Manifestação jovem de Porto Alegre. Uma crítica à instrumentalização da vida. Entrevista especial com Carlos Gadea

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11 Abril 2013

“As mobilizações, como a dos jovens em Porto Alegre, são resultante de uma crítica a um presente que, paradoxalmente, supõe maior interconexão entre os indivíduos, mas também uma concomitante ‘despersonalização’ e ‘instrumentalização da vida’”, diz o sociólogo.

Confira a entrevista.


Apesar de os protestos recentes por causa do aumento do preço das passagens em Porto Alegre terem semelhanças com as manifestações do 15M e Occupy Wall Street, eles têm “uma ‘energia’ particular, motivações concretas e uma complexidade própria do seu contexto de aparição”, avalia Carlos Gadea, em entrevista concedida à IHU On-Line por e-mail. “Considero que mais do que em relação direta com essas mobilizações, a ação coletiva de jovens (e que, no decorrer da sua experiência, foi somando a não tão jovens) contra o aumento do valor das passagens de ônibus se vincula muito mais com um contexto de mobilizações recentes (em nível nacional e local) que abordaram diversas temáticas: as ações contra o racismo e a homofobia no país, a ‘Marcha das Vadias’, o ‘ativismo em rede’ no espaço virtual, a mobilização em torno ao Museu do Índio de Rio de Janeiro e, não esqueçamos, o ‘ensaio’ mobilizatório em torno ao ‘Tatu Bola’ e a sua presença no espaço do centro de Porto Alegre, simbolizando uma ‘privatização’ do espaço público e uma violação ao direito à circulação”, explica.

Para o sociólogo, as manifestações de jovens em todo o mundo “traduz um verdadeiro ecletismo de referências, valores e ideias”. E “o aparente slogan sobre o anticapitalismo e o que difusamente se compreende por antineoliberalismo na sua discursividade soam como peças acessórias”. E dispara: “O importante a ser lido está em outro lugar: esse ecletismo se desdobra em duas motivações práticas de enorme significado interpretativo acerca do que representam as atuais ações coletivas e, em particular, a mobilização dos jovens em Porto Alegre. Por um lado, como sendo um sinal de ‘driblar-se’ de um agir político (nacional) em que parece primar o consenso (entendido como perverso, na medida em que impossibilita a possibilidade do dissenso), o escasso debate político e certos ‘silêncios’ e ‘quietismo’ próprios da ‘era do PT’. Creio não entender-se este fenômeno equivocadamente quando se percebe que estas mobilizações surgem do diagnóstico realizado por muitos do próprio esvaziamento do ‘espaço da esquerda’ na gestão da política por parte de certas instâncias de governo”.

Carlos A. Gadea (foto abaixo) é doutor em Sociologia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC. É professor do PPG em Ciências Sociais da Unisinos.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Que ações coletivas emergem dos atores sociais como Occupy Wall Street e o 15M da Espanha? Qual a novidade dessas manifestações?

Carlos A. Gadea
– Embora se tenha interpretado como ações coletivas semelhantes nas suas estratégias e “indignações”, e derivadas de um contexto de crise econômica mundial (em especial, nos Estados Unidos e na Espanha), Occupy Wall Street e o 15M são respostas diferentes a situações parecidas. Enquanto o primeiro ocupa um espaço da cidade identificado como o centro financeiro mundial, recorrendo a acusações e demandas em torno da corrupção, da ganância, do lucro e da desigualdade econômica e social logo após os escândalos da crise de 2011, o 15M da Espanha parece mais um “experimento de mobilização” que pretende ir além dos próprios eixos aglutinadores, ou seja, da crise financeira do país, que mantém no desemprego milhões de jovens. Certamente as duas ações parecem fazer parte dos “ares” de mobilizações que se iniciaram com a “Revolução egípcia” de começos de 2011, e a posterior queda de Hosni Mubarak como presidente de Egito.

