Papa Francisco e Sérgio Mattarella: duas grandes autoridades políticas e morais para a Europa

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20 Maio 2019

Leiam, nesta entrevista de Mattarella, com algumas declarações escolhidas aleatoriamente nesta ruidosa campanha eleitoral sobre segurança, migrantes, defesa das fronteiras, egoísmos nacionais e Europa como ameaça contra a qual se proteger. Há, nas palavras que o chefe de Estado italiano confia ao Osservatore Romano, uma "outra" ideia da Itália (e da Europa), profundamente diferente da narração de um país raivoso e embrutecido. É profundamente diferente da iconografia de uma política muscular e orientada para a raiva, divisiva nos tons e nas ações, em que o outro se torna uma ameaça mais que um recurso.

O comentário é de Alessandro De Angelis, publicado por Huffington Post, 17-05-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Nota de IHU On-Line: A íntegra da entrevista de Matarella pode ser vista, em italiano, aqui. A íntegra da entrevista, em português, pode ser lida aqui.

Prestem atenção nesta passagem, na qual ele fala, das "atitudes de intolerância, agressividade, fechamento às necessidades alheias": "São fenômenos minoritários, sempre existiram, mas parecem atenuar as hesitações que antes freavam a manifestação. Aparece assim em toda a Europa e também em outros continentes”. De modo nem tão velado, a referência é ao fio negro que parece ligar o Ocidente, este 1968 às avessas, dos muros de Trump aos portos fechados de Salvini, às crianças impedidas de comer a merenda nas escolas de Lodi, como aconteceu há algum tempo: da sociedade do bem-estar, baseada na ampliação dos direitos, para a sociedade da crise, fundada no fechamento em si mesma, em que tudo o que é diferente provoca medo. Sociedade em que foram criadas "periferias existenciais, não apenas existenciais, âmbitos de sofrimento e desconforto, resultado da desorientação". Medo, solidão, desconforto, raiva, que minam o sentido de uma comunidade, entendida como valores e destino comum. É uma narrativa, a do chefe do Estado, que em seus tons e princípios são o oposto do soberanismo e de sua gigantesca máquina do medo, alimentada independentemente dos resultados.

Vamos explicar a situação: é bem provável que essa matéria tenha sido programada antes da campanha eleitoral, mas o timing da publicação e a escolha das "mídias" do Vaticano é um ato eminentemente político. Nenhum Papa antes de Francisco, em relação a quem Mattarella expressa uma sintonia fundamental, ouvira ecoar dentro de si, com tanta intensidade, o eco de um duelo de civilização, entre o anjo do acolhimento e o demônio da intolerância, a ponto de dedicar as meditações da via crucis aos migrantes ou a receber no Vaticano a família cigana de Casal Bruciato, vítima de uma intolerância artificialmente fomentada, ou defender o gesto maravilhoso do seu Esmoleiro, filho da intolerância para com a cultura do ódio que muitos, mesmo no governo italiano, promovem.

E nenhum Papa que, como seu primeiro ato foi a Lampedusa recusando a presença de políticos ao seu lado, tinha "fechado as portas" a um ministro do Interior, ainda à espera de ser recebido em audiência privada, deixando claramente entender que não são bem-vindos aqueles que promovem e alimentam a cultura da discriminação.

Há toda uma sensação de descida a campo, cada um em seu próprio papel, mas numa batalha de valor comum, de duas grandes autoridades políticas e morais, o Papa Francisco e Mattarella, às vésperas deste tipo de 1948 europeu, eleições, vividas como um divisor de águas histórico. E existe todo um sentido de reprise perceber um europeísmo diferente daquele do chefe de Estado, que reconhece limites no processo de construção da União Europeia que "dá a impressão de ter parado, como na administração ordinária, inclusive pelo freio posto por alguns países”.

A resposta não é a renúncia ao projeto histórico, mas uma nova redescoberta da tensão que o animou: "O Papa Francisco, com sabedoria, indica o centro da questão. A Europa deve recuperar o espírito dos primórdios. Deve se preocupar mais com o destino das pessoas. Deve garantir uma colaboração cada vez maior, igualdade de condições, crescimento econômico, mas isso só é realmente alcançado com o crescimento cultural civil e moral".

Agora leiam as declarações destes dias, numa campanha eleitoral que deu vazão aos piores sentimentos, sem um único título que contemplasse a palavra "solidariedade", aprisionada pela obsessão securitária, sem uma visão básica e verdadeira sobre o horizonte europeu que vá além da polêmica sobre esse ou aquele número do déficits. Não o chamem de manifesto antisoberanista, essa sintonia de valor entre o chefe de estado e o chefe da Igreja e reconhecimento mútuo em atenção aos mais necessitados. Simplesmente o chamem de palavras de civilização.

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