempo Comum. A tradução é de Francisco O. Lara, João Bosco Lara, e José J. Lara.

Eis o texto.

Referências bíblicas:
1ª leitura: «Nós também serviremos ao Senhor, porque ele é o nosso Deus» (Josué 24,1-2.15-18)
Salmo: Sl. 33(34) - R/ Provai e vede quão suave é o Senhor!
2ª leitura: «Este mistério é grande, e eu o interpreto em relação a Cristo e à Igreja» (Efésios 5,21-32)
Evangelho: «A quem iremos Senhor? Tu tens palavras de vida eterna» (João 6,60-69)

O intolerável necessário

Lemos, hoje, a conclusão do capítulo 6 de João; para ser mais preciso, a conclusão dos discursos sobre o pão da vida e o dom da carne e do sangue. Este pão revela-se aqui como provação, do mesmo modo que o maná, tão presente em todo o capítulo (Êxodo 16,2-4). Os ouvintes dividem-se entre crentes e não crentes. É que a ideia de comer a carne de um homem e beber o seu sangue é intolerável (versículo 60), e não será tornando o texto mais suave que se retirará dele este escândalo. Para dizer a verdade, a frase do Salmo 14,4, «devoram o meu povo, como se comessem pão», verifica-se todos os dias. Os ricos vivem da miséria, da fome e da morte de uma multidão de homens, mulheres e crianças que o sistema econômico atual reduz ao desamparo no terceiro mundo e em todos os terceiros mundos dos países mais desenvolvidos. A antropofagia dissimulada, oculta, é generalizada. A carne e o sangue que os ricos arrancam da maior parte da humanidade, contra a vontade desta, Cristo nos veio dá-los voluntariamente. É inútil dizer que isto não resolve o problema dos que são vítimas, mas conclama-nos a entrar na lógica deste dom total. Deus não vem nos impor à força o amor, seria totalmente contraditório. Ele ergue aos nossos olhos a imagem desta via estreita que é a única que conduz à Vida. Devemos então, primeiro, tomar a carne e o sangue que Ele nos dá e, em seguida, fazer nosso o amor que comanda este dom.

Comer a carne, beber o sangue…

Assim como se haviam revoltado, quando Jesus lhes revelara a sua origem, dizendo de onde tinha vindo (João 6,41-42), assim também se revoltam agora os seus interlocutores, ao ser-lhes revelado para onde ele estava indo, ou seja, para o Pai, pela Paixão. Jesus lhes havia dito em substância: - Se para vocês é um choque que eu anuncie o dom da carne e do sangue, o que irão dizer, então, quando isto acontecer efetivamente? Quando virem o Filho do Homem subir para onde estava antes? Comentando um pouco mais: o dom da carne e do sangue é o que acontece sempre, em todos os momentos, desde o início. A cruz é a revelação disto, a hora em que os tempos se cumpriram. O que não impede a Jesus de dirigir-se aos ouvintes indignados por aquelas palavras surpreendentes. Acabara de fato de repetir que, para viver, é preciso comer a sua carne; agora lhes diz que «a carne não adianta nada.» É evidente que a palavra «carne», aqui, não tem mais o mesmo sentido. No momento anterior, aplicava-se ao Cristo enquanto um homem solidário com a natureza, portador da argila original (Gênesis 2,7); agora, a palavra assume o sentido negativo que tem em muitos textos: a incapacidade de aceder ao espírito. Quando Jesus diz que as suas palavras não são carne, mas espírito e vida, quer sem dúvida nos fazer compreender que não se trata de comer materialmente a sua carne, o seu corpo. Sabemos agora que isto é feito através de sinais. A carne que foi entregue não deve ser compreendida de modo carnal.

Ainda os dois discursos

Conforme João, Jesus ensina coisas semelhantes a partir de temas muito diferentes. Exemplo: em 15,1-8, Jesus explica longamente que, para viver, devemos permanecer nele e ele em nós. Ele é a vinha, nós os ramos; a seiva que vem dele (pensemos no sangue) deve nos alimentar. Esta interioridade recíproca (eu em vocês, vocês em mim) tem alguma coisa a ver com o ato de comer a carne e beber o sangue. Só pode ser compreendida se aceitamos o primeiro discurso que nos diz que o Cristo vem de Deus, é a presença de Deus. No entanto, isto não é suficiente: é preciso admitir ainda o dom da carne e do sangue. Olhemos de perto a resposta de Pedro, quando Jesus pergunta aos Doze se também eles querem abandoná-lo. «A quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna!» Pedro compreende que não há salvação possível se permanecemos fechados em nós mesmos: é preciso ir ao outro, ir até ao Outro. Ele fica então com Jesus. Pois bem, Pedro entendera somente o primeiro discurso, não o segundo. Da mesma forma que, em Cesareia de Filipe (Mateus 16,13-23), havia reconhecido a origem do Cristo, mas permanecera fechado ao futuro pascal. Não faz, ao menos, alusão nenhuma a isto. Na realidade, a recusa ou o esquecimento deste segundo discurso revela que ele não compreendeu nem admitiu totalmente o primeiro. Vai ser preciso esperar João 21 para que Pedro se dê ao Cristo sem nenhuma reserva. Neste tempo de espera, Jesus havia escolhido Pedro, mas Pedro não havia ainda, verdadeiramente, escolhido Jesus. Aí estamos todos nós.

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