O ano de 2011 foi marcado como um ano de múltiplas demonstrações nas ruas de diferentes atores coletivos “indignados” com a economia e a política. Mas Occupy Wall Street, embora significativamente populoso, parecia mais “performático” e menos massivo que o 15M da Espanha. Por outro lado, Occupy Wall Street transmitia uma ética anticapitalista mais convincente que a dos jovens do 15M, apesar da preocupação destes em demonstrar o contrário. No início, Occupy Wall Street apresentou-se como sendo mais global: os manifestantes “viviam” cotidianamente sua indignação anticapitalista como uma prática política que entrelaça diversas formas alternativas de existência, talvez reeditando os embalos culturais dos anos 1960. Não é necessariamente o resultado de movimentos sociais precedentes, como podem ser o feminismo radical ou o ambientalismo organizado, embora esses temas apareçam muito na sua agenda.

Existe muito das demandas por uma construção subjetiva “alternativa” ao materializado pelo “modelo capitalista vigente”, questionando, em corrupção econômica e financeira, a sua fase perversa e a sua lógica de tornar indivíduos “meros consumidores” e alvos da “manipulação da mídia”. Como ficou evidenciado, o Occupy Wall Street carecia de líderes visíveis e de organização política delimitada: a prática do “assembleísmo” pelos cantos da cidade, em cada localidade, traduzia o interesse por “construir uma sociedade melhor” na luta por “mais” democracia e pela tomada de decisões econômicas e políticas de maneira coletiva, desligada do “império do dinheiro”. Dizem muitos que a “reificação do assembleísmo”, a sua eventual materialização numa nova utopia de participação horizontal, acabou desdobrando-se em gesto pouco atraente e em gerador de certo desgaste interno. Esgotou-se, aparentemente, logo após as diferenças se tornarem pluralidade na ação.

Entretanto, o 15M pareceu mais pragmático: é o resultado da perda de certos direitos e benefícios sociais e econômicos de décadas, consequentes com medidas políticas que pareciam estar em sintonia com o “fim da festa” da classe média espanhola. Não se pode esquecer, na hora da análise, que desde os anos 1990, por exemplo, os níveis de consumo, as facilidades do crédito e, por consequência, a bolha financeira, estavam já pautando um futuro nada promissor para sociedades europeias que não pareciam perceber seu endividamento (o caso da especulação imobiliária foi sintomático).

Primavera espanhola

Assim, quando o ano 2011 atinge a sua primavera espanhola, jovens tomam as ruas misturando criativamente demandas na ordem do econômico e do político. A riqueza cultural e estética estaria ao serviço de uma “politização da sociedade” que não conhecia grandes antecedentes. Lembre-se que os anos 1980 e a “abertura cultural” espanhola (conhecida como “el destape español”, sendo no cinema o diretor Pedro Almodóvar um claro exemplo) tangenciava a crítica ao modelo econômico “arcaico” do país no contexto europeu, ao mesmo tempo em que as demandas por democracia e participação confluíam nos esforços políticos (via institucional) do Partido Socialista Obrero Espanhol (PSOE). Nesse caso, o 15 de maio de 2011, como reação esperada às medidas contra as políticas de austeridade econômica, vistas como condescendentes com a defesa do capital financeiro, precipitou mobilizações massivas que tiveram lugar em vários pontos. Jovens, na sua maioria, ocuparam as ruas e o espaço vazio deixado pela política tradicional. Autoassumidos como “apolíticos”, no sentido de estar de costas à política clássica e institucional, os “indignados” da Espanha pareciam dar continuidade aos Occupy Wall Street, embora se pareçam mais aos jovens da “Primavera árabe”. Novidades do 15M são: “estetização da política”, juvenilização do espaço público, debate sobre democracia e participação, “menos grupalismo” sociocultural e político e estratégia de comunicação sob o paradigma da conexão e a rede. Na metodologia da sua convocatória radica grande parte da sua eficácia simbólica e discursiva: a “rede” é o espaço não só da comunicação; instituiu-se como um paradigma da política do século XXI. Até alguns ativistas do 15M falam de “inteligência coletiva”, citando a utopia pressagiada por Pierre Lévy na sua “cibercultura”.

IHU On-Line – O senhor aponta que as diferentes manifestações sociais que ocorrem em diversos países têm como denominador comum as “experiências de conflito sob a linguagem da violência”. Pode explicar essa compreensão? Por que essas experiências ocorrem sob a linguagem da violência?

