Capitalismo pós-Covid. Artigo de Klaus Schwab

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14 Outubro 2020

“As regras de comércio, tributação e concorrência que refletem décadas de influência neoliberal agora terão que ser revisadas. Caso contrário, o pêndulo ideológico – já em movimento – poderá oscilar novamente para o protecionismo em grande escala e para outras estratégias econômicas prejudiciais para todos”, é o que avalia Klaus Schwab, fundador e diretor-executivo do Fórum Econômico Mundial, em artigo publicado por El Economista, 12-10-2020. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Nenhum acontecimento desde o fim da Segunda Guerra Mundial teve um impacto global tão profundo como a Covid-19. A pandemia desatou uma crise de saúde pública e econômica em uma escala nunca vista em gerações e, ao mesmo tempo, exacerbou problemas sistêmicos como a desigualdade e a postura das grandes potências.

A única resposta aceitável para uma crise semelhante é tentar aplicar um “Grande Reinício” de nossas economias, políticas e sociedades. Na verdade, este é um momento para reavaliar as vacas sagradas do sistema pré-pandemia, mas também para defender certos valores de longa data. A tarefa que enfrentamos é a de preservar as conquistas dos últimos 75 anos de uma maneira mais sustentável.

Nas décadas posteriores à Segunda Guerra Mundial, o mundo fez avanços sem precedentes na erradicação da pobreza, redução da mortalidade infantil, aumento da expectativa de vida e expansão da alfabetização.

Hoje, a cooperação e o comércio internacional, que promoveram a melhora do pós-guerra nestas e em muitas outras medições do progresso humano, devem se manter e se defender frente a um renovado ceticismo de seus méritos.

Ao mesmo tempo, o mundo também deve seguir prestando atenção à questão definidora da era pré-pandemia: a Quarta Revolução Industrial e a digitalização de inumeráveis atividades econômicas. Os recentes avanços tecnológicos nos deram as ferramentas que precisamos para enfrentar a crise atual, inclusive por meio do rápido desenvolvimento de vacinas, novos tratamentos e equipamentos de proteção pessoal. Precisaremos continuar investindo em pesquisa e desenvolvimento, educação e inovação, enquanto criamos proteções contra aqueles que fazem um mau uso da tecnologia.

Mas também será necessário reavaliar outros motes de nosso sistema econômico global com uma mente aberta. Um dos principais é a ideologia neoliberal. O fundamentalismo de livre mercado erodiu os direitos dos trabalhadores e a segurança econômica, desencadeou uma corrida desregulamentadora para o fundo e uma ruinosa competição fiscal, e permitiu o surgimento de novos monopólios globais gigantescos.

As regras de comércio, tributação e concorrência que refletem décadas de influência neoliberal agora terão que ser revisadas. Caso contrário, o pêndulo ideológico – já em movimento – poderá oscilar novamente para o protecionismo em grande escala e para outras estratégias econômicas prejudiciais para todos.

Especificamente, será necessário que reconsideremos nosso compromisso coletivo com o “capitalismo” como o conhecemos. Obviamente, não deveríamos prescindir dos motores básicos do crescimento. Devemos grande parte do progresso social do passado à iniciativa empresarial e à capacidade de criar riqueza assumindo riscos e buscando modelos de novos negócios inovadores. Necessitamos que os mercados aloquem recursos e a produção de bens e serviços de maneira eficiente, em especial quando se trata de enfrentar problemas como a mudança climática.

Devemos repensar a que nos referimos quando falamos de “capital” em suas muitas vertentes, seja financeiras, ambientais, sociais ou humanas. Os consumidores de hoje não querem mais e melhores bens e serviços por um preço razoável. Ao contrário, cada vez mais esperam que as empresas contribuam para o bem-estar social e o bem comum. Existe uma necessidade fundamental e uma demanda cada vez mais generalizada por um novo tipo de “capitalismo”.

Para reconsiderar o capitalismo, devemos reconsiderar o papel das corporações. Um expoente primeiro do neoliberalismo, o economista e prêmio Nobel Milton Friedman, acreditava (citando o ex-presidente norte-americano Calvin Coolidge) que “o negócio dos negócios é o negócio”. Mas quando Friedman lutava pela doutrina da primazia dos acionistas, não considerava que uma empresa listada na bolsa fosse talvez apenas uma entidade comercial, mas também um organismo social.

Além disso, a crise de Covid demonstrou que as empresas que investiram em fortalecer sua vitalidade a longo prazo estão melhor equipadas para sobressair e superar a tormenta. De fato, a pandemia acelerou a guinada para um modelo de capitalismo corporativo das partes interessadas, após a adoção deste conceito por parte da Mesa-Redonda de Negócios dos Estado Unidos, no ano passado.

Mas para que as práticas empresariais mais conscientes de um ponto de vista social e ambiental sejam mantidas, as empresas precisam de delineamentos mais claros. Para satisfazer essa necessidade, o Conselho Internacional de Empresários do Fórum Econômico Mundial desenvolveu um conjunto de “Métricas de Capitalismo das Partes Interessadas” para que as empresas possam estar em acordo ao que concerne em avaliar valor e riscos.

Se a crise de Covid-19 nos demonstrou algo é que os governos, as empresas e os grupos da sociedade civil que atuam sozinhos não podem enfrentar os desafios globais sistêmicos. Precisamos romper os compartimentos que mantém estas esferas isoladas e começar a construir plataformas institucionais para a cooperação público-privada. Do mesmo modo, é importante que as gerações mais jovens participem deste processo, porque têm a ver inerentemente com o futuro de longo prazo.

Finalmente, devemos ampliar nosso esforço em reconhecer a diversidade de contextos, opiniões e valores entre os cidadãos em todos os níveis. Cada um de nós tem a sua própria identidade individual, mas todos pertencemos a comunidades locais, profissionais, nacionais e até globais com interesses compartilhados e destinos entrelaçados.

O Grande Reinício deveria buscar dar voz àqueles que ficaram para trás, para que todos os que estejam dispostos a “definir conjuntamente” o futuro possam intervir. O reinício que precisamos não é uma revolução ou a adoção de alguma ideologia nova. Ao contrário, deveria ser visto como um passo pragmático para um mundo mais resiliente, coeso e sustentável. Alguns dos pilares do sistema global terão que ser substituídos e outros reparados e fortalecidos. Conseguir um progresso, uma prosperidade e uma saúde compartilhados não exige nada mais, nem nada menos.

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