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18 Agosto 2021

 

"Construímos uma cultura de papel de seda para nos separar do sofrimento e da morte. Visões que definimos como impensáveis a destroem. Aqueles pontinhos que caem, quem são? Eles permanecem no desconhecido", escreve Gabriele Romagnoli, jornalista e escritor italiano, em artigo publicado por la Repubblica, 17-08-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo. 

Aqueles dois homens que caem do trem de pouso do avião que decola de Cabul precipitam em um trágico círculo da história, sem rede, com vinte anos de largura. A todos lembraram outros que, em 11 de setembro de 2001, se atiraram para não queimar dentro das torres gêmeas. Todos eles, agora e então, fugiam de uma morte lenta: eles não escolhiam uma impossível salvação, mas apenas um fim mais rápido.

Vinte anos atrás, os aviões portadores de morte atingiam Nova York. Eles haviam partido de outras cidades dos EUA, mas na realidade de muito mais longe, das bases da Al Qaeda no Afeganistão, onde aqueles atos de terror haviam sido planejados.

Agora, outros aviões tentam uma rota semelhante, da capital afegã rumo ao Ocidente, mas para fornecer abrigo para os poucos que conseguiram subir a bordo. A intenção é diferente, o resultado é parcialmente o mesmo: pequenas existências são descarregadas. O céu os rejeita, reivindicação sem fundamento. A terra os atrai, seu campo de gravidade é um destino letal. Falamos que aqueles corpos estão em “queda livre” e nunca houve uma expressão mais mistificadora. Deixam-se cair porque já são prisioneiros de um futuro inaceitável para cujo desígnio não contribuíram. Eles o fazem por uma forma de desespero paradoxalmente menor.

Os sobreviventes na retirada da Rússia contam que "era mais fácil deixar-se morrer": colocava um fim ao cansaço e à dor. Passavam por cadáveres com rostos pacificados, avançando para uma vida que nunca os levaria para longe daí, na depressão dos dias e no tormento das noites. O maior desespero é deles, de todos aqueles que se entregam à história como promessa, senão como ressarcimento, que se tornam refugiados, órfãos, viúvas para serem testemunhas e dizer que “não se repetirá”.

Em vez disso, acontece novamente. Vinte anos não é nada, é um farfalhar de páginas, mas para trás. Revemos vídeos semelhantes, precedidos por escritas que induzem a cautela para que "nossa sensibilidade não seja ofendida". Pobres estrelas. Também por isso não nos foi dito muito sobre o que estava acontecendo. Em algum momento ficamos sabendo que os "nossos" estavam indo embora. Depois que os "maus" estivessem voltando, chegariam em três meses, talvez um: já estavam ali. Vivemos tragédias que marcam época, mas nunca conseguimos imaginar o pior: que as torres desabarão, que Cabul não resistirá.

Construímos uma cultura de papel de seda para nos separar do sofrimento e da morte. Visões que definimos como impensáveis a destroem. Aqueles pontinhos que caem, quem são? Eles permanecem no desconhecido. Porque batem no chão e nos dão a graça de se tornarem irreconhecíveis: não damos a eles um nome, uma história, um emprego das 9 às 5, um casamento recente, uma paixão constante. No entanto, eles precipitam em um vazio que deveríamos conhecer porque contribuímos para criá-lo em vinte anos desperdiçados, ida e volta para não consertar nada, para não criar nada. Impotentes, protegemo-nos por trás da arte, evocamos Golconda de Magritte ou Falling Man de DeLillo, do qual vale a pena reescrever esta frase: "Ninguém sabia o que sabiam no último minuto de clareza, antes do fim de tudo". A suspeita é que lá de cima viram a história se perseguindo em um círculo ao redor de um abismo.

 

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