Igreja no Brasil: documentos, notas e abaixo-assinados não bastam

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05 Agosto 2020

Tenho a impressão de que o pronunciamento de muitos bispos e padres se soma a dezenas e dezenas de notas de rejeição e de manifestos que se acumulam nas nossas “escrivaninhas” digitais tecnológicas, burocracias aptas a arquivar e encobrir sine die toda reclamação e todo protesto. Qual é a sua utilidade? Para que servem?

O comentário é do padre italiano Fidei Donum Flavio Lazzarin, que atua no Maranhão. O artigo foi publicado por Settimana News, 04-08-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

No fim de julho, 152 bispos brasileiros assinaram um documento contendo críticas duras e detalhadas ao governo do presidente Jair Bolsonaro. É um documento inspirado no Evangelho, com inevitáveis consequências políticas. A nota, inicialmente enviada à presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), foi publicada no dia 31 de julho pelo jornal Folha de S.Paulo, a partir de um vazamento de notícias.

Provavelmente, a CNBB está preocupada agora com as repercussões eclesiais desse pronunciamento, que encontra a Igreja brasileira dividida, com significativos setores envolvidos no apoio político ao “bolsonarismo”. De fato, quase imediatamente, os católicos pró-Bolsonaro publicaram na rede o seu protesto, às vezes com tons ofensivos, repetindo as acusações de heresia, envolvendo novamente o Papa Francisco nas críticas.

Oposição ao sistema

Imediatamente, mais de 1.000 padres e religiosos brasileiros assinaram um manifesto de apoio à nota dos bispos. Eu também assinei a nota, embora não seja do meu agrado priorizar esse confronto entre as chamadas alas progressistas e conservadoras da Igreja Católica. Não gosto de refletir esses cismas de baixa intensidade, que fazem parte, desde sempre, da nossa história eclesial.

Prefiro a opção concreta e refletida pelo protagonismo das vítimas do capital e do poder soberano: as irmãzinhas e os irmãozinhos de Jesus, o Ressuscitado. De fato, são os povos indígenas, os quilombolas, as comunidades tradicionais, os pobres dos campos e das periferias urbanas, o polo biopolítico efetivo que se opõe à crescente brutalidade do sistema.

De fato, essa é a verdadeira polarização, e não a que disputa o poder estatal – indiferente aos imensos desafios ecológicos que interpelam a humanidade – ou a que reduz as tensões teológicas e pastorais ao contexto intraeclesial.

As razões de um conflito

Além disso, tenho a impressão de que o pronunciamento de muitos bispos e padres se soma a dezenas e dezenas de notas de rejeição e de manifestos que se acumulam nas nossas “escrivaninhas” digitais tecnológicas, burocracias aptas a arquivar e encobrir sine die toda reclamação e todo protesto. Qual é a sua utilidade? Para que servem?

A única resposta que encontro é que eles servem para que possamos nos contar e contar aos outros, e, portanto, não conseguem tocar a realidade de modo algum.

Restam muitas perguntas que não são retóricas. Eles servem para convencer? Servem como oposição militante? Servem como desobediência civil? Servem para impedir a violência real e digital? São instrumentos eficazes de contrapoder?

Supondo que exista uma guerra civil de baixa intensidade no Brasil, escondida entre as dobras de uma polarização espetacular – mas inexistente – entre direita e esquerda, onde está realmente o conflito? O bolsonarismo é apenas uma ameaça à democracia? Ou é uma ameaça subversiva ao Estado de direito? Se é assim, para que servem as desarmadas análises de conjuntura? Se é assim, quais são os instrumentos para vencer a onda de desumanidade que sacrifica as pessoas pobres? Existe uma passagem obrigatória e inadiável “das armas da crítica à crítica das armas”?

A boa consciência de uma Igreja ainda patriarcal

Uma última coisa: o número significativo de bispos e padres que assinam as notas mostra a consciência evangélica de setores importantes da Igreja Católica, mas, ao mesmo tempo, revela os nossos limites clericais de Igrejas locais ainda marcadas pelo sistema patriarcal e hierárquico.

Também na nossa Igreja, a urgência evidente e inadiável dessa novidade evangélica, que exige a libertação da servidão feminina, parece ser um sonho de poucas irmãs e de poucos irmãos. Acredito que se esconde aqui a verdadeira profecia, com a sua constitutiva vocação martirial. Medice, cura te ipsum (Lc 4,23).

 

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