A Revolução 4.0 e a reedição das lógicas das revoluções burguesas. Entrevista especial com Gaudêncio Frigotto

Foto: Pixabay

Por: João Vitor Santos | 21 Outubro 2019

As revoluções burguesas que iniciam no século XVII e seguem até o século XIX varrem toda a Europa e trazem um novo regime sociopolítico mundial. Caem os reis absolutistas, mas sobram os burgueses liberais. E, se por um lado o Estado se organiza em torno da universalidade e da cidadania, com o tempo, percebe-se que esses avanços de fato não tocam a vida dos mais pobres. Para o professor Gaudêncio Frigotto, o momento que vivemos, da chamada Revolução 4.0, tem provocado uma espécie de atualização dessas desigualdades. “Trata-se de um processo contínuo de substituição na atividade produtiva do trabalho vivo (força física e mental dos trabalhadores) em trabalho morto (máquinas, computadores, robôs etc.). O que a história mostra é que aqueles capitalistas ou grupos que se valem de uma tecnologia que lhes permite, em menos tempo e com menos pessoal, produzir mais lhes dá vantagens na competição com os demais capitalistas”, analisa.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, o professor analisa como a Revolução 4.0 impacta o mundo do trabalho que, por sua vez, reverbera nos processos formativos e educacionais. “De modo crescente a tecnologia tem diminuído a atuação direta da força humana na produção, destruindo empregos e não repondo na mesma proporção e com os mesmos direitos. As novas tecnologias, cada vez mais concentradas em poucas corporações econômicas e financeiras ou por indivíduos na área de serviços, destroem e incorporam concorrentes aumentando a concentração e estabelecem uma concorrência entre os próprios trabalhadores, permitindo uma superexploração e expropriação de direitos já conquistados”, chama a atenção.

Assim, o campo da educação vai se moldando apenas para servir às lógicas do mercado. “Disto resulta a mudança do vocabulário pedagógico: não mais qualificação, mas competência; não mais emprego, mas empregabilidade; não mais qualidade, mas qualidade total. A culpa da exclusão, em última instância, passa a ser do trabalhador excluído”, detalha Frigotto. E acrescenta: “Esta realidade tem sido mais perversa em nossa sociedade onde a burguesia local nunca se preocupou em construir uma nação, investir em ciência básica e universalizar um ensino básico (fundamental e médio) de qualidade de onde emergem os jovens cientistas. O caminho escolhido por nossa burguesia foi da cópia e de não desenvolver âmbitos de conhecimento competitivos”.

Para ele, “o desafio é superar a fragmentação e a perspectiva de adaptar o processo educativo de forma unidimensional ao mercado”. “Talvez seja de ajudar os jovens, em especial filhos e filhas da classe trabalhadora do campo e da cidade, a perceberem pela análise do processo histórico que a sua geração e as novas gerações somente terão futuro previsível se a ciência, a terra, a água, as riquezas do subsolo se tornarem um bem comum da humanidade, e não apropriados para o lucro de poucos”, resume.


Prof. Frigotto durante conferência no IHU (Foto: Frame do vídeo)

Gaudêncio Frigotto possui bacharelado em Filosofia pela hoje Unijuí - RS, graduação em Pedagogia pela Unijuí, mestrado em Administração de Sistemas Educacionais pela Fundação Getulio Vargas - FGV-RJ e doutorado em Educação: História, Política, Sociedade, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC-SP. Atualmente é professor Associado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro - Uerj.

No dia 17 de outubro, o professor esteve no Instituto Humanitas Unisinos - IHU, proferindo a palestra “Revolução 4.0, atividades científicas e os valores. Impactos nos processos de educação e formação”. O vídeo da conferência está disponível aqui.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Partindo do pressuposto de que vivemos uma crise do trabalho assalariado, de que forma a Revolução 4.0 pode se converter tanto em causadora dessa crise como em possibilidade de indicar caminhos que superem esse estado?

Gaudêncio Frigotto – A compreensão desta questão é central para a análise das demais, pois estas dependem de como concebemos a ciência e a tecnologia na sociedade. E o ponto de vista fundamental é entender a ciência e a tecnologia como produtos das relações sociais e que desde a revolução burguesa se trata de relações sociais sob o capitalismo. Vale dizer, relações de poder assimétricas entre os que detêm privadamente os meios e instrumentos de produção com o objetivo de acumular riqueza e a maioria de trabalhadores que, para suprir suas necessidades básicas (comer, beber, ter um teto, vestir, locomover-se) e a partir daí as suas necessidades sociais e culturais, necessitam vender a sua força de trabalho na forma de emprego.

