O que aconteceu com a Igreja Católica?

Revista ihu on-line

Planos de saúde e o SUS. Uma relação predatória

Edição: 541

Leia mais

Hans Jonas. 40 anos de O princípio responsabilidade

Edição: 540

Leia mais

Do ethos ao business em tempos de “Future-se”

Edição: 539

Leia mais

Mais Lidos

  • “Existe uma luta política na Igreja, entre os que querem a Igreja sonhada pelo Vaticano II e os que não” constata Arturo Sosa, superior-geral dos jesuítas

    LER MAIS
  • O agrotóxico que matou 50 milhões de abelhas em Santa Catarina em um só mês

    LER MAIS
  • “Estamos diante de uma crise do modelo de civilização”. Entrevista com Donna Haraway

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Enviar

12 Outubro 2018

Como a cultura do Vaticano criou uma igreja que sente como se estivesse morrendo de vergonha.

A reportagem é de Arthur Jones, publicada por National Catholic Reporter, 08-10-2018. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

A segunda parte da reportagem pode ser lida aqui.

O sistema do Vaticano, que conecta diretorias entre os cardeais da Cúria que lideram as Congregações (departamentos) mais importantes, faz com que o Papa tenha contato apenas com um ou outro cardeal para saber o que está acontecendo em todos os lugares. — Peter Drucker, Conceito da Corporação.

Em 14 de janeiro de 1985, eu escrevi um artigo de 4000 palavras para a revista Forbes sobre a gestão da Igreja Católica, "o maior e mais antigo empreendimento do mundo". O título era: "Managing the Lord's Work" (Gerindo o trabalho do Senhor, tradução livre).

Cinco meses depois, no dia 7 de junho de 1985, escrevi a notícia de capa e colaborei no editorial de capa da National Catholic Reporter que expunha a crise nacional de pedofilia entre padres católicos nos Estados Unidos. A notícia descrevia o envolvimento dos bispos católicos no acobertamento desses crimes e desvios morais. Nas duas décadas seguintes, esses bispos dos EUA continuaram fazendo pouco mais do que transferir os padres criminosos de um lado para o outro.

Olhando três décadas para trás na Forbes, pode-se perceber que o Vaticano estava operando em um déficit, e ainda era “uma grande preocupação” a dissidência dos fiéis e do clero, “celebrando o papa” e “ignorando seus preceitos sobre contracepção artificial, divórcio e homossexualidade”.

Desconsiderando essas questões, havia muitos detalhes sobre como a Igreja era realmente administrada.

O Papa Pio XII (1939-58) havia permitido que o American Institute of Management (AIM), um instituto de pesquisa em administração, investigasse o funcionamento do sistema administrativo do Vaticano. A investigação foi atualizada em 1960, com o Papa João XXIII.

A notícia da Forbes detalhava a natureza administrativa rígida e fechada, bem como o principal conselho do AIM aos seus próprios membros: “autoridade total para os homens que já foram escolhidos para estar no topo”.

O empreendimento administrativo sindicalizado da Igreja de Roma, limitado aos clérigos homens selecionados, estava na base da crise de pedofilia. Não pelo que permitia, mas pelo que a Igreja de Roma (papa, Colégio dos Cardeais, Cúria, arcebispos e bispos), como a burocracia da Igreja, promovia: um clube do bolinha exclusivo baseado em um rígido sistema de classes.

Alguns leitores católicos podem ficar perplexos e até mesmo ofendidos pela forma descomprometida e desapaixonada com que a Igreja Católica será discutida a seguir. A verdade é que “reduzir o 'mistério' central da igreja a parâmetros terrenos é correr o risco de errar por ser reducionista”, como disse o Padre Beneditino Patrick Greenfield (na época presidente da Sociedade Teológica Católica dos EUA) à Forbes, mas se não se perde "o sentido de 'mistério" como ponto focal da religião, as analogias terrenas são úteis".

Apenas olhando diretamente para o que vem fazendo a burocracia da igreja é possível ver claramente o dano causado ao que os católicos conhecem como Mistério, “o depósito da fé”. Diante dos últimos 33 anos de abuso sexual clerical e acobertamento nos mais altos escalões da instituição, é sensato perguntar: como é que a comunidade que Jesus Cristo fundou chegou a isso?

Há duas respostas: Primeiro, o Imperador Constantino, e depois os exemplos vivos da conhecida doutrina do católico inglês Lord Acton: “O poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente”. Esses exemplos incluem vários papas e minions selecionados por ele.

