''Não transformemos a morte em uma ficção''

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07 Novembro 2012

A morte, em uma sociedade caracterizada pela pretensão de prolongar ao infinito a juventude e, portanto, de alongar o tempo da sedução e da beleza, deixou de representar a natural e inevitável conclusão de um ciclo de vida. Questão que diz respeito a todos os seres humanos, sem exceção. Eu diria que nos nossos dias a morte é uma peça inaceitável com relação à própria dimensão narcisista".

A reportagem é de Paolo Conti e publicada no jornal Corriere della Sera, 02-11-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

No dia 2 de novembro, a Igreja Católica, há séculos, convida à recordação dos falecidos. Mas falar de morte na nossa contemporaneidade é difícil, quase impossível. Massimo Ammaniti, professor de psicopatologia da Universidade La Sapienza de Roma, apreciado ensaísta, explica isso muito bem.

O seu trabalho o leva a analisar as várias etapas de uma existência humana. E, por conseguinte, também a relação do indivíduo contemporâneo com o fim da vida, seja próprio, seja alheio: "Vivemos imersos no mito do sucesso, da riqueza, da beleza ao extremo. O tema da perda de quem nos é caro, da dor que se segue, torna-se matéria difícil de aceitar e, portanto, distante. Remonta aos anos 1950 o ensaio de Geoffrey Gorer, A pornografia da morte. Eu diria que hoje a situação piorou".

Para Ammaniti, enfrentar e dialogar com a morte é a única maneira para evitar que ela se torne um obstáculo insustentável: "Dou um exemplo, acredito, eloquente. Há muito tempo, trouxeram-me uma menina de seis anos como paciente. Ela não conseguia aprender nada. A sua mãe havia morrido quando ela tinha dois anos. Eu descobri que o pai e os avós, para evitar a dor, fizeram desaparecer todas as fotos e qualquer vestígio daquela mulher. Eu entendi facilmente que o bloqueio da menina derivava daquela amputação do eu: ela era incapaz de explorar o mundo pela falta da figura da mãe. Tudo isso também vale para os adultos".

Inevitavelmente Ammaniti recorre a outro exemplo relacionado com o Grande Pai da psicanálise, Sigmund Freud: "Quando o seu pai morreu, Freud notoriamente foi tomado por uma grande depressão. Mas esse parêntese também foi a oportunidade para um grande crescimento".

Dois exemplos que demonstram como é importante não afastar a morte, mas, ao invés, fazer com que ela entre novamente no leito da própria existência, da cotidianidade. Mas o famoso mito da Beleza Eterna, segundo Ammaniti, faz par com outro hábito que impede a elaboração da morte: "Assistimos a uma contínua espetacularização da morte. Não me refiro apenas à ficção televisiva ou do cinema, que mostra obsessivamente o fim cruel de seres humanos como um simples fato narrativo. Eu penso na ficção paralela de tantos funerais: há barulho, sucedem-se inúmeros discursos, aplaude-se, como se essa pessoa sem vida deva ser saudada como um divo a ser exaltado. Esse é um outro erro grave para quem fica".

O pensamento do professor dirige-se a um ensaio fundamental da antropologia italiana, Morte e pianto rituale nel mondo antico, do grande Ernesto de Martino: "Eu penso, como laico, no símbolo do Pranto de Maria sobre o corpo de Jesus. A morte requer silêncio, espaço para a dor, tempo para refletir sobre quem nos deixou e o 'que' nos deixou. Ao invés, hoje, e isso é ruim para quem fica, o indivíduo fica sozinho diante da ferida recebida pela separação de um ente querido. Antes, a coletividade o acolhia e, com o parêntese compartilhado do luto, a morte se transformava em outra coisa. Hoje, é muito difícil conseguir esse resultado: ou seja, fazer com que o morto se torne uma presença tranquilizadora interior nossa com a qual seja possível continuar dialogando. O meu amigo psicanalista Mauro Mancia explicava bem: cada um de nós tem a possibilidade de criar uma espécie de 'religião' íntima feita de laços internos com as pessoas que foram importantes. Vivas ou mortas".

Para sobreviver a uma morte, defende Ammaniti em conclusão, "é essencial não ocultá-la, não escondê-la, não mascará-la". Saber dialogar com o momento conclusivo da vida é essencial. Nem todos têm a força de um Ezra Pound. O ator Enrico Maria Salerno contava muitas vezes que havia se encontrado com ele em 1970 em Veneza e que lhe havia perguntado: "Mestre, como vai?". E Pound, em perfeito dialeto veneziano, referindo-se à morte: "Me sta sempre de drio ma non ghe do confidenza..." [Está sempre atrás de mim, mas eu não lhe dou confiança].

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