De imediato, o que se tem denominado de “Revolução 4.0” resulta de um novo salto tecnológico que tem em sua base a microeletrônica associada à informação apropriada por grandes corporações, grupos e indivíduos privados. Um salto que permite acelerar o tempo e condensar o espaço, e que gera no mundo, não o fim do trabalho, mas a crise estrutural do emprego. Se a ciência e a tecnologia fossem bens comuns públicos, seria viável diminuir enormemente o tempo da jornada de trabalho e assegurar vida digna a todos.

Mas a ciência e a tecnologia, desde a primeira “Revoluçãoindustrial foram se constituindo na força produtiva fundamental na reprodução do capital. Trata-se de um processo contínuo de substituição na atividade produtiva do trabalho vivo (força física e mental dos trabalhadores) em trabalho morto (máquinas, computadores, robôs etc.). O que a história mostra é que aqueles capitalistas ou grupos que se valem de uma tecnologia que lhes permite, em menos tempo e com menos pessoal, produzir mais lhes dá vantagens na competição com os demais capitalistas e lhes permite instaurar novas formas de organização e gestão do trabalho e aumentar seus lucros. A tendência dos demais competidores privados é a de também galgar este mesmo nível.

Destruição criadora

A esse processo o economista austríaco Joseph Schumpeter denominou de “destruição criadora” propulsora do desenvolvimento. Todavia, se o capitalismo tem esta virtude, esta engendra contradições que o conduzem a crises cada vez mais agudas. A contradição fundamental se expressa pela sua incapacidade orgânica de socializar a exponencial capacidade de produzir mercadorias e serviços. E as crises, que eram cíclicas, se localizavam num espaço e atingiam determinadas esferas da vida, agora, como analisa o filósofo István Mészáros , a crise é universal no sentido que atinge todas as esferas da vida − emprego, saúde, educação, cultura, meio ambiente; é global, no sentido que embora seus efeitos sejam diversos em diferentes regiões, um problema numa região ou país se reflete nas demais regiões e países; e não mais é cíclica, mas continua e cada vez mais aguda. Para esse autor, isso leva a um “sistema de produção destrutivo” de direitos, do emprego, trabalho digno, da saúde, da educação, da habitação, da cultura, da ética e afeta as bases da vida mediante a crise ambiental.

De modo crescente a tecnologia tem diminuído a atuação direta da força humana na produção, destruindo empregos e não repondo na mesma proporção e com os mesmos direitos. As novas tecnologias, cada vez mais concentradas em poucas corporações econômicas e financeiras ou por indivíduos na área de serviços, destroem e incorporam concorrentes aumentando a concentração e estabelecem uma concorrência entre os próprios trabalhadores, permitindo uma superexploração e expropriação de direitos já conquistados. A forma de manter essa realidade social tem sido o uso da violência e o ressurgimento de governos de direita e extrema direita, como é o caso atual no Brasil.

A tecnologia 4.0, mais que no campo industrial, tem sido a chave para tornar milionários na área de serviços e corporações de alimentos que produzem um exército crescente de trabalho precário, superexplorado e sem regulamentação e, portanto, sem direitos e proteção. Exemplos como o da Amazon, que não tem base física e explora trabalho em todo o mundo e faz com que Jeff Bezos detenha uma fortuna de 112 bilhões de dólares. A Apple tem valor de mercado de mais de 90 bilhões. Outros exemplos são a Uber e as corporações de Fast Food que criam o trabalho intermitente em que o trabalhador só é remunerado pelo tempo que é solicitado a trabalhar. Essa tendência está contaminando todas as áreas de serviços, como as áreas da educação e da saúde.

