A Igreja em transformação. Razões atuais e perspectivas futuras

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10 Julho 2020

"Experimentamos mudanças institucionais e doutrinais que buscam caracterizar a Igreja como: missionária e descentrada; configurada pela colegialidade episcopal e pela sinodalidade de todos os seus membros; respeitosa das diversas culturas; seriamente voltada para os pobres e marginalizados. Tudo isso traz consequências. Internamente, vivemos uma situação tensa, marcada por oposições e resistências", escreve Eliseu Wisniewski, presbítero da Congregação da Missão Província do Sul (padres vicentinos), mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e professor na Faculdade Vicentina (FAVI), Curitiba, PR.

Eis o artigo.

Igreja em Transformação
Razões Atuais 
e Perspectivas Futuras
Mario De França Miranda

Vivemos numa época de radicalizações de posições. As tensões vividas na sociedade refletem-se dentro da Igreja. A vinda do Papa Francisco trouxe uma série de novidades... Junto a estas novidades vieram as tensões internas na Igreja entre aqueles que gostariam de ver as mudanças e os que acham as mudanças desnecessárias. As batalhas se tornam cada vez mais conhecidas... Há tempos não tínhamos visto tantos ataques contra um Papa. Vemos figuras importantes da Igreja como bispos, cardeais, padres, seminaristas falando mal do Papa e divididos entre eles. Essa dura realidade enfrentada pela Igreja, no entanto, precisa ser analisada com objetividade. Eis o propósito do livro: A Igreja em transformação. Razões atuais e perspectivas futuras (Paulinas, 2019), de autoria de Dr. Mario de França Miranda.

Mario de França Miranda possui doutorado em Teologia pela Universidade Gregoriana. Atualmente é professor emérito de Teologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-Rio. Foi membro da Comissão Teológica Internacional do Vaticano, assessor do CELAM e da CNBB, tendo várias obras teológicas e numerosos artigos publicados.

O Autor situa o leitor nas transformações da Igreja com o pontificado de Francisco. O livro “nasceu de uma indagação muito pessoal: como explicar as tensões/agitações em curso na Igreja que, à primeira vista, rompe com um passado mais tranquilo? As tensões resultariam dos extremismos da atual sociedade? Ou suas raízes estariam no interior da própria Igreja, sacudida por novos questionamentos, por novas compreensões da fé cristã, por novos padrões de comportamento, por novas espiritualidades, por novas instituições e por novas práticas religiosas? Ou pelos dois fatores, já que Igreja e sociedade interagem? Afinal, a Igreja se encontra na sociedade, influenciando-a, mas também sendo por ela atingida” (p. 17).

França Miranda lança um olhar propositivo sobre as transformações socioculturais. Elas atestam a vitalidade e a fidelidade da Igreja à sua missão numa sociedade sempre em transformação, para a qual ela deve anunciar a salvação de Jesus Cristo. Ele entende que as transformações culturais e sociais que a sociedade experimenta ao longo da história não deixaram de atingir também a Igreja, que, sem perder sua identidade provinda de Deus, ela terá que mudar sua linguagem e sua estrutura para que se faça entendida e significativa para toda uma geração. É para esta sociedade que a ela deve falar. Muda para poder continuar sendo Igreja, sinal ou sacramento devidamente captado e entendido pela sociedade.

No entanto, como continuadora da missão de Jesus Cristo ao longo da história, como aquela que deve proclamar e realizar o projeto de Deus para a sociedade humana – projeto este condensado na expressão Reino de Deus –, a mudança repercuta sobre sua própria realidade institucional, cultural, pastoral e missionária. Outrossim, a própria pessoa de Cristo, por ela anunciada, sempre se constitui em um fator de correção e de reforma. Transformações decorrentes do confronto com a pessoa de Jesus Cristo são necessárias e justificadas, pois, elas provêm da ação do Espírito Santo, sempre atuante na comunidade dos fiéis (cf. p. 17-25).

É neste contexto que se encontra o Papa Francisco. Experimentamos mudanças institucionais e doutrinais que buscam caracterizar a Igreja como: missionária e descentrada; configurada pela colegialidade episcopal e pela sinodalidade de todos os seus membros; respeitosa das diversas culturas; seriamente voltada para os pobres e marginalizados. Tudo isso traz consequências. Internamente, vivemos uma situação tensa, marcada por oposições e resistências. “A hora pede, portanto, que evitemos avaliações precipitadas, emotivas, imaturas” (p. 23). Pois, faz-se necessário compreender melhor o atual momento de transformações para chegar a um juízo fundamentado, a uma avaliação objetiva e cristã. O propósito dos quatro capítulos deste livro é o de ajudar a alargar a compreensão neste sentido.

No primeiro capítulo, do ponto de vista antropológico e pneumatológico, o autor mostra que a humanidade evolui em todos os setores de sua realidade, pois todo conhecimento humano é histórico, sujeito ao contexto em que acontece, com suas riquezas e limitações. O conhecimento, sendo o tema principal deste capítulo, é analisado em sua complexidade: conhecimento e interpretação; conhecimento e história; conhecimento e tradição; a questão da verdade e seu desvelamento na história; a verdade cristã; a atuação do Espírito Santo e a renovação eclesial (cf. p. 27-45).

