Índia. Sem volta à normalidade. Igreja Católica pós-covid-19. Artigo de Felix Wilfred

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30 Junho 2020

"A Igreja Católica indiana precisará repensar sua vida e culto, sua missão e comando em novos termos. Ela terá seus ouvidos no caminho difícil da realidade para ouvir o bater dos pés dos migrantes a caminho, o que deve tocar continuamente sua consciência quando ela, a Igreja, se ver tentada a exibir o seu poder com igrejas e instituições massivas, ou a agir pomposamente enquanto testemunhamos, na coreografia religiosa e em um jubileu interminável, celebrações de todos os tipos imagináveis", escreve Felix Wilfred, teólogo, professor emérito da Universidade de Madras. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo. 

As pandemias não são nenhuma novidade para a humanidade. São bem conhecidas as dez pragas do Egito. Não sabemos quantas pessoas morreram. Mas sabemos que a Peste Negra, de 1324, dizimou cerca de 200 milhões de pessoas quando a população mundial era de apenas 475 milhões aproximadamente. O surto dessa praga abalou a Europa e gerou revoltas sociais, políticas, econômicas e culturais de magnitude sem precedentes. A gripe espanhola, no início do século XX, matou 100 milhões e desde então houve outras pandemias de proporções menores. Milhões ao longo da história foram vítimas do surto recorrente de varíola na Índia, e muitos costumam recorrer à deusa da varíola – Mariamma ou Śītalādevī –, que provoca e cura a doença.

Nenhuma das epidemias da história escancarou a desigualdade persistente e a injustiça insensível do mundo tanto quanto o fez a covid-19. Essa epidemia é o sintoma de um mundo injusto, cuja grande inclinação da balança antecipa uma calamidade de proporções apocalípticas. Esta pandemia requer uma resposta moral de parte da Igreja. Exige que repensemos as suas prioridades e que haja uma reforma profunda de sua vida, culto e missão. Em vez de falar em termos gerais, eu gostaria aqui de refletir sobre a Igreja Católica Apostólica Romana na Índia, que conheço um pouco melhor do que as outras igrejas.

Pude ouvir os gemidos e suspiros profundos de muitos fiéis para os quais tudo é suportável, exceto a situação terrível de não poder ir à igreja. Essas pessoas desejam participar da Eucaristia e anseiam peregrinar pelos seus santuários marianos favoritos, santuários milagrosos de Santo Antônio, de São Sebastião e do Menino Jesus. Elas frequentam as novenas com devoção, participam de procissões eucarísticas, recitando o rosário e cantando aqueles hinos familiares melífluos… Essa nostalgia é dolorosa demais. Sente-se falta da rotina que havia se tornado normal. Os católicos que se mudaram para esta terra religiosa de promessas agora, de repente, se sentem exilados. Como os judeus do exílio, às margens do Rio Babilônia, os católicos desejam voltar ao mundo religioso familiar. Daí a pergunta que não quer calar: “Quando irão se abrir as igrejas?”

De repente, inúmeros bispos e padres que vinham intermediando tornaram-se como balões vazios, sem informações quanto à situação do confinamento social (lockdown). As suas vozes se calaram. Pergunto-me o que eles têm feito, completamente isolados dos grupos de fiéis reunidos nas igrejas. Uma vez que o mundo que conhecíamos ficou distante, nossos bispos e padres se tornaram como peixes fora d’água. Eles aparentemente esperam, com ansiedade, para voltarem à “normalidade”. O triste é que não pode haver alguma volta à normalidade. Pois a normalidade era o problema. Precisamos pensar na situação pós-covid-19 em novos termos, em vez de apenas restaurar o mundo religioso que nos é familiar. Essa experiência de uma pandemia macabra é a ocasião para repensarmos o nosso culto, a nossa fé e a nossa missão a partir de um nível e de uma perspectiva diferentes.

A Igreja Católica, que se obcecou com as externalidades dos sacramentos, precisa agora se concentrar no que Jesus advogava: “adorar o Pai em espírito e verdade” (João 4,23-24). Identificamos o divino com uma localidade específica, e o culto com certas formas de rituais. Trancamos Jesus no tabernáculo. Os clérigos estão em posse segura da chave para Jesus – assim parece. Eis uma metáfora do que acontece na Igreja. Sem os sacramentos realizados pelo clero, o caminho para Jesus, para o mistério divino está barrado. Não é de admirar que os fiéis se encontrem religiosamente devastados.

A resposta de Jesus à samaritana reflete o tipo de adoração que Jesus tinha em mente. Jamais se pode prender o espírito em lugares e objetos. Ele está sempre em movimento e não fica preso em lugar algum, nem no templo de Jerusalém nem em nossas igrejas e sacramentos. Como escreveu um dos primeiros escritores cristãos, Dionísio Areopagita: “O centro de Deus está em todo lugar; a circunferência de Deus não está em lugar nenhum”. Limitar Deus a um lugar ou objeto é uma distorção sacrílega do divino, uma modelagem de Deus segundo a nossa imagem, semelhança e necessidades. Para poder adorar a Deus em verdade, antes de mais nada precisamos primeiro ser buscadores da verdade. A verdade é um poder que liberta, e não há limites. Ela pode vir de qualquer lugar; o Espírito pode vir de qualquer direção, como o vento. Eles adentram o templo do nosso coração, aberto e sem paredes, para uma liturgia da vida. A verdade é um horizonte sempre recuado, que nos mantém em movimento na direção certa. A busca por ela nos mantém em constante mudança e transformação. A busca sincera da verdade e a busca por cumpri-la é a melhor adoração que poderíamos fazer.

Tem ocorrido um fracasso colossal na Igreja indiana em seu aprofundamento da fé do povo e em sua ajuda na adoração em espírito e em verdade. Se essas coisas tivessem ocorrido, os fiéis não estariam se sentindo tão perdidos e desamparados como agora. Saberiam que sua fé e sua adoração continuarão mesmo sem as muletas das igrejas e dos sacramentos. Estes não são fim em si mesmos, mas meio para algo além. Uma fé profunda ancorada no mistério divino a adorará, em primeiro lugar, no coração. Adorará a Deus, maravilhando-se com o esplendor da criação.

Sim, a natureza é o primeiro livro que Deus escreveu antes mesmo da Bíblia. As escrituras nos ajudam a encontrar Deus nesta criação maravilhosa, no universo. Os astrônomos dizem que há mais estrelas no universo do que todos os grãos de areia da Terra. Será necessário, na Igreja Católica pós-covid-19, promover uma formação religiosa diferente que ajude as pessoas a encontrar Deus e a comungar com o mistério divino em qualquer lugar e sob qualquer circunstância. Não é o mundo inteiro um sacramento de Deus? Toda a vida pode ser transformada em adoração. É necessário ajudar as pessoas a lerem suas próprias vidas e ajudá-las a encontrar e adorar a Deus. Como um pastor preocupado, Paulo incentiva os crentes de sua comunidade, em Roma, a transformarem exatamente em adoração a vida que levam: “Irmãos, pela misericórdia de Deus, peço que vocês ofereçam os próprios corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus. Esse é o culto autêntico de vocês (…) transformem-se pela renovação da mente, a fim distinguir qual é a vontade de Deus: o que é bom, o que é agradável a ele, o que é perfeito” (Romanos 12,1-2).

Para poder descobrir Deus em toda parte e adorar o divino, precisamos de uma fé adulta. Por fé adulta, não quero dizer uma fé professada apenas com a cabeça, com a razão humana. Não. A fé precisa se incorporar na materialidade da vida cotidiana. A fé adulta é diferente da “fé” na qual entramos em uma relação comercial com Deus (do ut des): oferecemos sacrifícios, jejuamos, peregrinamos, circundamos igrejas, realizamos atividades religiosas para obter favores de Deus. A vida sacramental e devocional católica tradicional consiste principalmente de certos conjuntos de práticas. A fé adulta é aquela na qual há confiança, rendição e entrega total a Deus, como Abraão fez quando empreendeu uma jornada desconhecida e quando sofreu com uma fé inabalável.

Os Salmos são um belo exemplo de adoração, louvor e graças a Deus com uma fé adulta ao longo das vicissitudes da vida – medos persistentes, angústias, fracassos, perdas dolorosas, mas também a alegria de viver, o contentamento, as experiências de amor, amizade e solidariedade. “Povos todos, batam palmas, aclamem a Deus com gritos de alegra!” (Salmos 47,2). Todo cristão pode expressar sua fé e adorar a Deus como os salmistas, incorporando o culto à vida. Isso não requer edifício religioso, local específico ou alguma performance sacramental de parte do clero. A Igreja pós-covid-19 que imaginamos é uma igreja que não limitará o encontro com Deus aos sacramentos, nem a mediação clerical desse encontro. A atual pandemia expôs como o horizonte de nossa fé e adoração se encolheu, sem que percebêssemos. Agora, precisamos de uma nova abertura.

Quando Jesus retornou ao Pai, ele mostrou, imagino eu, as suas cinco feridas como o certificado de sua vida na Terra. Essas cicatrizes foram o custo de sua identificação com a humanidade sofredora. Uma saída da covid-19 deve significar um ponto de inflexão para a Igreja. Como pode a Igreja voltar ao normal e ser a mesma depois de testemunhar a crucificação de tantos inocentes, as histórias mais horrendas e comoventes dos trabalhadores migrantes marginalizados e impotentes? Esses são os heróis e as heroínas desconhecidos que construíram o país com seu trabalho, sangue e suor, e agora se tornaram objetos descartáveis ​​e portadores temíveis do vírus a serem evitados. Sem emprego, sem meios de sobrevivência, milhões estão expostos à morte, não de coronavírus, mas de fome. Crianças migrantes percorrendo quilômetros e quilômetros descalços no calor escaldante das estradas, sem comida, sem segurança; a queda de um jovem ao chão, por puro cansaço, são lembranças potentes do caminho da cruz e da crucificação. Uma jovem de quinze anos, Jyoti Kumari, que viajou de bicicleta por 1.200 quilômetros, de Gurugram a Bihar, carregando o pai doente para chegar em casa, é uma história de resistência, coragem, esperança e ressurreição. Se realmente participar dessa história da paixão e ressurreição – essa liturgia pascal nas ruas do país –, a Igreja não mais será a mesma.

Quando a sobrevivência e a segurança de mais de 45 milhões de trabalhadores migrantes estavam em apuros, onde se encontravam os líderes da Igreja Católica na Índia? O que disseram dessa desumanidade acumulada sobre aqueles que trabalharam pelo país e acabaram traídos e presos sem ter para onde ir? Que senso de humanidade e justiça as lideranças eclesiásticas demonstraram para com os milhões de trabalhadores diários deixados à própria sorte para alimentar os filhos famintos?

Penso que a Igreja Católica indiana tem muito a se introspectar seriamente sobre como ela vem enfrentando essa crise humanitária no país causada pela pandemia. Nossos representantes católicos pediram que tocássemos os sinos das igrejas em 22 de março, e provavelmente também que batêssemos panelas e frigideiras. Pediram que disséssemos Namaste e que não apertássemos as mãos; que informássemos os médicos quando houver sintomas; que evitássemos beijar a cruz; que mantivéssemos secos os utensílios de água benta nas igrejas – aquele tipo de conselho estereotipado que ouvimos dia após dia de Fulano, Beltrano e Sicrano nas telas de TV, rádio, aplicativos de celular e assim por diante.

Que mensagem substantiva o comando da Igreja Católica deixou aos fiéis, exceto essas minúcias litúrgicas?

Será que a Igreja Católica tinha alguma mensagem para o povo deste país durante um período altamente crítico?

É verdade que um comando brando e pouco inspirador acompanha a escassez de visão e imaginação. Além disso, o comando da Igreja Católica indiana parece ser elitista; parece ter uma mentalidade de classe média alta. Tem pressa a proteger a si mesma ao invés de proteger os pobres, os quais recebem apenas elogios.

A Igreja Católica indiana precisará repensar sua vida e culto, sua missão e comando em novos termos. Ela terá seus ouvidos no caminho difícil da realidade para ouvir o bater dos pés dos migrantes a caminho, o que deve tocar continuamente sua consciência quando ela, a Igreja, se ver tentada a exibir o seu poder com igrejas e instituições massivas, ou a agir pomposamente enquanto testemunhamos, na coreografia religiosa e em um jubileu interminável, celebrações de todos os tipos imagináveis. A covid-19 deve servir como um período de purificação – metanoia – da Igreja Católica para com o clericalismo arrogante, com o deserto árido do carreirismo, com o triunfalismo de ostentação, com a rotinização litúrgica insípida, com as performances religiosas teatrais, com as disputas endêmicas por poder e propriedade e com as desventuras sexuais clandestinas de clérigos.

Depois de passar pela experiência de covid-19, como poderá a Igreja Católica na Índia voltar à normalidade? Não. Ela precisa sair arrependida e convertida desta pandemia e com uma nova mentalidade: novus habitus mentis. Deverá ter aprendido algumas duras lições. Não podemos vender a justiça por trinta moedas de prata – pelas bênçãos das deidades que presidem o poder. Uma Igreja renovada se comprometerá resolutamente a eliminar o vírus da injustiça incorporado letalmente em nossos sistemas políticos, sociais, econômicos e culturais reinantes. Esta Igreja aliviará o sofrimento dos pobres e enxugará as lágrimas das vítimas inocentes. Infelizmente, o vírus da injustiça não se pode eliminar batendo-se panelas e frigideiras nas janelas e varandas. É preciso que a Igreja desça ao solo empoeirado, manche-se e suje-se – com diria o Papa Francisco – por estar nas ruas em solidariedade com os pobres, impotentes, imigrantes, marginalizados e vítimas. Podemos esperar uma Igreja Católica diferente na Índia pós-covid-19?

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