Os minions da liderança governante têm poder suficiente para corromper se quiserem se render a isso. É por isso que a corrupção não se limita a Roma, mas está presente em todo lugar que tenha um padre, bispo, arcebispo, apesar de nem todos terem se corrompido - graças a Deus.

Dar conta de dois milênios de um poder hierárquico relativamente intocável e incontestável requer que se tome algum atalho. Portanto, assinalar os papas conhecidos como “importantes” será suficiente.

O Cristianismo era uma jovem startup quando seu fundador foi morto aos 33 anos. Seu produto era a salvação. Não havia estrutura administrativa para além de um sucessor escolhido, Pedro Simão, que não tinha demonstrado ter as competências necessárias para o cargo. Na verdade, havia sido muito desleal ao chefe. Os outros escolhidos haviam fugido ao primeiro sinal de perigo.

Na época da morte de Cristo, não havia plano de negócios. Não havia nenhum acordo sobre quem deveria fazer o quê, e um clima incipiente sugerindo que talvez todo o empreendimento não fosse a lugar algum. Ainda fazendo analogia ao uma empresa, os 12 homens, que ficaram inspirados com a morte e ressurreição de Jesus, foram despedidos com a crença de que tinham uma mensagem de que o mundo precisava mesmo que, naquele momento, não soubesse que queria.

Os 12 deliberadamente separaram os bens do mundo e decidiram que o único caminho possível era o missionário - pregar e arriscar sofrer as consequências. Um produto sem nome, sem um logotipo compreendido universalmente, sem uma sede ou qualquer prova plausível de que funcionava.

A mensagem foi transmitida de forma tão convincente, tão bem estruturada, tão atraente à luz das alternativas, que muitas pessoas que a ouviam aceitavam mesmo sem provas. Inicialmente, quem aderia ao ministério não tinha uma clara identificação com o grupo até que, na Grécia, “em Antioquia foram (...), pela primeira vez, chamados cristãos”.

O fundador, Jesus, um carpinteiro de Nazaré, havia usado um logotipo: um peixe. Foi suficiente por um tempo (e reapareceu na forma de adesivo no final dos anos 70). No primeiro e no segundo séculos, havia o símbolo Chi-Rho (XP), as duas primeiras letras do nome de Cristo em grego.

Alguns alegam que o Chi-Rho já era o símbolo do batalhão de uma legião e que os cristãos o adaptaram. Outros alegam o contrário, que os soldados cristãos exibiam o símbolo gravado nos escudos. O símbolo Chi-Rho viajou muito, 2000 anos atrás, e na cidade murada de Chester, na Inglaterra, na época da Roma Antiga, foi gravado em pedras pelos soldados romanos.

A organização cristã tinha cerca de 350 anos quando chegou ao símbolo perfeito: a cruz. Simples, simétrica, gráfica, duradoura, adaptável a vários desenvolvimentos de design sobre o tema - e transmitia a mensagem objetivamente.

Mesmo naquela época, ainda não havia uma organização formal consensual, apesar de estar surgindo uma estrutura administrativa local rudimentar na prática geral: bispo, presbítero (padre), povo. Mas, antes do fim do século IV, tudo mudaria drasticamente, organizacionalmente falando.

Durante cerca dos primeiros três séculos do cristianismo, havia poucas evidências de permanência física. Os fiéis reuniam-se na casa das pessoas ou em reuniões realizadas em lugares disponíveis. As sinagogas e os templos eram muito aceitáveis e de acordo com a tradição. Às vezes, como na Síria em 240 D.C., o exemplo conhecido mais antigo, derrubava-se a parede interna de uma casa para ter mais espaço para as reuniões, mais tarde chamada de casa-igreja.

O Octógono, em Filipos, o local construído para encontros cristãos datado mais antigo em toda a Grécia e a Macedônia data apenas do começo do século IV, época em que as primeiras igrejas também foram sendo construídas em Roma.

No entanto, até o século IV, o Cristianismo já tinha vivenciado quase tudo que continuaria vivenciando. Tinha sido alvo de piadas, não se confiava nele. Foi proibido, foi perseguido. Foi levado à clandestinidade e foi temido. Mas foi tão resistente que sobreviveu. Quando um cristão era morto, parecia que dois apareciam em seu lugar. Qualquer estado de direito que houvesse operava contra o Cristianismo.