No segundo capítulo, de cunho histórico, França Miranda procura demonstrar que a evolução na doutrina e nas práticas foi uma constante na história da Igreja, seja devido às transformações socioculturais, seja por causa das reformas eclesiais que urgiam. O objetivo do Autor não é, aqui, apresentar a história da Igreja em toda a sua amplidão, mas comprovar com fatos ocorridos a inevitável evolução do cristianismo ao longo dos anos, decorrente de sua historicidade e da ação contínua do Espírito Santo, destacando, para isso, as mudanças institucionais e a evolução doutrinal. As transformações na instituição eclesial são simplesmente inevitáveis. Importa perceber como o entorno histórico, seja linguístico, seja institucional, provocou novas expressões e novas estruturas para que a fé cristã pudesse ser captada e vivida tanto a nível pessoal como comunitário. Importa, ainda, perceber que não se trata apenas de uma inculturação da fé em novos contextos socioculturais, mas de um aprofundamento da verdade cristã, ampliando seus limites, possibilitando novas relações, fazendo emergir elementos latentes ou implícitos até então desconhecidos pelas gerações anteriores (cf. p. 47-68) .

No terceiro capítulo são abordadas as resistências às mudanças, encontradas por Francisco. O Autor busca suas causas e as submete a uma avaliação de fundo. As raízes/razões da oposição às necessárias transformações, sejam elas relativas à compreensão da doutrina cristã, sejam elas concernentes à instituição eclesial, são elencadas como:

1) a questão do poder (ministério como serviço ou degeneração em privilégios, arrogância, encobrimento da insegurança pessoal?);

2) a busca pela segurança (as mudanças na sociedade e na cultura geral provêm em grande parte da insegurança psicológica que provocam nas pessoas);

3) um cristianismo de ritos tradicionais (intimamente ligado à tendência tradicionalista, por valorizar demasiadamente as expressões, os ritos, as devoções, as obrigações e os procedimentos do passado, um catolicismo sem grande incidência na vida pessoal e social);

4) estrutura mental estática (o inevitável horizonte de compreensão, sempre presente e atuante do conhecimento humano, que tenhamos consciência dele ou não), (cf. p. 69-75).

No quarto capítulo, considerado pelo autor como o mais importante, busca-se fundamentar os atuais esforços em prol de uma renovação do corpo eclesial. Afirma-se que a transformação eclesial que hoje experimentamos não resulta apenas das importantes e significativas mudanças culturais, ou ainda da inevitável e contínua busca do ser humano pela verdade, mas, sobretudo, da própria fé cristã. Os temas aqui apresentados são:

1) Jesus Cristo e o Reino de Deus (p 78-81);

2) o Deus do Reino (p. 81-82);

3) a evolução histórica (p. 82-83);

4) Igreja e missão (p. 83-86);

5) nova configuração eclesial (p. 86-88);

6) uma Igreja sinodal (p. 88-90);

7) a Igreja e os pobres (p. 90-93);

8) a ação do Espírito Santo (p. 93-97); 9) um Deus misericordioso (p. 98-99).

Estes temas podem incomodar, num primeiro momento, por indicarem uma nova compreensão de nossa identidade cristã mais próxima ao Evangelho, mais exigente, mais significativa e estimulante para afrontarmos a aventura que é a própria existência humana. A fundamentação dada para cada um deles ajudará a Igreja a rever sua ação pastoral em consonância com o apelo do Papa Francisco por uma conversão pastoral e missionária ( cf. p. 77-99).

À guisa de conclusão e buscando fazer a passagem das razões teológicas para a ação pastoral, ou seja, respondendo ao como poderiam as verdades expressas teologicamente serem vividas por seus membros, o Autor apresenta algumas características que a Igreja deveria ter neste terceiro milênio:

1) linguagem atualizada (p. 101-103);

2) primazia do vivido (p. 103-105);

3) amor fraterno na construção do Reino de Deus (p. 105-107);

4) laicato missionário (p. 107-109);

5) futuramente, uma Igreja diferente (p. 110-111).

Previne que se trata de uma tarefa complexa, pois implica em novas expressões, novas estratégias de evangelização, novas instituições, seja a nível paroquial, diocesano ou regional (cf. p. 101).

A competência do autor impressiona. Nas palavras de Dom Joaquim Giovani Mol Guimarães: “ele é mestre de muitas e incontáveis pessoas, pelo serviço que presta por meio da teologia, de altíssima qualidade e acentuada sensibilidade pastoral” (p. 16). Livro bem elaborado pedagogicamente. O conteúdo abordado com linguagem clara, simples e sem preocupações com aparato cientifico é, contudo, bem fundamentado, demonstra profundidade e consistência. Permite que o leitor conheça, amplie, aprofunde, tome consciência que a Igreja, enquanto instituição, é também fator cultural, reconhecendo, por isso, a necessidade de renovar-se constantemente, de colocar-se na ordem do dia.

Ecclesia semper reformanda. Embora a contínua reforma pertença à sua própria natureza, como ensinou o Concílio Vaticano II, essa verdade teológica encontra imensas dificuldades para ser colocada em prática. Tem sido abraçada pelo Papa Francisco, através de estratégias pontuais e de processos gradativos, não sem polêmicas e resistências no espaço público interno e externo - advindas de setores conservadores da Igreja e da sociedade mundial.

O autor se dirige a todos, mas suas interrogações e considerações serão de realçado proveito para lideranças pastorais e estudantes de teologia. O texto contribui para fundamentar o diálogo sobre as transformações em curso na Igreja.

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