Carlos A. Gadea
– Não necessariamente a violência deve ser entendida como a “quebra da ordem” ou o “fim da relação”, mas sim como o que possibilita o estabelecimento de uma certa ordem ou relação. O conflito político desregulado, ou seja, como emergente da imprevisibilidade dos espaços não institucionais de expressão e participação política, parece estar constituindo o formato mobilizatório atual. Quando uma ação coletiva é precedida pela formação dos atores em situação de antagonismo, a relação de conflito só evidencia uma espécie de “dança dos contrários”, em que cada um dos atores se movimenta num mesmo patamar de discursividade previamente acordado como válido, um terreno claro de disputas. Paradoxalmente, o jogo da vida democrática deixou de fora agendas e temáticas variadas e hoje recuperadas, e que só apareciam tratáveis nos limites do sistema político que, por sinal, goza de escassa legitimidade, pouca estima estética e baixa qualidade. Assim, quando uma aparente mobilização surge em prol de demandas concretas, deve-se compreender que não é resultado de uma oposição clara (ao Estado, à prefeitura, ao capitalismo, ao neoliberalismo, à “cultura careta”, às “empreiteiras”, aos empresários do transporte, e a lista continua), e sim de uma multiplicidade de eventuais opositores, todos confluentes numa indignação comum. Existe, sim, um tema aglutinador, mas um ou vários antagônicos “em potencial”.

Assim, a partir da violência e a visibilidade consequente se torna possível estruturar um antagônico claro (o comportamento policial é fundamental nisso) e, fundamentalmente, uma identidade coletiva (uma “experiência coletiva de conflito”) que encontrou seu eixo discursivo estruturante. A violência tem poder de aglutinar, de formar um “nós contra eles”. A violência tem uma capacidade simbólica e comunicacional que possibilita o ingresso de outros atores no rodeio, da população, da opinião pública e da mídia (outro importante ator na cena). Mas a violência, nestes casos, é só fundacional. Ela se dissolve, pois não é funcional à lógica mobilizatória após a sua estruturação e posterior desenvolvimento. Em definitivo, a violência deve ser entendida como linguagem possível dentro de um sistema semântico (politicidade) que exclui expressões e demandas que não fazem parte do cardápio de demandas e identidades “possíveis” ou “passíveis” de ocupar espaços políticos.

IHU On-Line – Como avalia os protestos que ocorreram em Porto Alegre por conta do aumento do valor das passagens de ônibus? Como esta manifestação pode ser compreendida na conjuntura atual e em que medida ela se assemelha ou diferencia das manifestações que ocorrem em outros países?

Carlos A. Gadea
– As manifestações recentes de jovens em Porto Alegre têm certos nexos com as de Occupy Wall Street e 15M da Espanha. Digamos que compartilham estratégias mobilizatórias semelhantes, como o uso das tecnologias da informação e da comunicação (Facebook, Twitter, celular, etc.) para realizar as suas convocatórias de mobilização. Também alguns temas nas reivindicações se repetem, bem como a “estética”, num sentido geral, também parecem lembrar o ano de 2011 nos Estados Unidos e na Espanha. Mas tem uma “energia” particular, motivações concretas e uma complexidade própria do seu contexto de aparição. Considero que mais do que em relação direta com essas mobilizações, a ação coletiva de jovens (e que, no decorrer da sua experiência, foi somando a não tão jovens) contra o aumento do valor das passagens de ônibus se vincula muito mais com um contexto de mobilizações recentes (em nível nacional e local) que abordaram diversas temáticas: as ações contra o racismo e a homofobia no país, a “Marcha das Vadias”, o “ativismo em rede” no espaço virtual, a mobilização em torno ao Museu do Índio de Rio de Janeiro e, não esqueçamos, o “ensaio” mobilizatório em torno ao “Tatu Bola” e a sua presença no espaço do centro de Porto Alegre, simbolizando uma “privatização” do espaço público e uma violação ao direito à circulação. Ou seja, existem certos “experimentos” que, para muitos, representam uma “reativação da sociedade”.

