Guerras de papel: bênção a casais LGBT+ e o fetiche penitenciário

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25 Março 2021

 

"O documento reflete uma face de uma Igreja ensimesmada, mas que deixa revelar aquilo que deveria permanecer oculto. Contudo, é preciso dizer e repetir: esse é um dos vários projetos de Igreja em disputa. Não é o único. Nesse movimento, há outras Igrejas que se levantam, produzindo novas fissuras", escreve João Victor da Fonseca Oliveira, historiador, professor de História e membro do Grupo de Pesquisa “Diversidade Afetivo-Sexual e Teologia”, na Faculdade Jesuíta - Belo Horizonte. Atua em atividades pastorais há mais de 10 anos, junto às juventudes. Atualmente, desenvolve pesquisas sobre Gênero, Sexualidade e Experiência Religiosa de jovens LGBTIA+ em comunidades católicas de periferia.

 

Eis o artigo.

 

Não bastasse uma pandemia que aumenta para todos - desigualmente - as situações de vulnerabilidade, acordamos com a notícia de que padres e ministros da Igreja não podem abençoar uniões entre pessoas do mesmo sexo e que tais bençãos não serão consideradas lícitas, se forem realizadas [1].

A surpresa precede sempre uma expectativa - ou a quebra dela. Por isso mesmo, devemos nos perguntar sobre aquilo que sustenta o nosso desejo - ou fetiche? - em buscar, em muitas tentativas, transformações dentro da norma, valendo-se das armas do opressor. Afinal, por que é que nos mantemos tão ávidos na busca por algum reconhecimento, dentro do jogo de vivo-morto operado pelas instituições, nomeadamente católicas?

Audre Lorde, mulher negra, lésbica, mãe, guerreira, poeta, ensaísta e feminista interseccional, como costumava se definir, é quem nos ajuda a abrir uma importante fissura nesse debate [2]. Para Audre Lorde, "as ferramentas do mestre não irão desmantelar a casa do mestre". As armas do opressor não nos libertarão. A conferência realizada, em 1979, bem nos poderia ser uma exortação.

Benção e expectativa revelam outro par que nos interessa: como a sedução e o fetiche penitenciário enquadram nosso olhar. O convite não é lançar um olhar para o documento elaborado pela Congregação para a Doutrina da Fé, mas para suas fissuras e rachaduras, por onde é possível ver o que não está posto, tampouco explícito.

É naquilo que não nos é dado a ver que percebemos a marca do desvio e o trabalho que ele realiza, quando somos ofuscados pelos holofotes da norma, da lei e do dogma. O desafio, como nos diz Giorgio Agamben, é não se deixar cegar pelas luzes do século. Para o filósofo, o contemporâneo é aquele que divide o tempo com os outros. Porque somente sendo próprio e crítico ao próprio tempo é possível "compreender um mal, um inconveniente, um defeito, alguma coisa da qual a época, justamente, se orgulha" [3]. O nosso desafio envolve um grande incômodo, mas nunca qualquer forma de conivência.

Um importante enquadramento, que ao nos enquadrar também nos incrimina [4], é aquele que reduz ao campo do "possível" e do "aceitável" o discurso de uma meia dúzia de líderes encastelados no Vaticano. Como se tivéssemos esquecido séculos de história, muitos deles de perseguição. Como se esquecêssemos que também as instituições padecem das feridas que sofrem mas, sobretudo, daquelas que provocam.

Talvez, a maior das fissuras esteja naquilo que Cris Serra chama atenção quando, brilhantemente, recupera outra brecha que o documento nos permite entrever:

A grande novidade deste documento não é a resposta. A grande novidade deste documento é a pergunta (...). O fato de que a Congregação para a Doutrina da Fé tenha precisado de responder a essa pergunta ("A Igreja pode abençoar uniões do mesmo sexo?"). Eles terem que responder a essa pergunta fala muito sobre a mudança de mentalidades, a mudança de sensibilidades, no mundo e nos ambientes católicos para as questões LGBTIA+.

Afora os mecanismos de produção de subalternidade que envolvem um grau elevado de paternalismo, continua havendo um reforço sutil por meio do qual o Vaticano acredita tomar para a si a possibilidade de falar por nós, ou mesmo de impossibilitar o próprio espaço de falar, ao arrogar para si o poder de veto e a "última palavra". Essa é a condição do subalterno [5].