As autoridades começaram a reconhecer, no entanto, que a mensagem não podia ser contida porque, conscientemente ou não, a organização tinha desenvolvido o mecanismo de sobrevivência perfeito: todos os consumidores, todos os clientes do produto, eram tanto destinatário como emissário, e cada pessoa que se convertia tornava-se o próximo herege. A base de clientes e a força de vendas viraram uma coisa só

O Cristianismo tinha criado o sistema de transmissão de mensagens ideal.

Por ter se tornado característico de muitos soldados romanos, o pacote promocional itinerante circulava às custas de outra pessoa. O Cristianismo usava a internet da época: o boca a boca. Em grande parte das primeiras décadas, e em muitos lugares, apenas outros cristãos sabiam com certeza quem era e quem não era cristão.

O Imperador Constantino foi a primeira celebridade a apoiar o produto. Essa nova religião, o Cristianismo, era um desafio e uma oportunidade. Em certo nível, ele orquestrou um controle não hostil da mística e da utilidade da sua estrutura, mas Constantino tinha pouco interesse em lidar com o pacote do Mistério em si (embora depois tenha se convertido ao Cristianismo e convocado um Concílio). Sua tentativa de deter o controle funcionou — pelo menos para a satisfação de Constantino.

No entanto, ele destruiu a organização ainda incipiente, sobrepondo a ela o modelo imperial e a organização racional. Encheu seus bispos com delírios de grandeza que eles repassaram para as gerações de hierarcas como um direito adquirido por nascença.

O próximo erro de Constantino foi um enorme desastre estratégico. O Imperador queria uma capital só para ele. Ele construiu Constantinopla, de acordo com seus projetos. O resultado foi que a igreja cristã, assim como o próprio império, passou a ter dois centros: a igreja de língua grega em Constantinopla (antes chamada Bizâncio) e a igreja de língua latina em Roma.

A situação deu um significado austero ao adágio da "casa dividida", pois a igreja Oriental, em Constantinopla, considerava-se, em todos os sentidos, igual à igreja Ocidental, em Roma.

A decisão de Constantino gerou uma luta de 1.000 anos pela primazia entre leste e oeste à igreja de Roma, que saiu perdedora. De fato, administrativamente falando, o papado e a Igreja de Roma, pós-Constantino, foi estruturada em grande medida pela contínua rivalidade com a concorrente, a igreja de Constantinopla (e igualmente estruturada, infelizmente, para o futuro, pelas ideias de Constantino de grandeza imperial).

O Bispo de Roma queria dominar a igreja grega e, com isso, dominar o mercado. Na verdade, em 1054, depois de 700 anos, rendeu-se ao mercado oriental para Constantinopla e contentou-se com o aumento da adesão ao papa no Oeste.

Complexo de superioridade

O que Constantino visavo na igreja cristã, centralizada em Roma, que estava florescendo na época, era um complexo de superioridade imperial. Este complexo de superioridade, evidente na maioria dos papas e bispos, continua até hoje. No fim da Idade Antiga, em que os cristãos eram identificados por sua túnica simples em contraste aos trajes luxuosos usados em Roma, os cristãos ricos começaram a participar da missa usando ornamentos caros bordados com cenas das Escrituras.

Onde as casas-igrejas e os templos dos outros bastavam, Constantino imprimiu o tom dos papas dando-lhes o Palácio de Latrão e criando enormes basílicas e igrejas imperiais ornamentadas para eles. O luxuoso estilo pegou, e em breve "a Igreja dos pobres" tinha pelo menos uma igreja em Roma com um arco de prata sólida sobre o altar.

O complexo de superioridade teve forte adesão não apenas em afetações principescas de clérigos, mas alterou tudo, desde a cooperação e as relações intergrupais até o modo de se comunicar com o mundo exterior. Não foi a Rainha Victoria que teria usado o primeiro “nós” real quando disse: “Não estamos nos divertindo". Foi o Papa Leão I, 440-461. A realeza adquiriu o hábito.

A opinião do American Institute of Management era diferente. Ao descrever a estrutura de gestão da igreja como "medieval e autoritária", advertiu que "se investe muita responsabilidade de linha de mando e de pessoal no Papa".

De acordo com a tradição posterior, Pedro se estabeleceu em Roma, o centro do Império, um movimento que concedeu primazia ao Bispo de Roma sobre todos os outros.