Fora de fronteiras, as mobilizações de estudantes chilenos em Santiago de Chile, bem como a iconografia emanada do movimento neozapatista do México, somam ingredientes importantes para a sua compreensão. De fato, dos indígenas neozapatistas herdam a estética do lenço que cobre metade do rosto, associado à ética do compromisso e da “resistência”, valores cultuados por estes jovens. Pode-se dizer que, em termos gerais, tais mobilizações representam um sintoma de múltiplas “indignações morais” geradas por um “sentimento de injustiça”. São, de certa maneira, o produto da militância juvenil de “Diretórios acadêmicos” de diferentes universidades da região, de certos partidos políticos “à esquerda” do cardápio eleitoral (PSTU, PSOL, etc.), de grupos “politizados” nas reflexões do anarquismo orgânico ou “libertário”, adeptos à autogestão social e ao comunitarismo multicultural.

Às vezes nada disso parece contemplá-los. Fazem parte também do embalo de inquietações individuais que não necessariamente emergem e se expressam ao interior de organizações políticas ou sociais; e todos, individualmente, emergem do imaginário político e discursivo “antiditadura militar” de décadas atrás, base histórica de sustentação crítica a uma “cultura opressiva”. A mobilização destes jovens traduz um verdadeiro ecletismo de referências, valores e ideias. Por isso, e sabendo que muitos não compartilhariam do meu diagnóstico, o aparente slogan sobre o anticapitalismo e o que difusamente se compreende por antineoliberalismo na sua discursividade soam como peças acessórias (o que não quer dizer que não façam parte das suas inquietações).

O importante a ser lido está em outro lugar: esse ecletismo se desdobra em duas motivações práticas de enorme significado interpretativo acerca do que representam as atuas ações coletivas e, em particular, a mobilização dos jovens em Porto Alegre. Por um lado, como sendo um sinal de “driblar-se” de um agir político (nacional) em que parece primar o consenso (entendido como perverso, na medida em que impossibilita a possibilidade do dissenso), o escasso debate político e certos “silêncios” e “quietismo” próprios da “era do PT”. Creio não entender-se este fenômeno equivocadamente quando se percebe que estas mobilizações surgem do diagnóstico realizado por muitos do próprio esvaziamento do “espaço da esquerda” na gestão da política por parte de certas instâncias de governo.

Como principal contrapartida a esse “quietismo”, na mobilização se manifesta uma “estetização do conflito”, uma espécie de semântica mobilizatória, em que vidros quebrados da prefeitura, passagens por determinados pontos da cidade (em referência ao viaduto da entrada a Porto Alegre) e a chuva intensa molhando os cabelos, rigorosamente registradas pelos celulares e logo circulando pela internet, instituem-se em imagética de conteúdo estético imprescindível para alimentar a identidade coletiva em projeção. Mas também se trata de um conflito sob os auspícios das imagens e nomenclatura que a “grande mídia” fez circular, gerando um paradoxo de efeitos surpreendentes: esta mídia foi correndo a ocupar o espaço da direita política fazendo uso de um argumento obsoleto e já caduco, “criminalizando” a mobilização e, nesse gesto, foi quem primeiro pareceu reivindicar a “luta de classes”. Algo que estaria previsivelmente no repertório da mobilização terminou materializando-se, erraticamente, na “grande mídia” local.

A estratégia equivocada da mídia foi tal que ninguém parecia dar crédito aos seus editoriais e esforços televisivos, demonstrando que não aprendeu nem sequer da ironia e o maniqueísmo de programas massivos como o Big Brother. Por outro lado, existe uma dimensão que reiteradamente se tenta negligenciar ou, em seu defeito, tornar uma variável secundária, acessória, sem relevância. Não considero equivocado que se compreendam mobilizações, como a dos jovens em Porto Alegre, como resultante de uma crítica a um presente que, paradoxalmente, supõe maior interconexão entre os indivíduos, mas também uma concomitante “despersonalização” e “instrumentalização da vida”. Embora parecesse algo extremamente filosofal (risos), é importante destacar isso.