Realidade brasileira

O sociólogo Ricardo Antunes em livro de 2018 – O privilégio da servidão, o novo proletariado de serviços na era digital (São Paulo: Boitempo Editorial, 2018) − analisa esta realidade para o caso brasileiro. Trata-se de uma realidade extremada, em especial depois do golpe de Estado de 2016 e das políticas destrutivas de direitos do governo Bolsonaro. A tese cínica que se difunde e se busca naturalizar é a da carteira “verde e amarela” cuja máxima é: ou o emprego ou o direito. De acordo com o IBGE, com dados de 2019, o Brasil tem aproximadamente 105 milhões de trabalhadores na ativa, dos quais 38,6 milhões estão no mercado informal. Isto representa 41% das forças de trabalho. Se somarmos 12 milhões de desempregados, temos metade da força de trabalho precarizada.

Assim, a ciência e a tecnologia, que poderiam ter efeitos extremamente positivos para a vida humana em todas as dimensões, se transformam numa das grandes ameaças por estarem na mão da lógica do lucro a qualquer preço e não a serviço do bem comum. A direção de dar positividade ampla à ciência e à tecnologia depende da capacidade social e política de democratizá-las radicalmente. E isto supõe que esteja sob o controle efetivo da esfera pública.

IHU On-Line – Se o trabalho é impactado pela Revolução 4.0, como esses novos cenários têm incidido sobre o campo da educação e formação profissional?

Gaudêncio Frigotto – A análise da questão acima indica que as relações sociais capitalistas, em especial nas últimas cinco décadas, foram crescentemente regressivas, anulando direitos conquistados, dilatando a desigualdade em todo mundo, ainda que em proporções diversas. Esta regressão se manifesta de forma clara no campo da educação e da formação humana. Até a década de 1960, o pensamento dominante sobre a educação refletia o ideário iluminista da revolução burguesa que tinha que romper, ao mesmo tempo, com o Estado absolutista, a doutrina da igreja sobre riqueza e o regime escravocrata sem o que as novas relações sociais entre o capital e o trabalho não poderiam se estatuir. Assim a escola era concebida como uma instituição social onde as crianças e os jovens se apropriariam do conhecimento científico, cultural e filosófico e dos valores e símbolos para, quando adultos, atuarem na sociedade.

Embora o que se materializou tenha sido a escola dual – uma educação mais completa e integral para quem se destinasse a ser dirigente ou ocupar funções do trabalho intelectual; e outra pragmática, fragmentada e tecnicista para quem se destinava ao trabalho manual, a referência era a sociedade. A escola era, pois, entendida como um direito social, e por isso deveria ser pública, universal, gratuita e laica, mesmo que desigual. Desta concepção decorrem os termos de profissão, qualificação e emprego dentro de uma institucionalidade que garantia direitos e permitia programar a vida a longo prazo.

A primeira regressão começa quando os economistas entram em cena para tentar explicar as razões da desigualdade social entre nações e indivíduos no contexto da Guerra Fria e expansão do socialismo no Leste Europeu após a Segunda Guerra Mundial sob a liderança da Rússia, formando a União Soviética. O medo que se instalou é de que a pobreza fosse campo fértil de influência socialista. Foi neste contexto que Theodore Schultz nos Estados Unidos, inicialmente, desenvolveu estudos sobre a relação entre desenvolvimento econômico e mobilidade social e educação. Suas pesquisas encontraram forte relação entre o Produto Interno Bruto - PIB (indicador de riqueza e desenvolvimento) e a educação. Daí concluiu que o investimento em educação pelas nações e privadamente pelas famílias geraria outra forma de capital: o “capital humano”. Mediante este capital as nações poderiam sair da pobreza e os indivíduos pobres, igualmente, ascender socialmente. A educação seria uma espécie de “galinha dos ovos de ouro”.

Certamente uma educação de qualidade tem efeitos positivos sob todas as esferas da vida social dos indivíduos e das nações. Todavia, o que Schultz e seus seguidores esqueceram de se perguntar, por seu viés positivista e de classe, é o seguinte: as nações pobres e os indivíduos pobres assim o são porque têm pouca escolaridade e de qualidade ruim ou estas decorrem pelo fato de que são pobres e não podem fazer este investimento? Foi sob esta noção de capital humano que as ditaduras da América Latina, particularmente a ditadura empresarial militar no Brasil, efetivaram reformas educativas em todos os níveis de ensino. A regressão que se estabelece é de que não mais a sociedade é a referência da escola, mas o mercado. Note-se, porém, que se acreditava que pela educação todos poderiam ser integrados na sociedade e no mercado de trabalho, e a desigualdade diminuiria. Não foi isto que ocorreu. No livro O capital do Século XXI (Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2014) o economista Thomas Piketty mostra, numa série histórica de cem anos, que a pobreza cresceu em todos os países.