Essa também é uma operação realizada por aqueles que ocupam o estrato social dominante ao fazerem crer que sempre foi assim, por meio do apagamento de todos os rastros possíveis de sua invenção - ou de sua tentativa. Como se a verdade a respeito dessas pessoas fosse dirigida por um terceiro, afirmando-se em uma autoridade silenciadora dos próprios sujeitos, dentro de suas respectivas experiências religiosas. Contudo, isso não acontece sem alguma conivência, um contrato fetichista que, de um lado, nos faz sentir algum gozo pela algema, e ao perpetrador garante o lugar de proferir a sentença.

Freud chamou de fetiche o mecanismo de defesa que busca rejeitar a realidade, que tenta afastar o "medo de ser castrado", um instrumento por meio do qual "o fetichista nega ser verdadeiro aquilo que o angustia e que, bem no fundo, ele sabe que é verdade" [6]. Se há no fetiche uma tentativa de evitar a angústia, a castração e a frustração, há, do outro lado, o prazer em exercer o poder. O prazer do algoz se vale da prisão da vítima, e sabe bem se excitar com poder de decidir seu rumo, seu destino e a sua sentença. Ambos encontram-se, assim, unidos por um fetiche, um fetiche penitenciário, que é tudo, menos libertação.

A expectativa que versa pelo acolhimento e reconhecimento das mais diferentes expressões e formas de estar no mundo, dentro da Igreja Católica, cintila algum fetiche penitenciário que nos faz vislumbrar o passaporte de “cristão católico” carimbado pela Santa Sé, quando é essa mesma estratégia que continua a produzir sofrimentos, sob os auspícios do controle normatizador da Igreja. Ainda há cúmplices entre os súditos.

Passado o alvoroço, o que merece atenção não é a resposta do sumo pontífice e da Congregação para o incômodo que lhes foi dirigido, mas a atitude de busca obstinada por uma palavra que nos tornem iguais e possíveis, dentro da Igreja.

O documento reflete uma face de uma Igreja ensimesmada, mas que deixa revelar aquilo que deveria permanecer oculto. Contudo, é preciso dizer e repetir: esse é um dos vários projetos de Igreja em disputa. Não é o único. Nesse movimento, há outras Igrejas que se levantam, produzindo novas fissuras. Como vimos acontecer nas diferentes reações ao documento, protagonizadas na Alemanha, Áustria, Bélgica, Estados Unidos, Austrália e por diversas lideranças espalhadas pelo mundo, também no Brasil.

A autoridade da experiência de inúmeras pessoas dissidentes de sexo e gênero não pode ser ignorada em função das guerras de papel. Duelar com letra a Lei, apenas, é ignorar a autoridade das experiências que continua a produzir um saber de Deus para o mundo.

Compreendemos que é pouco - e perigoso - demandar aos membros da hierarquia católica nosso reconhecimento como único engajamento possível. As fissuras, brechas e rachaduras deslumbram por nos fazer ver os corpos, as experiências, as estratégias, as vivências, para além das sobrevivências. Ressoa como imperativo abandonarmos parte do ressentimento como única forma explicativa, reativa e propulsora das nossas demandas. Isso porque, nem toda experiência de Deus constituída em nossas vidas e corpos é uma constante luta contra a instituição, ou a toma como única referência.

Essa é a "birra" da qual fala James Alison, ao afirmar que:

É preciso acrescentar que o responsum da CDF parece seguir realmente o modelo “birrento” da educatio interrupta rabugenta. Levanta uma pergunta autoprovocada. E depois oferece uma resposta autorreferencial. Resposta que espera que funcione como ato de poder, não de diálogo.

O texto da Congregação para a Doutrina da Fé recorre a um não poder, cuja proibição ela mesmo criou. Um fetiche penitenciário que vê valor e gozo na interdição. Ali, onde o poder se exercita e onde o teatro arma sua tenda.

A outra sensação é o receio por parte de alguns líderes ao perceberem que uma reforma leva a outra. Ao mesmo tempo, o medo em reconhecer que há muito o que se reformar. Prédios velhos, ainda que impávidos, não escondem todas as suas frestas, aquelas que o próprio tempo abre em estruturas rígidas demais.

Mas, felizmente, não somos os primeiros. O profeta Jeremias também foi um desses vulneráveis, em tempos desesperançosos, a quem Deus escolheu dirigir sua palavra. Profeta, talvez, seja a correspondência perfeita para "contemporâneo", aquele que "mantém fixo o olhar no seu tempo" [7]. O mesmo homem que não sabia o que dizer, apesar de sua inexperiência, elevou sua voz e continuou profetizando [8]. Aquele que não sabia como falar, foi encorajado a permanecer e foi consolado: "Eles lutarão contra ti, mas nada poderão contra ti" [9].

O jogo do reconhecimento e pelo reconhecimento é tão necessário quanto ingrato, ele é parte da nossa condição vulnerável, ao mesmo tempo em que oferece ao outro a possibilidade de nos conceder, ou não, o reconhecimento. Mas não pode ser dele a última palavra.

A luta contra a ortodoxia, contra a hierarquia ensimesmada constituída, pode perder-se ao reforçá-la, na medida em que a toma, excessivamente, como referente. Nas palavras de Ariano Suassuna: "Ao redor do buraco, tudo é beira!".

Talvez, seja o momento de nos haver com nossa própria frustração diante do vazio que as instituições nos oferecem. Atravessar e exorcizar os nossos próprios fantasmas.

Não devemos nos render às guerras de papel, sem observar a autoridade das experiências que também dizem sobre a sacralidade das nossas relações. Também nós estamos escrevendo a nossa história com o nosso Deus, como aquele povo Israel.

Afinal, foi a esse povo que Deus dirigiu o seu olhar: "Os depositários da Lei não me conheceram [10]. A Jeremias, Deus dirigiu sua palavra de aliança [11]. É assim que nos tornamos seu povo, e Ele o nosso Deus. Israel e Jeremias não são outra coisa senão a prova de uma experiência que se traduz na liberdade, e que ruma à libertação.

Que tenhamos à nossa frente a sede e, em nosso horizonte, a pergunta. Aquela que desestabiliza a norma e torna possível a palavra. A palavra que nós temos a dirigir, e não aquela que os outros acham que podem produzir sobre nossas vidas e corpos.

Nos interessa a pergunta que produz essas fissuras e não o fracasso da resposta - tão esperada quanto desnecessária. Ainda que tentem disfarçá-la com doutrinas ou que ajudem a Deus a se "vestir de dogmas" [12], assim como o vestiram de homem cis, heterosexual e branco [13]. Precisamos tirar essas as roupas de Deus, como nos provocou Marcella, mas também vê-lo nu, vê-lo de perto, contemplá-lo sem aquilo que turva a nossa visão do Sagrado, reconhecer, ao fim, a benção que já está sobre nós.

Há algo que está sendo construído diante dos nossos próprios olhos e através das nossas próprias mãos. O sopro que faz a esperança adentrar é o mesmo que areja as nossas janelas. Contrários ou favoráveis, os ventos tudo arrebatam ao levantarem a poeira escondida e não perdoam, sequer, quem diz ter razão. A mudança impetuosa torna toda vitória provisória.

O clamor de Jeremias e a palavra que ele mesmo dirige ao seu Deus recorda-nos Jerusalém quando foi admoestada [14]. O Deus da sedução, este mesmo que seduziu Jeremias e por quem ele se deixou seduzir, é o mesmo quem diz: "Levanta os olhos e vê" [15].

 

Referências

 

[1] Igreja Católica não pode abençoar as uniões do mesmo sexo, diz Vaticano. Disponível aqui.

[2] Mulheres negras: As ferramentas do mestre nunca irão desmantelar a casa do mestre. Disponível aqui.

[3] AGAMBEN, Giorgio. O que é o Contemporâneo? e outros ensaios. pp. 57-59.

[4] Cf. BUTLER, Judith. Quadros de Guerra.

[5] Cf. SPIVAK, Gayatri. Pode o subalterno falar?

[6] ZIMERMAN, D.E. (2007). Fundamentos Psicanalíticos: teoria, técnica e clínica. Porto Alegre: Artmed. p. 45.

[7] AGAMBEN, Giorgio. O que é o contemporâneo? e outros ensaios. Tradução de Vinícius Nicastro Honesco. Chapecó-SC: Argos, 2009. p. 62.

[8] JR 1, 7.

[9] JR 1, 19.

[10] JR 2, 8.

[11] JR 11, 7.

[12] Igreja e homossexualidade: a desobediência em marcha. Artigo de René Poujol. Disponível aqui.

[13] ALTHAUS-REID, Marcella. The Indecent Theology.

[14] JR 13, 20.

[15] JR 13, 20.

 

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