Explico: estes jovens mobilizados fazem parte de uma geração com limitado “capital político” (se comparado com o das gerações anteriores; o que não quer dizer que não estejam informados sobre os devaneios da prática política. Espero que não se interprete mal esta constatação e se capte o sentido aludido aqui), com um “capital cultural” médio, mas, fundamentalmente, com um altíssimo “capital social”. Inseridos no ambiente de ascensão da heterogênea classe média do país, alguns têm se ideologizado “às pressas” para, justamente, conseguir dar conta do seu “capital social”.

Compreende-se por “capital social” as capacidades de garantir benefícios e, neste caso, capacidade mobilizatória e de identidade política em virtude da pertença a redes de relações heterogêneas e diversas, à “estrutura de relações” que possibilitam a circulação da informação necessária para o agir “politizado” e “engajado”. Brincando com as metáforas, pareceria que estes jovens passaram da clássica “consciência de classe” para a “consciência de rede”. Nesse clima, toda a nomenclatura atual, que na lógica do mercado de trabalho e nos institutos de ensino aluda à “gestão” e administração da própria vida, soa como frio mecanicismo que engole o direito a um “bem viver”. Em definitivo, esse componente crítico da cultura que circula materializado no “capital social” é de indubitável significado, fora os alinhamentos políticos ou adesões a organizações ao interior da mobilização. Atualmente, tudo indica que aquelas mobilizações em Porto Alegre parecem dar sequência à criação do denominado “Bloco de Luta pelo Transporte Público”, sendo o Facebook um dos principais canais de expressão e comunicação. A “consciência de rede” não se esgotou.

IHU On-Line – Movimentos como o dos indignados e Occupy Wall Street apresentam uma postura contra a violência, tanto que divulgam informações nas redes sociais quando são agredidos. Há, nesse sentido, uma tentativa de romper com a violência nas manifestações coletivas, ou esse ainda é um “ingrediente” importante na construção do sentido social das ações coletivas?

Carlos A. Gadea
– Quando se menciona que a violência se torna um elemento importante no estabelecimento de uma relação de conflito e na possibilidade de dar forma a um ator coletivo, não necessariamente quer dizer que seja por meio dela que uma ação coletiva, no seu agir, vai se expressar. Ela cumpre, sob determinadas situações, um papel central como linguagem, como uma carga simbólica na delimitação de um cenário de conflito. Certamente, o 15M e o Occupy Wall Street não são experiências coletivas que têm dado sequência em torno de um conflito sob a linguagem da violência. É que adquirida uma identidade coletiva, a violência deixa de ser funcional à mobilização. Por isso, nestes movimentos ou mobilizações a violência como linguagem do conflito dá lugar a um conflito cuja linguagem é a rede. A ação coletiva, nesse caso, transita por outra etapa: a sua proliferação através da expansão das “redes de relações”. Isso evidencia que nestas mobilizações a violência, em si mesma, não tem nenhum sentido.

IHU On-Line – É possível romper com essa lógica de violência nas manifestações sociais?

Carlos A. Gadea
– Importante deixar claro algo que a violência não pode ser entendida como simplesmente o “fim de uma relação” qualquer; nesse caso, daquilo que se define a priori como “os mobilizados” e a “realidade instituída”. Contrariamente, é quando estes se encontram no momento da sua máxima aproximação. Assim, cuidado com ponderar a possível violência dos mobilizados, e as adjetivações imprecisas acerca de que determinados manifestantes são violentos, tal qual uma categoria inerente daquele que se mobiliza ou protesta. Não há necessariamente isso. Existem, sim, “experiências coletivas” que podem se valer da violência para estabelecer-se uma relação de conflito. Mas é uma linguagem, e as ações coletivas, na sua estratégia e identidade, alternam linguagens variadas, próprias da experiência política e social nas que se vêm envolvidas. Aprofunda-se isso num artigo publicado há não muito tempo por mim. [1]

Nota:
[1]
Gadea, Carlos A. (2011), “A violência e as experiências coletivas de conflito” in Revista Crítica de Ciências Sociais, Coimbra. Acessar em: http://rccs.revues.org/3980.

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