Primavera Árabe de 2012: mais tempestades do que flores

Revista ihu on-line

Gauchismo - A tradição inventada e as disputas pela memória

Edição: 493

Leia mais

Financeirização, Crise Sistêmica e Políticas Públicas

Edição: 492

Leia mais

SUS por um fio. De sistema público e universal de saúde a simples negócio

Edição: 491

Leia mais

Mais Lidos

  • Na China, “a problemática da ecologia, vista como um luxo, choca-se com a do emprego, que é vita

    LER MAIS
  • Na ONU, Brasil ignora acusações e faz discurso chapa branca sobre questão indígena

    LER MAIS
  • As FARC apóiam o processo de paz

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Por: Cesar Sanson | 14 Janeiro 2012

A relação do Ocidente com o Oriente Médio é antiga e sempre teve como base os interesses da Europa e, mais recentemente, dos EUA. 2012 será de grande complexidade para a região. Salvo melhor juízo, será menos “primavera” e mais “outono”, repleto de tempestades. E serão as forças do Ocidente, principalmente os EUA, que definirão a velocidade da democratização e a reconquista da dignidade do mundo árabe. Mas, apenas se for conveniente ao seu próprio projeto. O comentário é de Mohamed Habib, professor da Unicamp e Vice-presidente do Instituto de Cultura Árabe (ICArabe) e publicado pelo sítio Carta Maior, 13-01-2012.

Eis o artigo.

Quando o tunisiano Mohamed Bouazizi ateou fogo no próprio corpo num gesto de protesto, acabou, sem querer, acendendo as chamas de revoltas populares em vários países árabes. Uma análise coerente dessas revoltas e suas perspectivas para 2012, deve considerar duas questões : a geopolítica e a econômica. Além disso, as interferências externas, em especial as do Ocidente dominante, que influenciam cada país do mundo árabe.

A relação do Ocidente com o Oriente Médio é antiga e sempre teve como base os interesses da Europa e, mais recentemente, dos Estados Unidos. A fase atual, é resultado dos interesses do Ocidente pós Primeira Guerra Mundial e envolve a localização e os recursos energéticos do mundo árabe. Os EUA, 3º maior produtor de petróleo e 2º maior de gás natural do planeta, não é visto como produtor e sim como grande consumidor, pois precisa do dobro da sua produção para garantir seu padrão de vida. A Europa, por sua vez, depende fortemente do gás e do petróleo árabes, principalmente da Líbia.

Para manter o consumo energético nos países árabes em cerca de 3%, foi crucial a criação de governos tiranos e/ou corruptos, protegidos pelo Ocidente, para governar os povos da região. Os países árabes foram agrupados em duas categorias, os produtores e os não produtores de petróleo e gás natural. Os primeiros propiciaram um padrão sócio-econômico mais confortável ao seu povo, ao passo que os segundos, ofereceram a miséria e a opressão. Ambos tinham em comum o estabelecimento de regimes não democráticos e de não desenvolvimento.

O Egito, um país rico por sua agricultura, turismo, pedágio do Canal de Suez e indústria, conta hoje com mais de 42% de seu povo abaixo da linha da pobreza e uma dívida externa de 32 bilhões de dólares. Com o sucesso dos levantes populares, a mídia britânica revelou que o ditador Mubarak, em 30 anos de poder, acumulou mais de 70 bilhões de dólares em bancos europeus. O Egito é considerado estratégico, pois em 42 anos, tanto Sadat quanto Mubarak, foram importantes interlocutores e representantes dos interesses do Ocidente e de Israel no Oriente Médio. Além disso, o Canal de Suez, que liga o Mediterrâneo com o Mar Vermelho, é de grande importância para as navegações bélicas e comerciais.

A Líbia é fundamental para o abastecimento energético da Europa, o que justifica a intervenção da OTAN e a participação na queda e na morte de Kaddafi. Uma situação equivalente à intervenção dos EUA no Iraque e à morte de Saddam Hussein. O Iêmen, embora um país pobre, possui localização geográfica que permite total controle das navegações marítimas na conexão do Mar Vermelho com o Golfo de Aden e o Oceano Índico. O ditador Abdullah Saleh, que após meses de protestos e muita violência contra seu povo, terminou saindo no final de 2011, não sem antes deixar o seu vice-presidente no comando do estado que continua baixando a repressão. Saleh é um aliado fiel do Ocidente e dos monarcas da Península Arábica.

O que ficou claro nas declarações do o embaixador dos EUA naquele país, que classificiou de “provocações desnecessárias” as manifestações civis contra o regime e os seus assassinatos. A Síria não conta com recursos energéticos no seu território e sua localização geográfica não tem grandes significados geopolíticos. No entanto, Síria e Irã representam as últimas duas bases de aliados do eixo Rússia-China, que representam forças antagônicas aos EUA.

No início dos levantes árabes, EUA e Europa não expressavam suas preocupações e declararam apoio aos ditadores. Com o crescimento dos movimentos e o enfraquecimento dos regimes, o Ocidente passou a apoiar os movimentos, fornecendo armas e proteções aéreas. Um exemplo marcante é o apoio dos EUA à Junta Militar que governa o Egito atualmente. Os EUA não só silenciam diante dos massacres das últimas semanas contra os manifestantes civis, como também fornecem armas para essa opressão. As forças armadas, que assumiram o comando temporariamente após a queda do ditador Mubarak, tentam manobras desesperadas para continuar no poder. Porém, esta é uma situação que a sociedade egípcia não mais aceitará.

Diante deste quadro, 2012 será de grande complexidade para o Oriente Médio. Salvo melhor juízo, será menos “primavera” e muito mais “outono”, repleto de tempestades e destruições. E serão as forças do Ocidente, principalmente os EUA, que definirão a velocidade da democratização e a reconquista da dignidade do mundo árabe. Mas, apenas se for conveniente ao seu próprio projeto.