Cabul não é Saigon: o futuro do Afeganistão

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19 Agosto 2021

 

"Se a retirada dos EUA do Afeganistão irá favorecer um concerto asiático sobre os destinos desse país - preservando a Caxemira das chamas do ISKP e os desventurados vizinhos muçulmanos chineses - os uigures - dos confrontos, assim como as crianças xiitas de outros massacres, pelo menos a realpolitik poderá involuntariamente se resignar a uma perspectiva menos odiosa do que possa parecer hoje em dia", escreve Riccardo Cristiano, jornalista italiano e fundador da Associação de Amigos do Pe. Paolo Dall’Oglio, em artigo publicado por Settimana News, 18-08-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.


Eis o artigo.

 

Uma imagem enganosa, mas sugestiva, poderia ter distorcido nosso critério de avaliação do que aconteceu em Cabul: é a imagem do helicóptero na embaixada dos EUA que imediatamente relembrou o que aconteceu em Saigon.

Estabelecer esse paralelo, no entanto, dada a natureza ideológica do antigo conflito vietnamita, sugere que a intervenção militar no Afeganistão foi determinada pelo destino das mulheres afegãs ou dos jovens afegãos sob o governo dos talibãs.

 

Mapa do Afeganistão e países próximos. (Foto: Viagens e Beleza)

 

E, em vez disso, essa intervenção - como todos deveríamos saber - foi determinada pelas pulsões políticas estadunidenses contra Bin Laden e a sua Al Qaeda: prevenção do terrorismo e clara vingança. Portanto, se em Saigon um povo havia derrotado um desígnio colonial, algo muito diferente acontece em Cabul. O destino infausto dos refugiados – que vemos agora em nossas telas - confirma isso.

A percepção deliberadamente errônea remove a imagem - de sinal oposto, mas também significativa - da retirada soviética da mesma Cabul. A propaganda soviética havia exaltado nos cinemas que o regime de Najibullah abria as portas de Cabul, trazendo a modernidade.

Mas o verdadeiro objetivo - pelo qual muitos jovens russos morreram - não era outro senão a conquista, do interior frio, dos tão desejados "mares quentes". Contra aquele desígnio soviético, Washington armou os "combatentes da liberdade", entre os quais cresceu Osama Bin Laden, que em 2001 os estadunidenses iriam procurar nas cavernas de Tora Bora. Só foi encontrado anos depois, no Paquistão.

 

O globalismo do Islã asiático

 

Assim - se nos referimos à realidade e não aos desejos - a comparação entre Saigon e Cabul deve agora ser relida à luz de outra pergunta: ainda existe al-Qaeda? Ainda existe o espectro do terrorismo internacional, capaz de atingir os Estados Unidos e o Ocidente?

A resposta mais conhecida e convincente - para quem lida com a inteligência - é que as cotações da Al-Qaeda despencaram e ela foi parcialmente substituída pelo rival Estado Islâmico do Khorasan (ISKP). Este seria a costela asiática do Isis que, ao contrário da Al-Qaeda, anseia pela constituição de um estado islâmico global que reúna todos os muçulmanos do mundo sob o mesmo governo "subversivo".

O ISKP existe há anos e foi no passado muito mais forte do que é hoje: seu objetivo é criar um conflito com o Irã xiita - falando para a dor de todos os sunitas - estendendo a insurgência em direção ao Oriente, para a Caxemira e a Índia, onde o ISKP está presente, para incorporar as questões locais em uma grande questão insurrecional asiática.

Não é por acaso que muitos de seus comunicados à imprensa são transmitidos em urdu, língua muito difundida na Índia. O golpe mais devastador atribuído ao ISKP foi o massacre de crianças xiitas - cerca de cem da etnia hazara - em uma escola em Cabul, em maio deste ano. Em 8 de junho de 2021, houve a reivindicação do ataque a uma ONG em Baghlan, que custou a vida a dez pessoas. O ISKP também já havia atingido a Universidade de Cabul.

Tudo isso, por alguns, foi atribuído aos talibãs, por outros, interpretado como manobras de aparatos desviantes com a intenção de mostrar o ISKP como um aliado do Talibã. O fato é que muitas fontes concordam que o ISKP tenha aumentado recentemente seus ataques, apesar das pesadas perdas sofridas de 2015 a 2016, e justamente após a assinatura dos Acordos de Doha entre o Talibã e os Estados Unidos.

 

O localismo dos talibãs

 

A avaliação mais simples dessa concentração de atentados do ISKP em grandes cidades para obter maior visibilidade e o "melhor" impacto de imagem, também confirmaria que os talibãs realmente mudaram do ponto de vista político, embora, do ponto de vista social, eles ainda continuem os mesmos da época do Mulá Omar.

A sua escolha parece ser justamente a de obter o reconhecimento internacional do emirado afegão, uma linha oposta àquela do ISKP.