A exclusão é culpa do excluído

A regressão da regressão efetiva-se a partir da década de 1980 na junção de dois fatos históricos. O fim do socialismo real e a apropriação por cada vez menos corporações e grupos empresariais do avanço científico e tecnológico que produziu a “Revolução 4.0”. A conclusão implícita é que não há mais lugar para todos, só para aqueles que se adaptarem às políticas de ajustes ou da austeridade ditadas pelas políticas neoliberais. No âmbito da educação há lugar para aqueles que permanentemente se ajustam às competências (intelectuais, físicas, mentais e socioemocionais) que o mercado exigir. Disto resulta a mudança do vocabulário pedagógico: não mais qualificação, mas competência; não mais emprego, mas empregabilidade; não mais qualidade, mas qualidade total. A culpa da exclusão, em última instância, passa a ser do trabalhador excluído.

Esta realidade tem sido mais perversa em nossa sociedade onde a burguesia local nunca se preocupou em construir uma nação, investir em ciência básica e universalizar um ensino básico (fundamental e médio) de qualidade de onde emergem os jovens cientistas. O caminho escolhido por nossa burguesia foi da cópia e de não desenvolver âmbitos de conhecimento competitivos. Perdemos, assim, todos os avanços científicos e tecnológicos do século passado e os atuais.

IHU On-Line – Como o senhor observa o papel do Ensino Médio hoje na formação dos jovens brasileiros? E, historicamente, como se deu essa relação entre os jovens, o ensino secundarista, o Estado e desejos sociais?

Gaudêncio Frigotto – O Ensino Médio nos padrões das nações desenvolvidas é condição necessária para a dupla cidadania: política e econômica. A cidadania política implica desenvolver nas novas gerações a capacidade de uma leitura crítica e autônoma da sociedade em que vivem e se constituírem em cidadãos ativos na defesa e na construção de sociedades democráticas, de igualdade de direitos básicos, sociais e subjetivos, mesmo dentro dos limites da democracia sob o capitalismo. Isto implica apropriar-se dos conhecimentos básicos das ciências sociais e humanas (história, geografia, sociologia, filosofia, literatura, arte, cultura). A cidadania econômica implica apropriar-se das bases de conhecimentos científicos e tecnológicos que estão na base dos processos produtivos em todas as esferas da vida. Estas bases o jovem as tem pela matemática, física, química, biologia e as derivações destes campos científicos. Ambas as cidadanias estão relacionadas, pois somos ao mesmo tempo um ser social e da natureza.

É esta dupla cidadania que a classe dominante brasileira, com DNA escravocrata, colonizador, antinação e antipovo negou e continua negando à maioria dos jovens brasileiros. Mais da metade dos jovens ou estão fora da idade/série ou abandonaram a escola. Cerca de 12 milhões de jovens compõem o que erroneamente se denomina de “geração nem-nem”. Jovens que nem estudam e nem trabalham. Que não estudam, sabemos, mas fazem alguma coisa para viver. Grande parte é atraída ao trabalho ilegal ou do crime e seu destino acaba sendo a morte pela mão armada do Estado ou as prisões. Trata-se de uma tríplice violência que os torna vítimas da pobreza e do preconceito social e racial, da violência do Estado que os mata e/ou a prisão.

Uma proporção elevada destes jovens está ou em instituições que encarceram menores infratores ou nos presídios onde a maioria dos presos tem menos de 30 anos. Sem considerar as instituições de menores infratores, 55% da população carcerária têm de 14 a 29 anos e vivem nas condições de desumanidade completa. A maioria absoluta não concluiu o Ensino Fundamental. E o que lhes promete o Estado Brasileiro? Mais cadeias para adultos e jovens infratores e militarização das escolas. Há, pois, não apenas a negação do Estado ao direito constitucional do Ensino Médio, mas políticas de Estado de traços autoritários e neofascistas.

IHU On-Line – Quais os desafios para se modernizar o Ensino Médio e a educação profissionalizante, mas sem cair no tecnicismo, levando em conta a necessidade de investimento em formação integral? E o quanto a reforma do Ensino Médio se afasta ou se aproxima dessa necessidade?

Gaudêncio Frigotto – O que constitui o Ensino Médio de qualidade são as bases materiais necessárias e as concepções pedagógicas que orientam o processo educativo. As primeiras se definem pelo tempo do professor na escola e numa só escola, e onde 50% desse tempo seja reservado para pesquisa, reuniões de estudo, orientação de alunos etc.; carreira docente e remuneração digna; laboratórios para as diferentes áreas de conhecimento, prédios escolares com salas de aula adequadas ao estudo, espaços para arte, cultura e esporte; tempo do aluno na escola etc. Estas condições, no ensino público em que estudam mais de 80% dos jovens que frequentam a escola neste nível, só as encontramos na atual Rede de Educação Tecnológica e em algumas escolas ou fundações nos estados como a Fundação Liberato no Rio Grande do Sul. Mas esta qualidade de ensino não atinge 10% dos alunos inscritos no Ensino Médio público no Brasil e com desigualdades regionais profundas.

No âmbito das concepções, o desafio é superar a fragmentação e a perspectiva de adaptar o processo educativo de forma unidimensional ao mercado. Trata-se de romper com a ideologia do capital humano e da derivação da pedagogia das competências e da empregabilidade. Desde 2004, com a aprovação do Decreto 5.154/04, houve avanços mediante a política do Ensino Médio Integrado. Não por acaso este avanço ocorreu nos Institutos de Educação, Ciência e Tecnologia. A integração implica a não hierarquia de disciplinas e um trabalho coletivo marcado pela interdisciplinaridade. A forma de integração pode dar-se por meio de projetos, por eixos integradores, temas geradores etc. Isto demanda tempo de trabalho conjunto dos professores e disponibilidade de, mesmo quando existe dissenso, buscar os consensos possíveis.

Reforma do Ensino Médio

A reforma ou contrarreforma do Ensino Médio atual se afasta na velocidade da luz da concepção de um Ensino Médio integrado, integral ou por inteiro, que desenvolva todas as dimensões da vida humana dos jovens. Ela junta o que é de pior da reforma do ensino secundário dos anos de ditadura empresarial militar, do Decreto 2208/97. Voltamos, com a imposição da “escolha” dos itinerários formativos pelo aluno precocemente, à década de 1940 da não equivalência de diferentes ramos de ensino. As Bases Curriculares Comuns Nacionais junto à contrarreforma do Ensino Médio liquidam com a concepção e o direito da educação básica.

IHU On-Line – O senhor tem aproximado sua pesquisa acerca da realidade do Ensino Médio e profissionalizante no Brasil com a realidade do Uruguai. O que tem percebido desses movimentos? Quais as associações e dissociações dessas duas realidades?

Gaudêncio Frigotto – Trata-se de sociedades de dimensões muito díspares. Temos uma população 45 vezes maior e numa dispersão territorial enorme. Todavia, somos sociedades que temos em comum a colonização de aventureiros e escravocratas. O Brasil, colonizado por portugueses, e o Uruguai, por espanhóis. O Brasil, entretanto, foi mais fortemente marcado pelo DNA escravocrata e colonizador. Fomos a última sociedade ocidental a abolir formalmente a escravidão.

No plano da tradição histórica, o Uruguai expressa menos preconceito ao trabalho técnico. Também não sofreram, ao longo do tempo, mudanças tão bruscas como as que tivemos na ditadura empresarial militar de 1964; depois, na década de 1990, com a adoção do neoliberalismo e, em especial, com a atual contrarreforma do Ensino Médio. Pelo contrário, no Uruguai observamos que com os esforços dos últimos doze anos a presença dos jovens de 15 a 17 anos no Ensino Médio aumentou de 40,6% a 49,7%. Isso se deve a criações de centros educativos e de programas para garantia de permanência, com diferentes inspirações filosóficas, mas que combinaram aspectos de políticas focais e universais. Aqui no Brasil, os Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia representaram a mais abrangente política pública de interiorização do Ensino Médio de qualidade. Política que cinicamente vem sendo anulada no governo de Jair Bolsonaro mediante os cortes absurdos no financiamento.

No âmbito das concepções pedagógicas, ambos os países foram marcados pela ideologia do capital humano e, atualmente, rejuvenescida pelas noções de competências, empregabilidade, qualidade total. Como no Brasil, também no Uruguai a Pedagogia das Competências e da Ideologia do Empreendedorismo se entranharam no sistema educativo, o que, à primeira vista, representa uma contradição entre o espírito público e democrático e o sistema educativo daquele país: ou seja, em lugar de se lutar por uma educação que promova a formação do ser humano emancipado, tenta-se compatibilizar o sujeito livre com os profissionais "competentes" e "empreendedores" requeridos pelo mercado.

O intercâmbio que estamos efetivando busca uma superação crítica das concepções e práticas educativas reducionistas no Ensino Médio e a aproximação das experiências de educação técnica e profissional na direção do que buscam os Institutos de Educação, Ciência e Tecnologia na ampliação do Ensino Médio Integrado.

IHU On-Line – No Brasil em que avança o uso da tecnologia na educação, especialmente no Ensino a Distância, também se discutem formas de controle sobre o professor, como no caso do Escola sem Partido . Como o senhor analisa esses cenários?

Gaudêncio Frigotto – A tecnologia certamente pode ter um papel positivo nos processos formativos. Seu uso, porém, tem sido uma estratégia de negócio pelo setor privado e uma forma de desonerar o Estado da educação presencial. Ambas têm deformado a educação superior e, agora, adentrando no Ensino Médio. Esta tendência se completa pela defesa do ensino domiciliar. Escola é mais do que o conjunto de disciplinas. É espaço de convívio humano com a diversidade social.

Outro uso negativo da tecnologia é justamente a perda de autonomia docente e a imposição, por parte do Estado, daquilo que os governos de plantão e o mercado desejam. Este é traço da cultura autoritária e de traços fascistas que se espraiam a cada dia mais em nossa sociedade. A expressão mais acabada disto é o que postula o Programa Escola sem Partido. Na verdade, trata-se do partido do pensamento único, da delação, e não do diálogo, mas do ódio ao diferente e do pensamento crítico. Um movimento, portanto, próprio dos regimes fascistas. Quando se rompe a relação de confiança entre professor, aluno e sociedade, já não há processo educativo e o convívio social está em risco.

O cenário atual não poderia ser mais preocupante. O que colho na reflexão crítica de muitos intelectuais, pesquisadores é que o que nos domina é a junção da estupidez, da insensatez e da insanidade humana que se expressam, em grau maior ou menor, em três fundamentalismos (econômico, político e religioso) que comandam a política do atual governo.

Deus mercado

O fundamentalismo econômico que define o mercado como uma espécie de “deus” ou força extra-humana que tudo regula. A ordem é privatizar tudo: empresas estatais, bancos públicos, água, pré-sal, minérios e agora terras para estrangeiros. No plano da educação, o que comanda, num país de extrema desigualdade social e cultural, é a ideologia da meritocracia. As políticas de inclusão de quilombolas, ribeirinhos, índios, filhos e filhas da classe popular para esta visão significam quebrar com o mandamento da competição.

Os danos de fundamentalismos

O fundamentalismo político que se pauta pela ideologia do ódio, da eliminação dos adversários e criminalização dos movimentos sociais do campo e da cidade que lutam por direitos negados historicamente, cunhando-os de organizações criminosas; que busca silenciar e liquidar o pensamento crítico nas escolas e nas Universidades mediante a pedagogia da ameaça, do medo e da violência. Imposição de reitores que sigam a ideologia do governo etc. Acresce-se o culto às armas. Aqui se deriva para a insanidade.

O fundamentalismo religioso, finalmente, centrado especialmente por denominações neopentecostais que comandam o mercado religioso dos vendilhões dos templos, mistura política com crença. Uma realidade cada dia mais visível entre nós é o processo em curso de subordinar o conhecimento histórico e a ciência à crença. Uma cultura obscurantista, a de descrédito da ciência e apelo à pós-verdade e crendices como forma de governo. A história nos mostra que este fundamentalismo, junto aos dois anteriores, constitui-se no ovo de serpente e na esfinge que nos ameaça. Tratemos de nos dar conta dos riscos disso e reunir forças para alterar este cenário.

IHU On-Line – Quais os impactos da Revolução 4.0 na universidade? Como cursos tradicionais têm sido transformados pelas novas tecnologias? E como alunos e professores respondem a esse cenário?

