O ‘como antes’ não nos serve. Resistindo à nostalgia do sepulcro

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16 Abril 2020

"Se escolhermos o Ressuscitado, 'nossa aposta será pela vida, pela ressurreição dos povos'. Se, por outro lado, ficarmos com o olhar fixo no sepulcro, sem entender (e reconhecer) a Palavra de ressurreição e a grande e urgente novidade que está diante de nós, a opção será 'pelo deus dinheiro: retornar ao sepulcro da fome, da escravidão, das guerras, das fábricas de armas, das crianças sem escola'", escreve Mimmo Muolo, vaticanista do jornal italiano Avvenire, em artigo publicado por Avvenire, 14-04-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Maria de Magdala, depois de ter dado o alarme do desaparecimento do corpo de Jesus, chora com o olhar ainda fixo no sepulcro vazio.

Mesmo quando o Ressuscitado a interpela, ela o confunde com o guardião do jardim. E somente quando se sente chamada pelo nome, ela se volta para ele, invertendo a direção do seu olhar em 180 graus em relação ao sepulcro, é que o reconhece. Lemos tudo isso na passagem do Evangelho de João, imediatamente após a proclamada na Missa da Páscoa.

E ontem o Papa, na homilia da Missa de Santa Marta, comentou sobre isso no auge do itinerário da Páscoa. "O evangelho de hoje - ele disse - nos apresenta uma escolha cotidiana, uma opção humana que se mantém desde aquele dia: a opção entre a alegria, a esperança da ressurreição de Jesus e a nostalgia do sepulcro". Portanto, se escolhermos o Ressuscitado, "nossa aposta será pela vida, pela ressurreição dos povos".

Se, por outro lado, ficarmos com o olhar fixo no sepulcro, sem entender (e reconhecer) a Palavra de ressurreição e a grande e urgente novidade que está diante de nós, a opção será "pelo deus dinheiro: retornar ao sepulcro da fome, da escravidão, das guerras, das fábricas de armas, das crianças sem escola”. Terrível encruzilhada não apenas para os indivíduos, mas para toda a humanidade, para governos, instituições democráticas, círculos políticos e científicos e para aqueles que controlam o mundo econômico e financeiro.

Além disso, nunca tão atual quanto nesses meses de pandemia, enquanto já se prepara aquele “'depois” ao qual o Papa fez referência explícita. Aliás, parece que ele quis inocular essas palavras na consciência dos homens, como se fossem uma vacina.

Por um lado, para parar uma epidemia que desde sempre foi muito mais perigosa que o coronavírus – aquela do egoísmo e do ódio que andam de mãos dadas com a adoração ao deus dinheiro -; pelo outro lado, para espalhar aquilo que no domingo chamou de "o contágio da ressurreição que se transmite de coração para coração, porque todo coração humano aguarda esta Boa Nova".

Portanto, o depois do Covid-19 deverá ser, nos desejos e recomendações do Pontífice, a ocasião de uma revolução copernicana que coloque no centro de tudo o homem e não o dinheiro, os pobres e não a sua exploração indigna, os povos e não aqueles que querem oprimi-los. "Nada será como antes", é uma das frases que são ouvidas com mais frequência nesse período. Para não se tornar um slogan vazio, ou pior ainda, uma estratégia enganadora, durante esses dias da Páscoa, Francisco traçou uma espécie de roteiro precioso. "Oramos hoje pelos governantes, pelos cientistas, pelos políticos, que começaram a estudar a saída, o pós-pandemia: para que encontrem o caminho correto, sempre a favor das pessoas, sempre a favor dos povos", invocou ontem.

E, nesse contexto, a proposta de "uma forma básica de remuneração universal" não pode ficar em segundo plano para que "nenhum trabalhador fique sem direitos"; e a sólida chamada à União Europeia - também à luz do que aconteceu recentemente em âmbito comunitário - que "enfrenta um desafio de época, do qual dependerá não apenas o seu futuro, mas o de todo o mundo". Nesse último caso, por exemplo, olhar para o sepulcro significa continuar dando rédea livre a essas "rivalidades", ao "egoísmo de interesses particulares" e "à tentação de retornar ao passado", o que podem levar à dissolução da UE, alertou o pontífice. Embora a escolha da ressurreição seja "mais uma prova de solidariedade, também recorrendo a soluções inovadoras".

Portanto, precisamos de uma inversão de marcha em todos os campos. Inclusive no vocabulário, deu a entender Francisco. Precisamos proibir termos como indiferença, egoísmo, divisão, esquecimento, comércio de armas, guerras, aborto (em uma palavra, o deus dinheiro) e, em vez disso, promover a solidariedade. Não é uma simples coincidência que o chefe de Estado, Sergio Mattarella, em uma mensagem aos italianos, tenha falado na sexta-feira passada precisamente da necessidade de um "contágio de solidariedade", que evidentemente não se aplica (do ponto de vista do conteúdo) apenas a nós. E é significativo que essa palavra, “contágio”, tenha ecoado a distância em tão pouco tempo, tanto em seus lábios quanto nos do Papa. Contágio da ressurreição, ou seja, da esperança e da solidariedade. Para que todo homem se torne como Maria de Magdala, e dê uma virada de 180 graus. De costas para o sepulcro, o dinheiro, a morte e olhando para a vida real das verdadeiras pessoas e, em primeiro lugar, dos pobres.

 

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