Portanto, vejamos alguns bispos de Roma que depois usaram o epíteto "o Grande". (Agradecimentos ao livro de John Julian Norwich, Absolute Monarchs: A History of the Papacy.)

Leão, o Grande (440-461): o Papa Leão estabeleceu a monarquia e usou o "nós" real emprestado mais tarde pela Rainha Vitória. Ele governou a Itália e derrotou os bárbaros. Sua carta, "Tomo de Leão", escrita para o Concílio da Calcedônia em 451, levou outros a acreditar que "Pedro falou através de Leão". Assim, Leão afirmou ser o sucessor de Pedro.

Gelásio I (492-496): Gelásio, o papa africano, disse para os governantes se afastarem e insistiu que os padres eram mais poderosos do que os príncipes. Ele afirmava que os príncipes também queriam entrar no Reino dos Céus, mas os papas tinham as chaves.

Gregório I (590-604): como senador, Gregório, o Grande, foi um administrador leigo. Foi o primeiro monge a ser eleito papa e introduziu os monges no Palácio de Latrão, que era a sede da igreja antes da Basílica de São Pedro. Ele governou o Ocidente, pois os imperadores moravam em Constantinopla. Gregório chamou os papas de "servos dos servos de Deus".

Gregório VII (1073-85): era ministro papal das finanças e criou o papado imperial. Gregório VII desafiou o Sacro Imperador Romano, que se rendeu nas neves de Canossa em 1077. Foi considerado um reformador austero e era temido e reverenciado.

Inocêncio III (1198-1216): Inocêncio tornou-se papa aos 37 anos. Ele declarou que a Magna Carta era inválida e usou o título de "Vigário de Cristo". Saqueou Constantinopla, impossibilitou a reconciliação ortodoxa e criou a trágica Cruzada das Crianças. Reconheceu os franciscanos e os dominicanos, novas ordens religiosas urbanas, modernas e pobres.

João XXII (1316-34): João era francês e governou morando em Avignon. Ele se defendeu de opositores e não tinha escrúpulos — cinco parentes próximos dele foram cardeais. Com ele, o papado tornou-se a monarquia mais rica da Europa. Dante colocou João XXII no inferno.

Sisto V (1585-90): foi um reinado breve mas eficaz. Sisto manteve a simplicidade franciscana, mas não era tolo. Repreendeu os criminosos e foi amigável com os judeus de Roma. Criou a Cúria Romana na sua forma moderna e organizou a Contrarreforma.

Bento XIV (1740-58): o historiador britânico do século XIX Barão Macaulay afirmou que foi o maior dos papas. Voltaire, seu contemporâneo, disse que ele "iluminou o mundo cristão antes de começar a governá-lo". Bento era popular e erudito. Andava pelas ruas de Roma e conversava com seus súditos. Fundou academias de erudição. Em Bolonha, sua cidade natal, encorajava as primeiras professoras mulheres em todo lugar. Até João XXIII, nenhum Papa foi tão universalmente amado.

Pio XI (1922-39): antigo bibliotecário do Vaticano, fundou a Rádio Vaticano para abordar o mundo. Ao longo de seu pontificado, Pio revelou resistência e resiliência de caráter e centralizou a Igreja de forma nunca antes possível. As universidades romanas, que a maioria dos bispos tinha frequentado, receberam instalações novas e impressionantes. O Tratado de Latrão, com Benito Mussolini, firmado em 1929, terminou com os "Estados Pontifícios" e a disputa com a Itália e deu autonomia geral ao Vaticano. A concordata com o Reich, em 1933, prejudicou sua reputação, mas Pio despertou para os males do nazismo e condenou o comunismo.

Nunca se disse que todos esses papas eram sagrados. Mas eram grandes. Grandes homens em organização. Era a organização, a centralização do poder, que importava, ainda mais, talvez, do que a santidade da mensagem. Nove grandes monarcas — de um total de 266 até hoje. Todos com algo em comum: o poder de reprimir e punir quem os desafia.

O poder era inabalável na medida que os de fora da cultura mas ainda em dívida com ela poderiam ser levados a acreditar que a cultura (ou seja, a Igreja de Roma) era o caminho para a salvação e para chegar ao céu.

O que afetou essa cultura foi a primazia — no Concílio Vaticano II (1962-65) — dada à Eucaristia e às Escrituras.

Os católicos comuns começaram a ver por si mesmos o caminho para onde ia a salvação.

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

O que aconteceu com a Igreja Católica? - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV