“Precisamos elevar nosso comportamento ético e o compromisso com o bem comum”. Entrevista com Jeffrey Sachs

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16 Junho 2020

No Instituto da Terra da Universidade Columbia, cujo Centro de Desenvolvimento Sustentável (CDS) é dirigido pelo reconhecido economista Jeffrey Sachs, são analisados alguns dos mais complexos desafios que o planeta e seus habitantes devem enfrentar: dos sistemas climáticos ao abastecimento de água, a contínua expansão urbana e a situação da religião e a pobreza em todos os continentes.

A entrevista é de Patricio Tapia, publicada por La Tercera, 12-06-2020. A tradução é do Cepat.

A missão do organismo liderado pelo pesquisador estadunidense (65) abarca iniciativas em áreas muito diversas como a educação, as temáticas de gênero e uma que hoje abarca a atenção de milhares de milhões de pessoas, produto da atual pandemia: as doenças e seus diagnósticos. De fato, os especialistas do CDS desenvolvem projetos que buscam, por exemplo, reduzir a mortalidade da malária, a AIDS, a tuberculose e várias patologias tropicais que passam muito despercebidas. Justamente a propagação da Covid-19, com um vírus desconhecido até alguns meses atrás, acabou marcando o lançamento do livro mais recente de Sachs: “The Ages of Globalization” (As eras da globalização).

No texto, publicado quando já haviam iniciado os protestos pela morte do afro-americano George Floyd, pela polícia de Minneapolis, o pesquisador e assessor da Organização das Nações Unidas traça um percurso por um terreno amplo: a história dos humanos há 70.000 anos até agora. Sua pesquisa segue as numerosas complexidades do processo de globalização e a capacidade deste fenômeno em melhorar a condição humana e, ao mesmo tempo, gerar ameaças como a rápida expansão de um vírus que, em apenas algumas semanas, ampliou-se até somar mais de 7 milhões de infectados e um número de mortos que já supera os 400.000.

“A epidemia de Covid-19 açoitou quando este livro ia ser publicado. Um fenômeno sumamente global – uma doença pandêmica – estava provocando, repentinamente, as mais locais das respostas: quarentenas, fechamentos de bairros, de fronteiras e de comércio. Em apenas três meses, o vírus se propagou de Wuhan, na China, para mais de 140 países. No século XIV, a peste bubônica espalhou a peste negra da China no curso de dezesseis anos, entre 1331 e 1347. Em nossa época, o patógeno chegou em poucos dias e através de voos sem escalas de Wuhan a Roma”, escreve Sachs na introdução de “The Ages of Globalization”.

Sachs, um dos maiores especialistas em desenvolvimento econômico, professor em Harvard antes de chegar a Columbia e que apareceu duas vezes na lista dos 100 líderes mais influentes do mundo, publicada pela revista Time, sempre teve uma visão com perspectiva internacional. Por exemplo, um livro de 1993, intitulado “Macroeconomía en la economía global”, escrito junto com o economista chileno e ex-ministro da Fazenda, Felipe Larraín - a quem em um livro posterior classificaria como um de seus “companheiros de toda a vida em incursões intelectuais – apresentava-se como o primeiro texto de macroeconomia moderna focado em economia do mundo e não apenas na de um país.

Essa perspectiva também atravessa as páginas de sua mais recente obra, onde expõe que a história da globalização é um relato de “gloriosas conquistas humanas, crueldades e danos autoinfligidos, e das grandes complexidades em alcançar o progresso em meio à crise”. Para ele, este processo envolve um complexo laço entre geografia, instituições humanas e conhecimento técnico. “A Covid-19 é ao mesmo tempo um fenômeno físico, um intruso repentino em nossa política e vida social e um objetivo de descoberta científica. Portanto, é o tipo de fenômeno da globalização que faz parte da experiência humana desde o início de nossa espécie”.

Eis a entrevista.

Os Estados Unidos parecem estar muito abatidos pela pandemia. Milhões de pessoas estão perdendo seus empregos e mais de 100.000 já faleceram. Como é a situação atual de seu país?

É muito grave, especialmente porque o presidente Donald Trump é um psicopata que tenta se manter no poder por qualquer meio possível, inclusive pela lei marcial. É o pior presidente da história dos Estados Unidos e um grave perigo para o país e para o mundo.

O coronavírus gerou a pior crise econômica em décadas, ao passo que as taxas de desemprego são históricas em muitos outros países. Faz sentido recordar a crise de 1929?

Sim. Caminhamos para uma grande depressão devido à surpreendente incompetência e impiedade de líderes como Trump, Bolsonaro e outros.

As formas mais efetivas de controlar a emergência sanitária, como fechamentos e quarentenas, aprofundam eventualmente a crise econômica. É possível separar o problema de saúde do econômico?

A pandemia deve ser controlada antes de tudo por meio de medidas de saúde pública: teste, rastreamento e isolamento das pessoas infectadas, e distanciamento físico, utilizando máscaras e lugares de trabalho e espaços públicos seguros. Estes são métodos muito mais eficientes que os fechamentos gerais da economia, mas as medidas sanitárias públicas requerem sistemas de saúde pública intensivos e altamente profissionais.

