Por que odeiam as mulheres. Artigo de Massimo Recalcati

Foto: Wikimedia Commons

25 Agosto 2021

 

"O regime fundamentalista talibã revela sua essência neste impulso sexofóbico: o ódio às mulheres é ódio ao mundo. Se o mundo é lugar da abertura, da troca, das ligações, da contaminação, do pluralismo, da liberdade, a mulher é por excelência o símbolo do mundo. É por isso que a alteridade da mulher é considerada pelos talibãs homóloga ao anarquismo da democracia", escreve Massimo Recalcati, psicanalista italiano e professor das Universidades de Pavia e de Verona, em artigo publicado por La Repubblica, 24-08-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

No drama do Afeganistão, o ódio sexofóbico machista contra as mulheres adquire o valor programático de uma política persecutória. A eliminação das imagens de mulheres na cidade de Cabul foi uma manifestação eloquente disso. Mas ainda mais a caça sistemática, casa a casa, não só de mulheres que se rebelam contra o regime não estando dispostas a abrir mão das liberdades adquiridas nos últimos anos, mas também de todas aquelas mulheres ainda não vinculadas a uma família - nem mães, nem esposas - que são, portanto, caçadas simplesmente por serem mulheres.

 

 

O pressuposto ideológico que sustenta esse programa é desconcertante em suas evidências: as mulheres são ontologicamente uma fonte de corrupção e, como tal, uma perigosa ameaça à afirmação de um sistema de poder governado apenas por homens. Essa perseguição assume os traços que o Ocidente conheceu na época infausta da caça às bruxas. Em sua base, agora como então, uma pulsão sexofóbica que não tolera a existência da mulher como encarnação da liberdade. A bruxa ontem, a mulher corrompida pelo Ocidente hoje.

 

O regime fundamentalista talibã revela sua essência neste impulso sexofóbico: o ódio às mulheres é ódio ao mundo. Se o mundo é lugar da abertura, da troca, das ligações, da contaminação, do pluralismo, da liberdade, a mulher é por excelência o símbolo do mundo.

 

 

É por isso que a alteridade da mulher é considerada pelos talibãs homóloga ao anarquismo da democracia.

 

Toda ideologia, como Hannah Arendt mostrou, tende fanaticamente a abolir a vida particular do mundo, no nome universal da Ideia. Toda ideologia gostaria de dobrar o caráter plural do real, assimilando-o sem restrições ao seu próprio ideal. É por isso que toda ideologia é, em suas raízes, pré-política, tribal, fanática. No caso do regime talibã, a perseguição da mulher como símbolo da liberdade do mundo ocorre em nome de uma ideologia religiosa governada por um indestrutível fantasma de pureza.

 

 

A democracia, como a mulher, é o verme que pode corroer o valor incontaminado da Ideia. O domínio da Ideia deve de fato se impor como absoluto. Por isso, quem se sente investido de um mandato ideológico não conhece pietas, ternura, sensibilidade, literalmente não tem coração. A pureza da ideologia é mineral, divide o mundo de uma forma maniqueísta em puros e impuros, bem e mal. E nesse esquema, para o fundamentalismo talibã, as mulheres estão obviamente, como a democracia, do lado da impureza e do mal. Porém, como sabemos pela lição da psicanálise, é o ideal de pureza que sempre exige a existência do impuro. No caso específico, a liberdade sexual – basta pensar na condição igualmente ferozmente perseguida das comunidades LGBTQ - condensa a impureza que o delírio talibã deve poder esconjurar a todo custo.

 

 

Por quê? Porque a fúria persecutória contra as mulheres remove seu oposto pulsional: o paraíso cobiçado pelos militantes talibãs é habitado por mulheres virgens que se oferecem sem quaisquer restrições. Como a clínica psicanalítica colocou em evidência, em toda grave fobia existe uma atração profunda por aquilo que se rejeita com mais veemência. Também o Ocidente ainda não superou completamente essa dinâmica que marca toda forma ideológica de racismo. Se podemos considerar o nosso tempo como um tempo politicamente pós-ideológico, nunca deveríamos esquecer o caráter radicalmente pré-político e pulsional da ideologia que dá origem à existência de fato de inúmeros blocos ideológicos de tipo étnico, religioso e cultural.

 

 

Aquele sexofóbico é um deles. Por que, para dar apenas um exemplo, a Igreja Católica em face do massacre feminicida do Afeganistão não subverte definitivamente sua ordem patriarcal habilitando plenamente as mulheres para o exercício do culto? É um fato cada vez mais evidente: o chamado tempo pós-ideológico em que nos encontramos preserva a existência de formas ideológicas pré-políticas nas quais o juízo moral antecipa e orienta aquele político. Por isso, deveríamos sempre reiterar que o sexo da democracia é feminino porque lembra a cada uma de nós, como só um pensamento autenticamente feminino pode fazer, que não existe política digna desse nome que trascure em nome do universal abstrato da Ideia o cuidado concreto pela vida em sua singularidade insacrificável.

 

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