Gaudêncio Frigotto – O primeiro e mais amplo impacto é o comércio da educação a distância, que se generaliza em praticamente todas as áreas de conhecimento. Como assinalei acima, para o setor privado, um negócio rendoso. No caso dos Estados, adotam as novas tecnologias dominantemente para diminuir custos e atender as políticas de austeridade para pagar juros a bancos. A Emenda Constitucional 95 é algo mundialmente sem precedentes. Mas as mudanças tecnológicas também trazem pontos positivos na Universidade, no campo da pesquisa, do ensino e da extensão. No plano do ensino, o papel não é, sobretudo, de fornecer informações. Estas o aluno as tem em profusão. Trata-se de construir as bases e critérios científicos para selecionar e analisar as informações.

Um dos grandes problemas para o ensino e o conhecimento denso é que as tecnologias da “Revolução 4.0” estão, como indicamos acima, no mundo privado e cada vez mais concentradas em poucas corporações, grupos ou famílias. As informações, neste sentido, não obedecem à lógica da construção do conhecimento, mas à lógica da mercadoria e do descartável, o tempo de um WhatsApp. Isso permite a emergência do que se vem denominando de pós-verdade. Mas o conhecimento não lida com pós-verdade, pois esta regride ao relativismo absoluto em que a verdade dos fatos e fenômenos é o que cada um pensa. Uma mistura de senso comum e crença. No plano da política criam-se as “universidades da mentira” para manipular as massas.

IHU On-Line – Quais os desafios da educação profissional no Brasil do século XXI? Como preparar esses jovens e assegurar a sua empregabilidade?

Gaudêncio Frigotto – O maior desafio da educação profissional é que ela possa se realizar a partir de uma excelente educação básica. Como diz o termo, é a que dá base para o entendimento de como funciona a sociedade, a natureza e os processos de produção. A educação básica é ela mesma parte substancial da educação profissional. O Ensino Médio Integrado busca esta unidade diversa. A especialização profissional, neste sentido, só poderia ocorrer depois do Ensino Médio.

Num contexto de desemprego estrutural, terão alguma chance de inserirem-se no mercado formal do trabalho complexo aqueles que tiverem uma excelente educação básica, domínio de línguas, estágios no exterior etc. No Brasil e no mundo são muito poucos os que sacrificam sua juventude em nome de um futuro questionado pelo presente. O grande desafio da educação talvez seja de ajudar os jovens, em especial filhos e filhas da classe trabalhadora do campo e da cidade, a perceberem pela análise do processo histórico que a sua geração e as novas gerações somente terão futuro previsível se a ciência, a terra, a água, as riquezas do subsolo se tornarem um bem comum da humanidade, e não apropriados para o lucro de poucos.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Gaudêncio Frigotto – Um grande desafio da educação pública no presente no Brasil é enfrentar a pedagogia da ameaça, do medo por setores da sociedade que têm, no magistério de todos os níveis, um inimigo da sociedade, manipuladores de crianças e jovens. O Movimento Escola Sem Partido e a perda da autonomia docente resultam da tríade de fundamentalismos acima mencionados e que condensam a estupidez, a insensatez e a insanidade humana.

A pedagogia do diálogo e da confiança, que é a base de qualquer processo educativo, vem sendo quebrada pela pedagogia do ódio, da mordaça e da delação. Muito grave quando se usa das novas tecnologias, que têm a possibilidade de estender membros e sentidos humanos, para uso de técnicas fascistas que incitam não o debate, o dissenso qualificado, pedras angulares do conhecimento e do convívio humano, mas a anulação do ou de abater o outro. Quando se defende que isto se torne lei, sobra pouco para o convívio humano.

O que nos cabe é não cair na armadilha do medo, pois ele não só nos anula, mas nos adoece. A forma de enfrentá-lo é o trabalho e a reflexão coletiva. Este é um desafio que não pode ser adiado e que deve ser assumido por todas as instituições científicas, culturais, religiosas e políticas democráticas de nossa sociedade para que tenhamos futuro previsível. Do grande pensador e educador Florestan Fernandes aprendemos que a história não se abre ou fecha por si mesma, mas são os homens e mulheres em luta por seus direitos que abrem ou fecham os círculos da história.

Assista à íntegra da conferência:

 

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