A história, portanto, teria ensinado ao Talibã a se distanciar da insurreição terrorista, contando com a obtenção do desejado reconhecimento político, visto que certamente não é o destino das mulheres afegãs que interessa às chancelarias ocidentais.

Agora é importante entender se o Talibã está usando ou usará o que resta do ISKP no Afeganistão para reforçar sua posição de negociação.

Um antigo acordo entre talibãs e a base da Al Qaeda realmente existiu, mas as respectivas doutrinas não eram na época incompatíveis como agora entre talibãs e o ISKP: a base da Al Qaeda pode se adaptar para operar de um emirado soberano - como aquele afegão de que falam hoje os talibãs - embora a própria ideia de qualquer emirado local, afegão ou outro, seja incompatível com o delírio do neo-califado universal que foi de al-Baghdadi.

Deve-se sempre lembrar que al-Baghdadi se chamou Abu Bakr (al-Baghdadi), ou seja, atribuiu a si mesmo o nome do primeiro califa eleito depois de Maomé, para expressar o sonho de apagar a história islâmica e retornar, de seus escombros, ao califado universal originário.

Visto desta perspectiva, o voo do helicóptero sobre Cabul torna-se muito diferente daquele do helicóptero de Saigon. Assim, agora, os proponentes do choque de civilizações podem ser vistos até entre alguns pacifistas que de fato recriminam aos EUA não ter lutado para vencer o choque entre civilização e barbárie.

 

Quando o Ocidente não pode ser exportado

 

Um duplo mal-entendido poderia então estar em jogo: aquele que, desses ambientes, ao se opor ao choque de civilizações, de fato o alimentou, desejando que a intervenção exportasse o modelo ocidental de democracia ao Afeganistão como o único modelo possível.

De fato, falar de “nova Saigon”, o que quer dizer? Desejar uma retirada ordeira ou ficar e usar armas de forma obstinada para criar a democracia?

O outro grave mal-entendido - menos vistoso - poderia ser aquele que estão cometendo os estrategistas euro-estadunidenses que ainda não compreenderam totalmente que sua campanha - que continuou após a morte de Bin Laden em nome da exportação da democracia - perdeu pelo efeito da corrupção galopante e pelo tráfico de drogas que corre solto no país, apesar dos investimentos superiores a um trilhão de dólares.

Será que realmente se tentou criar um sistema inclusivo, com a consciência da complexidade étnica e tribal do Afeganistão, termos - estes - muito desagradáveis aos ouvidos ocidentais, mas também muito reais?

A ilusão trumpiana de poder instaurar um governo de transição em acordo com o Talibã não contou com o efeito quase imediato sobre o exército afegão que, com o anúncio da retirada, sumiu num piscar de olhos. Com a aproximação dos "senhores da guerra" talibãs - todos armados até os dentes - os pobres soldados afegãos deveriam ter permanecido os únicos uniformizados a esconder uma rendição já decidida?

Deveriam ter travado guerra e morrido para salvar o bom nome daqueles que já haviam estabelecido acordos com o Talibã também sobre o seu futuro e o de suas famílias? Os líderes militares dos EUA - presumo - sabiam muito bem que acabaria assim. Retirar-se depois de gastar um trilhão de dólares em um dos países mais pobres do mundo é um fato de gravidade incalculável que - é claro - não poderia ter resultado em uma saudação com as fanfarras. Alguém tinha alguma ilusão? Acredito que não!

Em termos regionais, a retirada dos EUA já havia começado há tempo. A sua presença nunca fez soar as fanfarras da população e nunca foi apreciada, nem mesmo por aqueles que acreditavam que realmente fosse possível exportar a democracia.

 

Realpolitik e democracia sui generis

 

Olhando - em paralelo - para o Iraque, devemos admitir que, após a retirada, houve tênues avanços que, talvez, sem a retirada não teriam sido possíveis.

Se a retirada dos EUA do Afeganistão irá favorecer um concerto asiático sobre os destinos desse país - preservando a Caxemira das chamas do ISKP e os desventurados vizinhos muçulmanos chineses - os uigures - dos confrontos, assim como as crianças xiitas de outros massacres, pelo menos a realpolitik poderá involuntariamente se resignar a uma perspectiva menos odiosa do que possa parecer hoje em dia.

Uma perspectiva em que os afegãos não sejam mais apenas os traídos, primeiro pelos soviéticos e depois pelos euro-estadunidenses, mas os cansados protagonistas da construção de um caminho afegão para uma futura democracia, ou seja, aquela inclusiva e consociativa de uma sociedade composta, com lentos progressos que deveriam ser sustentados pelo realismo de quem sabe que o bem-estar do vizinho é a condição do próprio bem-estar.

Contra essa perspectiva difícil e incerta, a maior ameaça poderiam ser os traficantes internacionais de drogas. Corrupção e enormes receitas - juntas - constituem uma espiral que ninguém consegue controlar. Mas isso já é outro assunto.

 

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