Com o forte impacto da pandemia nas vidas e trabalhos perdidos, os Estados Unidos provavelmente estavam a ponto de explodir mesmo antes que George Floyd fosse assassinado. Foi a faísca necessária para isso?

A verdadeira faísca é a crueldade de Trump. Ele quer uma crise crescente para obter mais poderes de emergência.

Oportunidades desperdiçadas

A pobreza, é claro, não é um problema recente e foi um assunto urgente por várias décadas. Muitos dos chamados países em vias de desenvolvimento na realidade não seguem plenamente esse caminho e apresentam graus surpreendentes de desnutrição, doenças e ausência de habilidades básicas. Até mesmo em uma nação poderosa como os Estados Unidos, números de ProLiteracy apontam que há 36 milhões de adultos que não conseguem ler, escrever ou realizar cálculos matemáticos ao nível superior de uma criança da terceira série. E no Chile, segundo dados da Casen 2017, são cerca de 600.000 pessoas maiores de 15 anos que, em plena era digital, não sabem ler e nem escrever.

Esta realidade não é uma preocupação nova para Sachs, que se dedicou a analisar as economias dos países emergentes durante boa parte de sua carreira. Esse propósito o levou a percorrer de regiões mais opulentas até as pobres, com uma especial ênfase nestas últimas. Por isso, inúmeras vezes, visitou diferentes lugares da América Latina e África. Inclusive, em 2005, a rede MTV transmitiu um documentário intitulado “O diário de Angelina Jolie e o doutor Jeffrey Sachs na África”, que relatava a visita da atriz e do economista a uma série de vilas experimentais que o pesquisador implantou no Quênia para tentar tirar as pessoas da miséria.

De fato, o livro que o tornou mais conhecido fora da academia e que tem um prólogo de Bono, vocalista do U2, foi “O fim da pobreza” (2005). Nele abria uma nova perspectiva ao problema, sugerindo que todos os dias os principais jornais deveriam ter como manchete: “Mais de 20.000 pessoas morreram de extrema pobreza, ontem”. Também expunha que essa precariedade, definida como viver com menos de um dólar por dia, poderia ser erradicada em algumas décadas, caso fosse implementada uma série de programas de ajuda. Uma meta que, diante do intempestivo efeito da Covid-19, parece balancear seriamente.

A pandemia está ampliando a distância entre pessoas ricas e pobres dentro dos países?

A pandemia está aumentando consideravelmente a desigualdade e os estadunidenses mais ricos como Bezos e Zuckerberg estão se tornando ainda mais ricos.

A crise sanitária também está ampliando a distância entre países ricos e pobres? Como afetará os países de renda média e os mais desenvolvidos?

A pandemia dará um impulso à Ásia Oriental, incluída a Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), e fará retroceder grande parte da América Latina e os Estados Unidos.

A pobreza pode ser tão mortal como uma doença?

A pobreza mata através da doença, da desnutrição, da violência e do desespero.

Em “O fim da pobreza”, você afirmava que a indigência era uma escada que era preciso subir e que poderia ser erradicada até 2025. Hoje, a escada se tornou muito íngreme. Esse objetivo continua sendo possível?

Como de costume, o mundo desperdiçou muitas oportunidades para ajudar os pobres e agora a pandemia e sua má gestão nos Estados Unidos, Brasil e outros lugares farão com que a pobreza se torne muito pior. Não, agora não podemos acabar com a pobreza até 2025 e nem sequer até 2030. No entanto, devemos manter a batalha contra a miséria, incluindo a rejeição de políticos gananciosos, narcisistas e cruéis como Trump.

Como vê o panorama na América Latina? A Venezuela aprofunda seus problemas e os do México também parecem se agravar.

Eu o vejo muito ruim porque os Estados Unidos estão buscando destruir a Venezuela para derrubar Maduro. Bolsonaro está arrasando seu próprio país, e López Obrador, o AMLO, é incompetente. Está buscando resgatar a Pemex, pelo amor de Deus! Muitos outros países estão em uma profunda situação de pobreza, mudança climática e agora doença epidêmica.

A Argentina, por outro lado, parece ter tido um bom desempenho frente ao coronavírus, mas sob o peso de, mais uma vez, entrar na interrupção de pagamentos...

A Argentina fez uma oferta inteligente e equilibrada de reestruturação da dívida aos credores, que não foram o suficientemente inteligentes em aceitar. Os credores perceberão isso nos próximos meses, na medida em que a profundidade da crise global se tornar mais clara.

E o que acontece no Chile, que vinha de um período de fortes protestos prévios à chegada da pandemia?

O Chile está lutando para conter a epidemia e essa é, em muito, a mais alta prioridade agora.

Globalização e colaboração

Apesar das perspectivas muito mais sombrias que se vê para o futuro, Sachs tem esperança em um futuro melhor e foi o que expôs em seus livros mais recentes. Em “The Ages of Globalization”, vê a história da globalização em sete etapas que abarcam um conjunto de transformações em áreas como a geografia física, a tecnologia e as instituições.

A primeira é a paleolítica, quando os humanos ainda eram coletores. Depois vieram a neolítica, época em que começou a agricultura; a equestre, que trouxe a domesticação do cavalo e o desenvolvimento da protoescrita, que permitiu o comércio e as comunicações a longa distância; a clássica, quando surgiram os grandes impérios; a oceânica, quando os impérios se expandiram pelos mares; a industrial, quando algumas sociedades marcaram o começo da economia industrial; e a digital, que abarca do ano 2000 em diante e que faz com que quase todo o mundo esteja interconectado instantaneamente.

Cada idade permite ao economista tirar algumas lições e, mesmo que a era atual ainda esteja m desenvolvimento, Sachs acredita que podem existir novas formas de cooperação internacional que tornam ainda mais necessárias em tempos de pandemia.

Em seu livro anterior, “A New Foreign Policy” (2018), o intelectual delineava uma espécie de roteiro sobre como os Estados Unidos poderiam estar na liderança de iniciativas urgentes de colaboração global – como a redução da pobreza e o ecologismo –, caso diminuíssem seus investimentos militares. Sachs apresenta vários argumentos contra a intersecção do militarismo e o “excepcionalismo” estadunidense, ou seja, a ideia de que a ordem mundial requer que esse país use regularmente a força no estrangeiro para que a sociedade internacional não caia no caos.

Também explorava a ideia da China e Rússia como “ameaças”, o que adquire novos ares após o surgimento do coronavírus. O presidente estadunidense Donald Trump disse que a China criou deliberadamente o vírus, o que por sua vez o levou a enfrentar, em várias ocasiões, a Organização Mundial da Saúde (OMS). Primeiro suspendeu o financiamento e recentemente anunciou a ruptura de todos os laços com a instituição, porque “a China tem controle total sobre ela”. Além da geopolítica, o novo livro de Sachs também toca no tema da ajuda externa realizada pelos Estados Unidos, que classifica como desequilibrada e insuficiente. Inclusive, menciona um número: o orçamento total de ajuda do país equivale a aproximadamente duas semanas de gasto do Pentágono.

O “excepcionalismo” estadunidense, que você analisa em seu livro, adquiriu uma matriz mais intimidante durante a atual administração?

Trump empoderou os extremistas nacionalistas brancos nos Estados Unidos e alimenta a arrogância do poder norte-americano. Ele está tratando deliberadamente de criar uma nova guerra fria com a China, uma estratégia muito perigosa e equivocada.

Até que ponto Trump pode estar usando a crise do coronavírus como uma forma de lidar com sua ideia de que a China é “um poder perigosamente expansionista”?

Obviamente, ele está manipulando a crise para buscar atacar a China e alinhar outros países contra essa nação. Acredito que o esforço está fracassando, porque o mundo pode ver claramente como Trump é perigoso e destrutivo.

Em seu livro, também destaca que a ajuda exterior dos Estados Unidos é um assunto que está muito desequilibrado...

Os Estados Unidos, basicamente, detiveram a maior parte da ajuda externa, exceto como ferramenta de manipulação. Há poucas exceções, infelizmente, e Trump odeia a própria ideia da ajuda externa.

Em “The Ages of Globalization”, analisa e tira lições das sete eras que você identifica. Quais são os maiores perigos que a época em que vivemos deve enfrentar?

Nossa era enfrenta quatro grandes transtornos. O tecnológico, na medida em que avançamos para a era digital; o geopolítico, na medida em que passamos do predomínio dos Estados Unidos para um mundo multipolar; o ambiental, já que enfrentamos as crescentes ameaças e danos causados pela poluição, a destruição do ecossistema e a mudança climática; e agora o desta pandemia e outras que virão. Lidar com estes transtornos de maneira pacífica, cooperativa e para o bem comum global, em vez de em favor dos ricos e poderosos, é nosso grande desafio. Para isso, os conceitos de desenvolvimento sustentável e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), bem como o Acordo Climático de Paris, são vitais.

Por outro lado, você parece otimista e acredita que é possível superar esse pessimismo de Malthus, que inclusive prognosticou a extinção da espécie humana.

Temos os meios tecnológicos para abordar nossos problemas e, portanto, criar um mundo de prosperidade, justiça social e sustentabilidade ambiental. Meu otimismo, dessa maneira, está baseado no que podemos conseguir, caso cooperemos. Precisamos urgentemente de elevar nosso comportamento ético e o compromisso com o bem comum, bem como o nosso reconhecimento dos interesses comuns da humanidade em todo o planeta.

Os Estados Unidos e outros países europeus apontam para uma rápida abertura econômica. O que pensa sobre essa estratégia?

Não pode haver uma abertura econômica se a pandemia ainda continua em pleno vigor, como acontece nos Estados Unidos. Agora, Estados Unidos estão em uma batalha campal, devido à brutalidade policial, o racismo e a crueldade de Trump. Este será um período muito difícil para o país, e o presidente buscará convertê-lo em algum tipo de regime de emergência ou inclusive de lei marcial.

 

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