A igreja agora elogia Draghi. Mas a sua visão corresponde à de Francisco?

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08 Fevereiro 2021

“Agora é a hora da sabedoria na escolha do futuro que queremos construir”. Era 18 de agosto de 2020 e, na abertura do 40º Encontro de Rimini, o presidente em cargo, Mario Draghi, traçava as linhas programáticas do que, nos últimos dias, se tornou sua missão: formar um governo.

A reportagem é de Marco Grieco, publicada por Domani, 5-02-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

Draghi deve parte de seu treinamento aos jesuítas. No instituto Massimo, severa escola romana, ele teve como mentor o jesuíta Franco Rozzi, o filósofo da síntese, como seus ex-alunos o definem. O ex-presidente do Banco Central Europeu será também a expressão daquela abordagem inaciana que até os jesuítas romanos observaram recentemente?

Homem profundamente leigo no serviço às instituições, Draghi pertence à mesma linha católica e democrática do Presidente da República, Sergio Mattarella. No grupo próximo ao Papa estão aqueles que apreciam a formação católica do ex-governador do Bankitalia: neste sentido, deve ser colocada a nomeação como membro da Pontifícia Academia de Ciências Sociais em julho passado. Um ano antes, tinham sido os jesuítas a trazer de volta às manchetes Draghi, dedicando-lhe uma longa matéria na La Civlità Cattolica com viés de endosso: “Mario Draghi foi protagonista de uma das fases mais complexas da história recente da Europa.

O seu serviço como presidente do Banco Central Europeu foi decisivo para salvar a União econômica e monetária e, graças à sua contribuição, hoje existe uma oportunidade extraordinária para a completar”, escreveu o Jesuíta Guido Ruta, pesquisador da New York University. Em 2016, Draghi estava na primeira fila da sala de controle do palácio Apostólico quando o Papa Francisco recebeu o prêmio Carlos Magno, auspiciando juventude à Europa. Algum tempo depois, o então presidente do BCE voltou a mencionar aquele apelo perante os estudantes e professores da Universidade Católica de Milão: “O futuro da sociedade depende de considerar o bem público por parte dos melhores jovens e do empenho que eles aprofundam para poder alcançá-lo”, assinalou. Mas se os jesuítas próximos a Francisco estão do lado de Draghi, o que sobra de apoio de parte do mundo católico, incluindo os bispos italianos, ao primeiro-ministro que está saindo, Giuseppe Conte? Nas últimas semanas foi à própria Conferência Episcopal italiana que voltou a falar dos "construtores" evocados pelo presidente Mattarella, quando parecia necessário dar sustentação a Conte e assim evitar traumas institucionais para o país. No entanto, com a diminuição da garantia institucional, até mesmo o apoio dos bispos falhou, alimentando aqueles na CEI não estavam tão satisfeitos com Conte. As operações durante o verão italiano do ministro Roberto Speranza no projeto Conte II, sobre a pílula do aborto, por exemplo, alimentaram o dissenso a tal ponto que as boas relações do primeiro-ministro em saída com a cúria, nascidos no coração de Villa Nazareth, foram aos poucos esmaecendo. Mas o ocaso de Conte não diminui a cautela de alguns prelados em relação ao nascente Draghi.

Fontes do Vaticano explicam que será preciso aguardar a maioria política para entender o índice de aprovação do potencial novo governo. A cautela do Vaticano segue aquela manifestada em 1993 com Carlo Azeglio Ciampi: ele também chamado à construção de um governo pelo presidente, o ex-governador do Bankitalia era a expressão de um catolicismo não expressis verbis, embora não hostil à Santa Sé: “Uma fé simples, não alardeada, mas firme e praticada com discrição e respeito - era como um fio condutor que ligava e inspirava todos os seus dias para que os dedicasse (...) ao serviço do bem comum do país”, recordou Monsenhor Vincenzo Paglia no funeral de Ciampi em 2016. Seu perfil coincide com o de Draghi, seu sucessor no Palazzo Koch, sede do Bankitalia. O catolicismo de Draghi não é ostentoso, embora muitos tenham observado uma semelhança de pontos entre Draghi e a Santa Sé, bem antes do advento de Francisco. Draghi expressou grande apreço pela Caritas in veritate de Bento XVI, a encíclica publicada em 2009 no alvorecer de uma das piores crises financeiras do mundo.

A prudência nunca é demais. Exceto para os jesuítas de La Civiltà Cattolica, atualmente no Vaticano poucos são os que se expõem sobre o atual limbo político-institucional. Alguns convidam à cautela: como Draghi poderia ler as preocupações econômicas e sociais de nossos tempos? Estará sua política menos assistencialista e mais produtiva em sintonia com o trinômio tierra, techo y trabajo do Papa Francisco, tanto quanto sua demanda frequentemente evocada por um salário universal para os trabalhadores mais humildes? “Em muitos casos, os gestores políticos devem agir cientes de que as consequências de suas decisões são incertas, mas convencidos de que a inação levaria a consequências piores e à traição de seu mandato”, Draghi lembrava aos estudantes de Cattolica. Tanto nele quanto em Bergoglio, esperança e reconstrução são palavras pragmáticas, que requerem um agir em comum: para essas mudanças é preciso discernimento e ponderação. O ex-presidente do BCE ainda precisa prová-lo, mesmo que suas premissas pareçam uma garantia.

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